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ARTIGOS

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Inútil e perigosa: a filosofia sob ataque


Ser professor de filosofia no Brasil anda sendo perigoso. Nos últimos tempos a nossa situação confirma o refrão do clássico do cancioneiro popular no país: “não está sendo fácil viver assim/você está grudado em mim (...)”, porém o que está “grudado” na gente é o patrulhamento, a paranóia e superestimação das nossas capacidades de mexer com as mentes de nossos educandos e educandas.

Pela perspectiva do atual presidente e de muitos de seus asseclas, somos responsáveis por tudo o que aconteceu, acontece e que está por vir nesta terra em que “se plantando tudo dá”: Protestos? Foi doutrinação que aconteceu nas escolas. Alto custo de vida? Foi o pessoal de filosofia que “fez a cabeça” de quem é proprietário de supermercados e afins para que se comprometam com a conspiração comunista planetária. Pandemia de covid-19? Arma biológica que, secretamente, vai inocular o “gayzismo esquerdopata abortista venezuelano orgiástico” nas pessoas, garantindo o fim da tradicional família brasileira.

Parece que não é uma opção cogitar que as pessoas protestam porque estão insatisfeitas com a (des)ordem vigente ou que há aumento do custo de vida porque o mercado é regido por interesses baseados na lei da oferta e da demanda (a partir da exploração de quem efetivamente trabalha) ou que a pandemia revela o total desinteresse em garantir condições de vida adequadas para população, inclusive condições de trabalho, o que contribuiu para a propagação do vírus.

Tudo é culpa de professoras e professores de filosofia que tramaram e continuam tramando contra a liberdade de jovens e das famílias dessa juventude de decidirem o que é melhor para suas crias. Qualquer indicação de leitura, de filmes, seriados, canções ou mesmo uma troca de ideias sobre o mundo, sobre a vida é logo tratada como doutrinação. A pergunta que pode aparecer logo em seguida é: por que algo tão inútil como a filosofia é tão perseguida? Por que parece tão perigosa? Se é inútil, como pode ser perigosa? Ousaria escrever que parece uma paródia do clássico texto do Brecht “Perguntas de um trabalhador que lê”: Tantas perguntas, tantas questões.

Movido pela adrenalina filosófica, inspirado pelo clássico Pokemon: “Schopenhauer, eu escolho você!” para desenvolver uma chave de leitura sobre essa situação.



Schopenhauer circula com popularidade pelo mundo dos memes, sempre representado por uma mescla de amargura, sarcasmo e ironia, mas, há uma parte das ideias dele que podem promover, não sem antes desestabilizar um pouco nossa autoestima, uma ampliação da nossa potencialidade de viver, de existir com mais sentido ou, por assim dizer, com mais autenticidade. E tudo isso a partir do caráter.

Talvez o uso da palavra caráter ative o sinal de alerta de moralidade, afinal, caráter geralmente vem acompanhado de discursos de normatização do comportamento, de juízos de valor que definem certo e errado, bem e mal. Acalme seu coração e cérebro, não tem relação direta e profunda como pode parecer. Segure a atenção e não saia da tela do aplicativo que vamos começar.

Caráter, no pensamento de Schopenhauer, refere-se à natureza individual e particular da vontade. Todo mundo tem vontades que se manifestam quase que a todo momento. Essas vontades nos levam a comer, beber, dormir, defecar, urinar. Também nos levam a participar de festas, encontros aleatórios, disputar vagas de emprego e promoções. As vontades nos levam a lugares os mais diversos, a tomar desde atitudes louváveis como atravessar um idoso para o outro lado da avenida conde da boa vista (importante via aqui de Recife) até “jogar pala” para conquistar o pretendente do amigo (!) Uma questão: Para quê tudo isso?

Tanto as vontades relativas às necessidades básicas como as de convívio social e as atitudes execráveis; até a pergunta sobre a finalidade disso tudo, está no conjunto do que Schops nominou como caráter, sendo que ele identificou três tipos de caráter, os seguintes: caráter da espécie, caráter individual e caráter adquirido.

SOBRE OS TIPOS DE CARÁTER

O caráter da espécie é o que nos lembra que pertencemos ao mundo natural, ao conjunto do que seria uma vontade macrocósmica e por pertencermos a ela, não podemos escapar de seus desígnios, ou seja, temos que nos alimentar, dormir, buscamos a manutenção da nossa vida e também empreendemos verdadeiras odisseias para transar com alguém.

Já o caráter individual é só um pouquinho mais complexo: refere-se ao que poderia ser denominado como o “reino humano”. Neste âmbito estariam os sentimentos, as emoções, aquilo que nos toma e nos leva a agir: ódio, medo, alegria, esperança. Tenha em mente que estes são individuais, cada uma de nós expressa e sente de maneira própria e específica, sendo impossível prever ou definir leis sobre como agiremos ou como as outras pessoas agirão inclusive em relação a nós. Aqui, Schopenhauer trata da confiança, mas que foge dos objetivos desse texto, fica para um próximo.

Chegamos ao terceiro tipo, o caráter adquirido. No pensamento de Schopenhauer, esse caráter refere-se ao saber sobre si, o tão mencionado autoconhecimento. Esse saber sobre si é o que nos distinguiria da generalizada e uniforme massa humana. Pense da seguinte maneira: todos que compõe a chamada humanidade apresentam semelhanças físicas e sofrem os clamores da espécie, ou seja, todo mundo está sujeito a sentir fome, sede etc. Nessa mesma linha de raciocínio, somos basicamente movidos e movidas por desejos e buscas de realizações que, praticamente, não se diferenciam.

O caráter adquirido seria a consciência da vontade que se tem, das vontades primárias e a autonomia para tomar atitudes no turbilhão composto pelas vontades da espécie e pelas vontades individuais. Segue um trecho contundente sobre esse ponto, que foi escrito pelo próprio Schops:

dentro de si [uma pessoa] encontra disposições para todas as diferentes aspirações e habilidades humanas: contudo, os diferentes graus destas na própria individualidade não se tornam claros sem o concurso da experiência. [...] Pois, assim como nosso caminho físico sobre a terra não passa de uma linha, em vez de uma superfície, assim também, na vida, caso queiramos alcançar e possuir uma coisa, temos de renunciar e abandonar à esquerda e à direita inumeráveis outras. Se não podemos nos decidir a fazer isso, mas, igual a crianças no parque de diversões, estendemos a mão a tudo o que excita e aparece à nossa frente, então esta é a tentativa perversa para transformar a linha do nosso caminho numa superfície (SCHOPENHAUER, 2005, p. 393)


Seríamos, então, para utilizar a citação acima, como crianças que, uma vez no parque, querem tudo o que é oferecido, tudo o que está lá. Por essa perspectiva, o velho Schopenhauer joga na nossa cara que não somos tão individuais como queremos acreditar ou nos fazem acreditar. Perturbador, não é?

E O ATAQUE AO PENSAMENTO FILOSÓFICO TEM O QUÊ COM ISSO?

Vou iniciar essa parte do texto com um trecho da canção “Comida”, do grupo de rock tupiniquim “Titãs”:

(...)
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
(...)

Há várias análises dessa canção e caso você nunca tenha ouvido na vida, pare a leitura desse texto, acesse o aplicativo de música presente no seu telefone e escute. O texto não sairá daqui.

Pronto, letra completa e melodia muito boas essa canção nos apresenta e agora que já estamos ambientados, esse trecho pode servir para construir uma relação com a ideia de Schopenhauer de que somente a partir do caráter adquirido poderemos deixar de fazer parte da uniformidade humana.

Quando Bolsonaro, no ano passado, mais especificamente em 26 de abril, publicou em seu perfil no Twitter que

“A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.”


pode-se entender que para ele o básico da educação é suficiente. Não é novidade, já é lugar comum que as humanidades não são aceitas pelo presidente, mas vamos avançar e ver como Schopenhauer pode nos oferecer uma chave de leitura interessante sobre isso tudo.

Somos uma massa uniforme, sendo que essa uniformidade se apresenta e nos rege desde as vontades atreladas a espécie até o que fazemos na vida social. Vivemos a partir de uma repetida busca pela satisfação da fome, da sede, do sono e afins; também pensamos, queremos o que é comum, o que é banal, o que é do cotidiano.

É nessa situação que o pensamento filosófico é potencialmente transformador. A partir do momento que as vontades da espécie são pensadas e o automatismo da vida em sociedade é desnaturalizado, podemos viver com maior autoconhecimento, uma vez que entraremos em contato, de forma consciente, com as nossas inclinações, com as nossas habilidades, com a potência do que podemos pensar, fazer e aspirar para nós.

O autoconhecimento e a desnaturalização impedem que as pessoas se tornem seguidoras de outras, asseclas acéfalos que aceitam a ordem (desordem?) social e os sofrimentos que as desigualdades engendram como se fossem parte de um plano maior com objetivo de uma eternidade que não se sabe existente (ou não existente), mas que essa promessa permite a perpetuação de misérias inomináveis.

No entendimento de Schopenhauer, existem ídolos os mais diversos. Fazendo uma transposição para a contemporaneidade, ídolos esportivos, ídolos morais, ídolos do mundo do entretenimento, ídolos políticos. Como resultado da falta de caráter adquirido no que se refere ao autoconhecimento, como não entramos em contato com nossas inclinações, paixões, habilidades, inapetências, não realizamos os esforços exigidos nesse processo.

É como se, por não encararmos o que temos em nós, em termos de potencialidades e fragilidades, vontades e desejos, entregássemos tudo para esses ídolos porque esses ídolos encarnariam os méritos que não temos. Não teríamos do que nos orgulhar, por assim dizer, então, por isso, nos orgulhamos dos ídolos por tudo que eles aparentam ser ou ter (no que se refere às qualidades).

No caso específico dos ídolos políticos, o Bolsonaro sendo um deles (mas pode ser qualquer um), ele se enquadraria no esquema teórico do Schopenhauer posto que é uma representação dessa uniformidade humana, do que é o humano comum, que vive em função da satisfação das necessidades básicas, encarnando o comportamento em série e, por assim dizer, “de manada”.

Anatemizar a filosofia é o caminho para garantir que mais pessoas sejam mantidas inertes no âmbito do caráter da espécie e do caráter individual, essa manutenção permite a perpetuação da idolatria, o sacrifício da própria vida, inclusive, agradecendo por esse messias existir e estar entre nós.

É, assim entendemos porque a filosofia é tão inútil e paradoxalmente perigosa.

TEXTO PUBLICADO EM

Referências:


HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Tradução de Carlos Henrique Pissardo. São Paulo: Editora Unesp, 2015b.

LAZARINI, Lucas. A atualidade de Schopenhauer, de Max Horkheimer. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S.l.], v. 9, n. 2, p. 190-208, dez. 2018. ISSN 2179-3786. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/36126>. Acesso em: 02 abr. 2020.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tomo I. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria de vida. Tradução Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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