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ARTIGOS

domingo, 30 de agosto de 2020

RESUMO: Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Erving GOFFMAN. Rio de Janeiro: LTC, 2012 | Capítulo 1


Publicado originalmente me 1963, Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, está dividido em um prefácio e cinco capítulos a saber: Estigma e identidade social (cap. 1), Controle de informação e identidade pessoal (cap. 2), Alinhamento grupal e identidade do Eu (cap. 3), O Eu e seu Outro (cap. 4) e Desvios e comportamento desviante (cap. 5).

Capítulo 1: Estigma e identidade social 

No primeiro capítulo, Goffman define estigma a partir do entendimento grego antigo e segue passando pela idade média até chegar ao mundo atual – no caso, atual sendo referência ao momento de publicação do livro, a década de 1960.

            Os gregos criaram o termo para fazer referência aos sinais corporais que possibilitariam identificar alguém que tivesse feito algo ruim, que fosse uma pessoa má ou mesmo extraordinária, moralmente falando. Essas marcas podiam ser de cortes, feitas com ferro em brasa e anunciavam para quem as visse que se estava diante de um assassino, traidor, escravizado e que se deveria evitar aquela criatura, principalmente se cruzasse com ela pelas ruas, em espaços públicos.

            Na idade média criou-se uma referência dupla: tanto seria sinal da graça divina na pele de quem a ostentava quanto poderia dizer respeito a distúrbios físicos. No contexto histórico do livro, a definição de estigma relaciona-se com a desgraça de quem o ostenta mais do que a sua corporificação.

            No prefácio, o autor apresenta estigma como sendo a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena (p. 7) e acrescenta que foram realizados estudos que ampliaram as categorias de pessoas “estigmatizadas”.

            Neste primeiro capítulo, Goffman expõe que o estigma surge quando há discrepância entre a identidade social real e a identidade social virtual, sendo aquela composta pelos atributos que o indivíduo efetivamente ostenta e a segunda se relaciona com o que atribuímos coletivamente ao indivíduo, nossas demandas e expectativas.

            O autor defende a ideia de que o estigma, em si, não é honroso nem desonroso, porque tem a ver com os estereótipos criados. Torna-se necessário, então, uma linguagem de relações e não de atributos, uma vez que estes tem a ver com a identidade social virtual. O autor chama atenção para o fato de que há atributos que a sociedade constrói que levam ao descrédito.

            Goffman informa que há duas situações referentes ao estigmatizado: quando ele assume que todos já conhecem a sua característica distintiva  ou que ela é identificada prontamente, ficando na condição de desacreditado ou de desacreditável, que é quando a característica que o estigmatiza nem é sabida e nem perceptível de maneira imediata.

            Aqui o autor enumera três tipos de estigma: (1) as abominações do corpo; (2) culpas de caráter individual e que a sociedade constrói como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, alcoolismo, homossexualismo, comportamento político radical e (3) estigmas tribais de raça, nação e religião – classe também.

            Ao portador do estigma são atribuídas características que ultrapassam a característica primeira, a imperfeição inicial, então ao estigmatizado se atribui comportamentos ou possibilidades de ação que não se confirmam diante de uma observação mais acurada (na maior parte das vezes). Algumas dessas atribuições são mágicas, sobrenaturais, como sexto sentido ou percepções.

            Também são naturalizadas como se fossem inerentes aos estigmatizados o defeito e a resposta como se as ações engendradas fossem parte de sua constituição enquanto indivíduos portadores do estigma.

            O autor chama atenção para o fato de que muitas vezes os indivíduos exigem comportamentos dos estigmatizados mas que eles próprios não se veem como obrigados a se comportarem de tal maneira, revelando, no mínimo, uma contradição. Identifica, também, indivíduos que não vivem da forma que lhes é exigida mas que não se importam, aparentemente não ligando para o que se espera. Exemplos citados por Goffman: ciganos, canalhas impunes etc.

            O estigmatizado pode reagir de duas formas: “corrigindo” a imperfeição que leva à atribuição do estigma ou dedicando-se a atividades que, cotidianamente, não se espera que consiga ou se destaque. No primeiro caso, muitas vezes, é passível de ser enganado (vitimizado) por charlatães e no segundo, exemplifica com aleijado que dançam em cadeiras de rodas, realizam magistralmente atividades físicas tidas como impossível diante da condição de estigma a que estão sujeitos.

            Outra forma de reagir seria utilizando seu estigma para “ganhos secundários”, para tirar vantagens, como desculpa para o fracasso. Pode também ver o estigma como sinal de uma espécie de “benção secreta”, atrelando o sofrimento da condição  a possibilidade de ensinar as outras pessoas, normais, algo sobre a vida. Pode ainda reafirmar as limitações dos normais, como não perceberem as benesses que estão ao seu redor.

            O maior desafio para o estigmatizado é o contato misto, o contato com as pessoas normais, o que pode levar a ambos os lados a evitarem contatos. Quando esses contatos ocorrem, o estigmatizado pode se descobrir inseguro em relação ao jeito como será recebido/identificado. A pergunta seria, então, em qual categoria ele será incluído?

            Além dessa insegurança, o estigmatizado pode se sentir como se estivesse sendo exibido, acarretando nele uma autoconsciência e autocontrole exacerbados. Suas ações podem ser percebidas como fora do comum, ou seja, extraordinárias. Erros e enganos porventura cometidos, podem ser classificados como expressão direta de seu estigma, gerando, muitas vezes, uma condescendência em relação a pessoa estigmatizada.

            No caso do estigmatizado desacreditado pode ser que, estando entre os normais, sinta-se exposto a invasões de privacidade, a episódios de curiosidade mórbida sobre a sua condição ou oferecendo ajuda quando não é necessária. Frases comuns: minha querida avó conseguiu um aparelho feito o seu; seu cabelo, você lava como?

            A agressividade pode ser também uma forma de agir ou a ação pode se dar entre o retraimento, classificado muitas vezes com timidez e a repulsa contra quem se aproxime – sendo essas atitudes ocorrentes em contatos mistos. O autor afirma que tais situações podem produzir no estigmatizado angústias relacionais.

            Nas interações mistas há dois possíveis comportamentos: ou se superestima ou subestima o estigmatizado e quando não há essa atitude, é tratado como uma não-pessoa, passando a não ser digno de atenção ritualmente constituída socialmente, de início.

            Aqui o autor afirma que a pessoa estigmatizada, por enfrentar a discrepância entre a identidade social e a virtual com mais frequência que os normais, tem mais habilidades, provavelmente, para lidar as situações desse tipo.

 

O igual e o “informado

 A discrepância entre a identidade real e a virtual, quando conhecida, acaba com a identidade social do indivíduo afastando-o tanto da sociedade quanto de si. Nesse sentido, pode ser que ele se depare com duas categorias de indivíduos: a que compartilha de sua mesma discrepância, podendo instruí-lo, abrindo espaço para partilhar sofrimentos e experiências, sendo aceito como uma pessoa normal, uma vez que naquele grupo, por ostentarem as mesmas discrepâncias, são todos normais.

            São construídos espaços de sociabilidade que podem fornecer para quem participar desde doutrinas completas até mesmo estilos de vida, redes de ajuda mútua etc. Segue a citação:

 

Uma categoria, então, pode funcionar no sentido de favorecer entre seus membros as relações e formação de grupo mas sem que seu conjunto total de membros  constitua um grupo – sutileza conceitual que daqui em diante nem sempre será observada neste livro. (p. 33)

 

            A organização em ligas contribui para a visibilização dos estigmatizados através da noção que se cria, quando são “nativas”, de que superaram limites. Outro ponto a considerar é de nicho de mercado, criando publicações que divulgam as formas de viver, suas aspirações, denunciando as condições em que vivem.

            Há, também, os profissionais da categoria, que, quando “nativos” são levados a ter contatos com outras categorias, quebrando a espécie de “redoma” em que se vivia, rompendo o “círculo fechado dos iguais” (p. 36). Outro aspecto a ser considerado é que, por representarem profissionalmente sua categoria, os nativos podem inserir parcialidades sistemáticas que só são possíveis por entenderem a situação porque a vivenciam.

            Os informados seriam aqueles que, não sendo estigmatizados, conhecem a situação, pois são aceitos entre eles, representariam o que no Brasil é classificado como “entendido”. Podem ser por causa do trabalho que exercem, pelo contato íntimo com o grupo de estigmatizados.

            Outro tipo de estigmatizado seria aquele que se relaciona com um em situações como casamento, maternidade, amizade. Estariam numa espécie de lugar em que são estigmatizados por extensão, de forma indireta. Essa espécie de transferência justifica a razão de se evitar relacionamentos com estigmatizados ou deles acabarem, no caso da discrepância adquirida tardiamente.

 

A carreira moral

 

Para Goffman, deve-se diferenciar a história natural das pessoas com um estigma da história natural do próprio estigma, que seria a história de como foi originada, difundida, mantida e quais alterações sofreu o atributo que serve de estigma em determinada sociedade. O autor defende que há fases referentes ao processo de aprendizagem da própria condição e de conhecimento do Eu.

            Uma delas é a fase em que o estigmatizado incorpora a perspectiva dos normais, assimilando as crenças da sociedade mais ampla acerca do estigma que lhe é atribuído. Outra fase é a que se caracteriza por aprender em detalhes as consequências de ser estigmatizado, o que difere da primeira fase.

            Ele enumera também modelos de aprendizado, totalizando quatro. No primeiro, o estigma é congênito e a socialização acontece no interior da situação de desvantagem, levando a pessoa a aprender “desde sempre” como é carregar determinado atributo.

            O segundo modelo se caracteriza por ter desenvolvido a capacidade de proteger a criança do mundo através de um grande controle de informação, possibilitando o contato com outras concepções de sociedade e fazendo-a crer que pertence a esse mundo, sem ressalvas. Ponto crítico: quando se sai desse modelo e a realidade se afirma presente.

            O terceiro modelo diz respeito ao se tornar estigmatizado posteriormente, numa fase avançada da vida ou quando se aprende de maneira tardia que sempre foram desacreditáveis. Neste caso, faz necessária uma total reorganização de cosmovisão. O quarto modelo é quando ocorre a socialização em um local diferente daquele que faz parte na sociedade normal.

             Estando em fase avançada da vida, o estigmatizado enfrentará dificuldades em lidar tanto com novas relações quanto em manter as anteriores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A PRECARIZAÇÃO DA VIDA EM "VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI"

[ALERTA DE SPOILER]

- Você não é contratado aqui. Você vem “a bordo”. Dizemos que você “embarca”. Não trabalha para nós. Trabalha conosco. Não dirige para nós. Você realiza serviços. Não há contratos de emprego. Não há metas. Você atende aos padrões. Não há salários, e sim honorários. Está claro?

- Sim.

- Claro?

- Sim, sim. Me parece bom. Sim.

- Você não bate ponto. Fica disponível. Você assina conosco e se torna um motorista franqueado. Mestre do seu próprio destino, Ricky. Para separar os perdedores de merda dos guerreiros. Está disposto a isso?

- Sim. Estava esperando por uma oportunidade como essa há… muito tempo.

O diálogo acima é apresentado logo no início do filme “Sorry, we missed you”, do diretor Ken Loach, na versão brasileira, “Você não estava aqui”. Nele acompanhamos a história da família de Rick, trabalhador que realiza entregas na condição de motorista franqueado, um prestador de serviços, alguém que trabalha COM a empresa e não para a empresa.

De início o filme parece tratar do trabalho precarizado, trabalho marcado por excesso de cobranças sobre o “franqueado” e que aparecem como metas a serem atingidas, sendo que essas metas exigem esforços tremendos que vão desde a redução drástica de tempo para almoço até a realização das necessidades fisiológicas em uma garrafinha de plástico.

“Sorry, we missed you”, aborda mais do que isso: ele expõe a precarização da vida. Em outros tempos, o trabalho precarizado estava restrito a um local: a fábrica, a mina e produzia uma vida miserável, mas que, com muito esforço, podia se ter, em um espaço separado, um “oásis” caótico para se afastar. Esse “oásis” não existe mais. Foi ocupado, desertificado pelos capatazes do capital: aplicativos instalados em celulares, máquinas que registram as entregas e bipam loucamente avisando que o “franqueado” passou mais de três minutos sem se mexer.

Rick não trabalha em regime precarizado, apenas. A sua vida toda é precarizada: não consegue acompanhar o filho mais velho que apresenta problemas na escola e que realiza intervenções artísticas em paredes pela cidade. Ele representa a situação de milhares de jovens em idade escolar: a completa falta de perspectiva de vida.

Sua esposa teve que vender o carro para que Rick pudesse dar entrada na van para realizar as entregas e passou a usar o transporte público para exercer seu trabalho de cuidadora, sendo que esse trabalho é similar em seu funcionamento ao que o marido faz: ela recebe pelo tempo que está com a pessoa, no caso, o horário em que ela dá banho, veste, alimenta seus pacientes, o que a obriga a atender várias pessoas no mesmo dia para conseguir manter-se na linha de sobrevivência. Sem veículo próprio, o esforço para dar conta de tudo isso é muito maior.

O mundo da vida foi tomado pelo mundo do sistema, o que isso quer dizer? Que não há mais separação, não há mais barreiras que impeçam a dominação do capital sobre o que fazemos. Essa instância de dominação e violência é imperceptível, os problemas criados por esse regime de trabalho não são percebidos como tais. Naturalizados, são colocados como incompetência de quem trabalha ou preguiça mesmo, o que mostra a perversidade desse sistema, culpando a vítima que, paradoxalmente e contra a própria existência, defende aquilo que a mata. Estamos diante de uma ideologia suicidária.

A exploração do trabalho, do tempo, da vida de quem trabalha atingiu requintes de perfeição. A educação é precária, o que contribui para que se tenha mão-de-obra para tais serviços, uma vez que o horizonte de possibilidades para a maior parte da juventude em idade escolar é praticamente nulo e, se pensarmos em um país como Brasil, é só adicionar o sadismo estrutural das relações trabalhistas.

Essa precarização destrói homens e mulheres, que, brutalizados, tentam sobreviver. Não há educação, não há direitos trabalhistas, não há saúde. Tudo é insegurança. Até mesmo a lei, que em teoria deveria ser a mesma para todo mundo, mais do nunca, privilegia setores bem específicos da sociedade. Seria plausível pensar no estabelecimento de um “estado de natureza hobbesiano”. Tudo o que foi criado e conquistado coletivamente está sendo implodido para atender à utopia liberal.

Diante do imperativo da sobrevivência, qualquer vínculo mínimo é deixado de lado. Contingentes de seres humanos brigando entre si para vender seu tempo, suas forças, suas inteligências para companhias cada vez mais especializadas em cercar, extrair e extinguir essas vidas que só importam na medida em que servem para azeitar a máquina de moer gente do capital.

Quando Rick é roubado é que podemos ver essa máquina em ação: se ele não for trabalhar, a “parceria” está rompida e ele ainda tem que pagar pelos dias não trabalhados e mercadoria roubada, o que, na prática, supera muitas vezes o que é pago pelas entregas em dias de trabalho. Em uma das cenas mais revoltantes do filme, quando Rick está no hospital para receber cuidados médicos após o roubo, ele recebe a ligação do seu chefe (não denominado como tal) para avisá-lo do que pode acontecer se ele não voltar ao trabalho.

“Sorry, we missed you” é a exposição do que está por trás das entregas foguete, das entregas ultra rápidas: vidas violentadas, precarizadas e que não tem nenhuma importância para quem realmente é beneficiado: os donos dessas empresas. Ao final, Rick decide fazer a única coisa que é possível em sua condição: voltar ao trabalho mesmo destruído física e mentalmente, afinal o deus boleto requer sacrifícios que não podem esperar. Para quem assiste fica a lembrança do que está por trás daquela compra mais barata e de entrega mais veloz: sangue, pranto e ranger de dentes. Se você não for parte dos que lucram com trabalhos como o de Rick, então, união e solidariedade nunca foram tão subversivas e necessárias.

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM PROJETO MÍMESIS

em 16.junho.2020