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ARTIGOS

sábado, 2 de maio de 2020

COVID-19: Quando a doença é uma metáfora


Este texto é uma tentativa de pensar a situação no país a partir da pandemia do covid-19. Não se propõe a estabelecer chaves de leitura totais ou dogmáticas, mas sim, proporcionar elementos para pensar o que acontece e elaborar possibilidades de ação tendo como ponto de partida a reflexão filosófica e a experiência no interior da vida social.
                Sabemos que a situação não está boa para quem promove ou é entusiasta do pensamento “de humanas” no Brasil. Parece que a área de humanidades foi responsabilizada por todas as mazelas nacionais e internacionais. Verbas de universidades foram cortadas, bolsas de iniciação científica vetadas e qualquer solicitação de bolsa na área de humanas, caso não promova área de tecnologias, vai ser notoriamente negada.
                Por que essa menção ao que de mais recente temos na política nacional em um texto que se propõe fornecer instrumentos para pensar, entender e elaborar formas de ação em um contexto que lembra muito as mais remotas distopias? A resposta, que para algumas pessoas se apresenta óbvia, é de que está tudo interrelacionado. E, caso você continue a leitura, poderá confirmar essa interligação. Pois bem, temos alguns tópicos que foram organizados de maneira a sairmos, por assim dizer, do mais “raso” ao mais complexo.
                Vamos começar, então.

1. A pandemia como metáfora do especismo
A proposta aqui é pensar a pandemia em relação direta com o especismo e, para tanto, vamos começar definindo especismo, que é o preconceito ou a atitude tendenciosa de alguém a favor dos interesses de membros de sua própria espécie e contra os de outras (SINGER, 2010, p.8). O autor dessa definição foi Peter Singer que, em 1975, publicou o livro Libertação Animal, considerado um clássico que orientou e ainda orienta o debate sobre os direitos dos animais não-humanos.
                Ser especista é acreditar e defender que há hierarquias entre as espécies e que a espécie humana estaria no topo, seria aquela a qual todas as outras espécies devem se submeter, devem atender aos interesses, não importando qual seja, a humana deve ser atendida antes mesmo de qualquer outra.
                Angélica Velasco Sesma ampliou o conceito apresentado por Singer inserindo perspectivas ecofeministas: animais não humanos e mulheres tem seus direitos básicos negados, existindo para atender às necessidades dos homens, que, por sua vez, são animais humanos e expropriam do direito de se autodeterminarem de tudo o que não for masculino e humano. Violência naturalizada e generalizada contra mulheres e animais de espécies diversas da humana.
Há um debate no âmbito das universidades e das militâncias ao tratar de especismo. Não vamos tratá-lo aqui porque ultrapassa o objetivo desse texto. Vamos juntar as duas abordagens, elas não são necessariamente excludentes e o que interessa são as chaves de leitura que elas podem nos proporcionar. Avancemos.
A partir do que foi apresentado, a pandemia pode ser lida como uma metáfora do especismo, como resultado dessa atitude de se colocar em posição de superioridade em relação às outras espécies existentes no planeta. Você provavelmente estudou na escola que somos diferentes de outros animais por causa da nossa racionalidade. Aristóteles, há milênios, deu sua contribuição no desenvolvimento dessa crença.
Na história das ideias, há registros em larga quantidade de sistemas, ideologias, epistemologias que realizaram verdadeiros malabarismos para colocar-nos distantes do mundo natural e este deveria ser esquadrinhado, dominado e determinado para atender aos ditames de nossa racionalidade. O iluminismo foi a cereja do bolo desse processo.
O discurso científico foi alçado à condição de ordenador, de legitimador do que é verdadeiro, do que é certo e, também, do erro e do falso. Essa divisão estabeleceu a crença na onipotência humana diante do mundo natural. Foi apagada uma realidade necessária, uma realidade que não pode ser diferente do que é: também somos animais e estamos sujeitos ao que poderíamos denominar de leis naturais.
Temos que comer, dormir, beber água, defecar, urinar. Não sobrevivemos sem dar vazão a esses imperativos. Por mais que tenhamos usado, pretensamente, a nossa racionalidade e criado desde a pá até os celulares, nada disso nos impedirá de buscar alimentos, dormir, saciar a sede e excretar, sob pena de morrermos caso tentemos nos furtar disso.
Foi essa onipotência da razão que nos dispôs a submeter outras espécies às nossas necessidades. Desmatamos, extinguimos plantas e espécies não humanas quase indistintamente, pois salvamos espécies a partir de critérios nossos, arbitrários, desconsiderando que está tudo interligado. Da física à química, passando pela biologia todos os conhecimentos que nossa razão desenvolveu, expuseram essa interrelação. Ignoramos de forma solene. Tudo incrementado pela parceria razão instrumental e modo de produção capitalista.
O covid-19, outra espécie, invisível a olho nu, literalmente nos colocou para correr e corremos para nossas casas, para os abrigos que criamos para realização das nossas atividades mais naturais. Foi como se essa forma de vida gritasse: “o rei está nu!”, mas não apenas gritou como arrancou nossas roupas, mostrou quão inuteis são as tecnologias que desenvolvemos, nos levando, humilhados e humilhadas a ter que nos sujeitarmos a um ditame básico do mundo natural: o tempo.
               
2. A quarentena e a sociedade da transparência
Aqui começamos uma chave de leitura mais existencial e vamos mobilizar duas ideias: a de sociedade da transparência e a de sociedade do espetáculo. Tratar de sociedade do espetáculo é praticamente chover no molhado uma vez que a ideia se popularizou, mas é importante lembrar. O conceito de sociedade do espetáculo foi desenvolvido por Guy Débord e refere-se à mediação das relações sociais por meio de imagens.
                Viver em uma sociedade do espetáculo é viver em uma sociedade cujas relações são mediadas por imagens. As imagens agendam a nossa consciência, o que pensamos, definem, inclusive, como nos sentimos e o que devemos sentir. Pense na quantidade de vezes que o seu ânimo foi alterado a partir de uma imagem que chegou no seu whatsapp, a partir daquela postagem no seu feed, na quase extinta linha do tempo do facebook.
                É um processo duplo: buscamos imagens e fornecemos imagens. Talvez o único lugar em que a utopia da lei da oferta e da procura regulando-se mutuamente funcione seja na sociedade do espetáculo. Pois bem, aqui se insere a ideia de sociedade da transparência. Transparência é a qualidade do que é transparente e transparente é característica do que permite ser visto facilmente.
                Ver e ser visto sem obstáculos. Os obstáculos fazem parte da sociedade negativa, sendo que a negatividade não é o que chamamos no cotidiano de bad vibe, mas sim a qualidade do que é sinuoso e profundo. A sociedade da transparência é a sociedade positiva, as coisas são planas e rasas. Byung-Chul Han desenvolveu essa ideia no livro Sociedade da Transparência e nos fornece uma chave de leitura interessante para a quarentena e o desaparecer de si.
                É imperativo nessa sociedade espetacularizada que sejamos vistos para existirmos. A privacidade, constituída em longo processo histórico, desenvolvida em camadas de segredos cuja materialização vemos nos antigos diários, foi implodida em função da transparência que se busca para atrair mais olhares interessados na vida de quem posta, o que, por sua vez, gera curtidas, comentários, stories, patrocínios. Há uma verdadeira mentoria sobre onde ir, como ir etc.
                Imagens de comida, das pernas na praia, do rosto tendo ao fundo alguma paisagem indistinguível, todo esse catálogo das mesmas coisas foi prejudicado com o advento da quarentena, do confinamento. Toda essa exposição reivindica da pessoa a projeção, estar sempre “para fora”, sem muita (nenhuma) interiorização. Sem poder sair para “dar pinta” por aí (expressão comum aqui em Recife), as pessoas tiveram que se deparam com elas mesmas. É uma situação tremenda, imagina que “loucura” ter apenas a sua companhia?
               
3. O confinamento e o desaparecer de si
                Aqui o confinamento apresenta questões de ordem política e social. Quem pôde ficar em confinamento teve que se deparar consigo mesmo e com um afeto primordial: o medo. Medos os mais diversos se escalam, numa analogia medonha com jogo de futebol. Medo de perder o emprego, medo de ter a casa invadida, da violência generalizada, do desabastecimento e o medo primordial, fundante: o medo da morte.
                Nesse contexto, o discurso neoliberal ainda responsabiliza o indivíduo pela precariedade de uma situação que é social. Todos os medos listados acima potencializam um desejo, por assim dizer, de desparecer,

(…) o indivíduo abandona a luta e com maior ou menor intensidade se deixa levar pelas circunstâncias. Às vezes é dessa forma que ele encontra o tão desejado sossego. Ele sabe não dispor de poder para mudar as coisas. Qualquer discussão fracassaria. É uma situação sem saída. Retirar-se é a última possibilidade de evitar ser esmagado ou ser sufocado pelo seu peso.
(LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 23)

Se deixar levar pelas circunstâncias não deve ser entendido como fraqueza, mas, como diz o trecho acima, refere-se ao entendimento de que não pode mudar as coisas. Aqui a chave de leitura abre-se para questões amplas, relativas às condições materiais de existência. Temos um processo de precarização que atinge o mundo do trabalho e ultrapassa seus limites, chega ao mundo da vida. A maior parte das pessoas, trabalhadoras, vivencia a precarização da vida.
                Essa precarização é violenta, não há direitos trabalhistas, segurança já não havia, só definhou ainda mais. A saúde mental está em frangalhos, a autoestima destruída por uma conjuntura social e política que dissemina culpa sobre quem é vítima, o que ajuda a ampliar a percepção do aumento da violência doméstica durante a quarentena.

4. Vírus lá fora e parentes aqui dentro: a violência doméstica na quarentena
Vamos juntar as chaves de leitura apresentadas. O mundo como conhecíamos desmorona impiedosamente. De uma hora para outra a liberdade de locomoção está restrita. O trabalho que compõe um elemento fundamental da identidade individual e coletiva, não pode mais ser exercido como antes ou de maneira alguma. Há um grande risco de não ter mais emprego e os trabalhos que podem ser exercidos colocam em risco a própria vida e não rendem o necessário.
                Adicione o fator interno, os desejos íntimos, as fragilidades em relação às pessoas com quem se relaciona no “lar”. O casamento por um fio que não se partiu antes porque “sair de casa” para o trabalho aliviava as tensões, agora vai ter que ser vivenciado em todas as instâncias de ressentimento. A relação entre as crianças, o pai e a mãe com todas as demandas e incertezas que pairam sobre a prole tornam a casa um barril de pólvora. Não há espaço para brincar, não há sociabilidade a não ser em um espaço restrito e, nas periferias do país, tudo cai aos pedaços.
                Todos esses danos poderiam ser amenizados se a saúde mental fosse valorizada. O mundo ao redor está em ruínas e esmaga as crenças de que pode melhorar e voltar a ser como antes. O mundo interior, oprimido, uma panela de pressão. O que se espera diferente da violência como recurso para destruir o que me destrói?

5. A curva do futuro quando não há futuro
Não há futuro. Temos que criar. A utopia neoliberal, capitalista, provou de maneira prática, explicita que não dá conta da coletividade. Precisamos aceitar que essa ordem de coisas, que essa forma de vida é catastrófica. Daí a importância das ciências humanas. Somos seres históricos, nos relacionamos em coletividade e temos questões existenciais para lidar, questões sobre sentidos e finalidades da nossa vida e do que fazemos, pensamos e sentimos.
                A gestão do Estado brasileiro é suicidária, é necropolítica, querer salvar essa ordem de coisas é ir na direção de um acidente de trem. Precisamos de coragem, de ousadia, de união para seguirmos. A morte é, sim, presente e o futuro, incerto, mas Raul Seixas passou o recado:

(…)
Na curva do futuro muito carro capotou
Talvez por causa disso é que a estrada ali parou
Porém, atrás da curva
Perigosa eu sei que existe
Alguma coisa nova
Mais vibrante e menos triste
(A verdade sobre a nostalgia)
REFERÊNCIAS:

BADIOU, Alan. Petrogrado, Xangai: as duas revoluções do século XX. São Paulo: Ubu Editora, 2019.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis,RJ: Vozes, 2017.

LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

SESMA,  Angelica Velasco. Ética del cuidado para la superación del androcentrismo: hacia una ética y una política ecofeministas. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/317602372_Etica_del_cuidado_para_la_superacion_del_androcentrismo_hacia_una_etica_y_una_politica_ecofeministas

SINGER, Peter. Libertação animal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Inútil e perigosa: a filosofia sob ataque


Ser professor de filosofia no Brasil anda sendo perigoso. Nos últimos tempos a nossa situação confirma o refrão do clássico do cancioneiro popular no país: “não está sendo fácil viver assim/você está grudado em mim (...)”, porém o que está “grudado” na gente é o patrulhamento, a paranóia e superestimação das nossas capacidades de mexer com as mentes de nossos educandos e educandas.

Pela perspectiva do atual presidente e de muitos de seus asseclas, somos responsáveis por tudo o que aconteceu, acontece e que está por vir nesta terra em que “se plantando tudo dá”: Protestos? Foi doutrinação que aconteceu nas escolas. Alto custo de vida? Foi o pessoal de filosofia que “fez a cabeça” de quem é proprietário de supermercados e afins para que se comprometam com a conspiração comunista planetária. Pandemia de covid-19? Arma biológica que, secretamente, vai inocular o “gayzismo esquerdopata abortista venezuelano orgiástico” nas pessoas, garantindo o fim da tradicional família brasileira.

Parece que não é uma opção cogitar que as pessoas protestam porque estão insatisfeitas com a (des)ordem vigente ou que há aumento do custo de vida porque o mercado é regido por interesses baseados na lei da oferta e da demanda (a partir da exploração de quem efetivamente trabalha) ou que a pandemia revela o total desinteresse em garantir condições de vida adequadas para população, inclusive condições de trabalho, o que contribuiu para a propagação do vírus.

Tudo é culpa de professoras e professores de filosofia que tramaram e continuam tramando contra a liberdade de jovens e das famílias dessa juventude de decidirem o que é melhor para suas crias. Qualquer indicação de leitura, de filmes, seriados, canções ou mesmo uma troca de ideias sobre o mundo, sobre a vida é logo tratada como doutrinação. A pergunta que pode aparecer logo em seguida é: por que algo tão inútil como a filosofia é tão perseguida? Por que parece tão perigosa? Se é inútil, como pode ser perigosa? Ousaria escrever que parece uma paródia do clássico texto do Brecht “Perguntas de um trabalhador que lê”: Tantas perguntas, tantas questões.

Movido pela adrenalina filosófica, inspirado pelo clássico Pokemon: “Schopenhauer, eu escolho você!” para desenvolver uma chave de leitura sobre essa situação.



Schopenhauer circula com popularidade pelo mundo dos memes, sempre representado por uma mescla de amargura, sarcasmo e ironia, mas, há uma parte das ideias dele que podem promover, não sem antes desestabilizar um pouco nossa autoestima, uma ampliação da nossa potencialidade de viver, de existir com mais sentido ou, por assim dizer, com mais autenticidade. E tudo isso a partir do caráter.

Talvez o uso da palavra caráter ative o sinal de alerta de moralidade, afinal, caráter geralmente vem acompanhado de discursos de normatização do comportamento, de juízos de valor que definem certo e errado, bem e mal. Acalme seu coração e cérebro, não tem relação direta e profunda como pode parecer. Segure a atenção e não saia da tela do aplicativo que vamos começar.

Caráter, no pensamento de Schopenhauer, refere-se à natureza individual e particular da vontade. Todo mundo tem vontades que se manifestam quase que a todo momento. Essas vontades nos levam a comer, beber, dormir, defecar, urinar. Também nos levam a participar de festas, encontros aleatórios, disputar vagas de emprego e promoções. As vontades nos levam a lugares os mais diversos, a tomar desde atitudes louváveis como atravessar um idoso para o outro lado da avenida conde da boa vista (importante via aqui de Recife) até “jogar pala” para conquistar o pretendente do amigo (!) Uma questão: Para quê tudo isso?

Tanto as vontades relativas às necessidades básicas como as de convívio social e as atitudes execráveis; até a pergunta sobre a finalidade disso tudo, está no conjunto do que Schops nominou como caráter, sendo que ele identificou três tipos de caráter, os seguintes: caráter da espécie, caráter individual e caráter adquirido.

SOBRE OS TIPOS DE CARÁTER

O caráter da espécie é o que nos lembra que pertencemos ao mundo natural, ao conjunto do que seria uma vontade macrocósmica e por pertencermos a ela, não podemos escapar de seus desígnios, ou seja, temos que nos alimentar, dormir, buscamos a manutenção da nossa vida e também empreendemos verdadeiras odisseias para transar com alguém.

Já o caráter individual é só um pouquinho mais complexo: refere-se ao que poderia ser denominado como o “reino humano”. Neste âmbito estariam os sentimentos, as emoções, aquilo que nos toma e nos leva a agir: ódio, medo, alegria, esperança. Tenha em mente que estes são individuais, cada uma de nós expressa e sente de maneira própria e específica, sendo impossível prever ou definir leis sobre como agiremos ou como as outras pessoas agirão inclusive em relação a nós. Aqui, Schopenhauer trata da confiança, mas que foge dos objetivos desse texto, fica para um próximo.

Chegamos ao terceiro tipo, o caráter adquirido. No pensamento de Schopenhauer, esse caráter refere-se ao saber sobre si, o tão mencionado autoconhecimento. Esse saber sobre si é o que nos distinguiria da generalizada e uniforme massa humana. Pense da seguinte maneira: todos que compõe a chamada humanidade apresentam semelhanças físicas e sofrem os clamores da espécie, ou seja, todo mundo está sujeito a sentir fome, sede etc. Nessa mesma linha de raciocínio, somos basicamente movidos e movidas por desejos e buscas de realizações que, praticamente, não se diferenciam.

O caráter adquirido seria a consciência da vontade que se tem, das vontades primárias e a autonomia para tomar atitudes no turbilhão composto pelas vontades da espécie e pelas vontades individuais. Segue um trecho contundente sobre esse ponto, que foi escrito pelo próprio Schops:

dentro de si [uma pessoa] encontra disposições para todas as diferentes aspirações e habilidades humanas: contudo, os diferentes graus destas na própria individualidade não se tornam claros sem o concurso da experiência. [...] Pois, assim como nosso caminho físico sobre a terra não passa de uma linha, em vez de uma superfície, assim também, na vida, caso queiramos alcançar e possuir uma coisa, temos de renunciar e abandonar à esquerda e à direita inumeráveis outras. Se não podemos nos decidir a fazer isso, mas, igual a crianças no parque de diversões, estendemos a mão a tudo o que excita e aparece à nossa frente, então esta é a tentativa perversa para transformar a linha do nosso caminho numa superfície (SCHOPENHAUER, 2005, p. 393)


Seríamos, então, para utilizar a citação acima, como crianças que, uma vez no parque, querem tudo o que é oferecido, tudo o que está lá. Por essa perspectiva, o velho Schopenhauer joga na nossa cara que não somos tão individuais como queremos acreditar ou nos fazem acreditar. Perturbador, não é?

E O ATAQUE AO PENSAMENTO FILOSÓFICO TEM O QUÊ COM ISSO?

Vou iniciar essa parte do texto com um trecho da canção “Comida”, do grupo de rock tupiniquim “Titãs”:

(...)
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
(...)

Há várias análises dessa canção e caso você nunca tenha ouvido na vida, pare a leitura desse texto, acesse o aplicativo de música presente no seu telefone e escute. O texto não sairá daqui.

Pronto, letra completa e melodia muito boas essa canção nos apresenta e agora que já estamos ambientados, esse trecho pode servir para construir uma relação com a ideia de Schopenhauer de que somente a partir do caráter adquirido poderemos deixar de fazer parte da uniformidade humana.

Quando Bolsonaro, no ano passado, mais especificamente em 26 de abril, publicou em seu perfil no Twitter que

“A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.”


pode-se entender que para ele o básico da educação é suficiente. Não é novidade, já é lugar comum que as humanidades não são aceitas pelo presidente, mas vamos avançar e ver como Schopenhauer pode nos oferecer uma chave de leitura interessante sobre isso tudo.

Somos uma massa uniforme, sendo que essa uniformidade se apresenta e nos rege desde as vontades atreladas a espécie até o que fazemos na vida social. Vivemos a partir de uma repetida busca pela satisfação da fome, da sede, do sono e afins; também pensamos, queremos o que é comum, o que é banal, o que é do cotidiano.

É nessa situação que o pensamento filosófico é potencialmente transformador. A partir do momento que as vontades da espécie são pensadas e o automatismo da vida em sociedade é desnaturalizado, podemos viver com maior autoconhecimento, uma vez que entraremos em contato, de forma consciente, com as nossas inclinações, com as nossas habilidades, com a potência do que podemos pensar, fazer e aspirar para nós.

O autoconhecimento e a desnaturalização impedem que as pessoas se tornem seguidoras de outras, asseclas acéfalos que aceitam a ordem (desordem?) social e os sofrimentos que as desigualdades engendram como se fossem parte de um plano maior com objetivo de uma eternidade que não se sabe existente (ou não existente), mas que essa promessa permite a perpetuação de misérias inomináveis.

No entendimento de Schopenhauer, existem ídolos os mais diversos. Fazendo uma transposição para a contemporaneidade, ídolos esportivos, ídolos morais, ídolos do mundo do entretenimento, ídolos políticos. Como resultado da falta de caráter adquirido no que se refere ao autoconhecimento, como não entramos em contato com nossas inclinações, paixões, habilidades, inapetências, não realizamos os esforços exigidos nesse processo.

É como se, por não encararmos o que temos em nós, em termos de potencialidades e fragilidades, vontades e desejos, entregássemos tudo para esses ídolos porque esses ídolos encarnariam os méritos que não temos. Não teríamos do que nos orgulhar, por assim dizer, então, por isso, nos orgulhamos dos ídolos por tudo que eles aparentam ser ou ter (no que se refere às qualidades).

No caso específico dos ídolos políticos, o Bolsonaro sendo um deles (mas pode ser qualquer um), ele se enquadraria no esquema teórico do Schopenhauer posto que é uma representação dessa uniformidade humana, do que é o humano comum, que vive em função da satisfação das necessidades básicas, encarnando o comportamento em série e, por assim dizer, “de manada”.

Anatemizar a filosofia é o caminho para garantir que mais pessoas sejam mantidas inertes no âmbito do caráter da espécie e do caráter individual, essa manutenção permite a perpetuação da idolatria, o sacrifício da própria vida, inclusive, agradecendo por esse messias existir e estar entre nós.

É, assim entendemos porque a filosofia é tão inútil e paradoxalmente perigosa.

TEXTO PUBLICADO EM

Referências:


HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Tradução de Carlos Henrique Pissardo. São Paulo: Editora Unesp, 2015b.

LAZARINI, Lucas. A atualidade de Schopenhauer, de Max Horkheimer. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S.l.], v. 9, n. 2, p. 190-208, dez. 2018. ISSN 2179-3786. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/36126>. Acesso em: 02 abr. 2020.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tomo I. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria de vida. Tradução Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Semana de entrevistas no TVPE no Ar!