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ARTIGOS

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Do rídiculo ao ódio como política de Estado: por que Bolsonaro?


Pensando em uma proposta do tipo “assista antes de votar”, o episódio da série Black Mirror “The Waldo Moment” estaria, sem dúvidas no topo da lista de sugestões. O olhar distópico que a série propõe lançar sobre a realidade é sempre útil para refletir sobre processos sociais. No episódio em questão, Waldo materializa a ideia de um político herói que, em oposição a figura “sem graça” dos políticos tradicionais, cria um discurso de fácil assimilação que consiste basicamente em atacar de forma agressiva e barulhenta a oposição para em seguida apresentar esse discurso como “humor” e/ou “excesso de sinceridade”. Assim, os ataques misóginos, racistas, homofóbicos, xenófobos e que envolvam todo tipo de discriminação que se possa imaginar, são vendidos como “piadas”, ou como “coragem de falar o que se pensa”. Na série, Waldo não apresenta propostas para nada – é um personagem político “fake”, cuja candidatura visa apenas fins mercadológicos e de entretenimento. No entanto,  o discurso  de Waldo acabado sendo “comprado” por pessoas que, paradoxalmente, se dizem contra políticos tradicionais, que seriam apresentariam uma imagem “fake” de si mesmos para conseguir votos.  A partir da figura de Waldo e da situação contraditória gerada por ele, a série britânica faz uma crítica ao processo de estetização da política, que cria personagens políticos cujas falas e ações são meramente performáticas, ou seja, que criam espetáculos sociais no lugar alternativas políticas reais.



A política é um fenômeno social, e como tal, muda à medida que mudam as sociedades. Na era da espetacularização de basicamente todos os aspectos da vida humana, a estetização da política criticada por Black Mirror se aproxima muito mais da realidade do que de uma distopia. O conceito de “ridículo político”, analisado por Marcia Tiburi, aborda a política a partir da publicitarização que reduziu sua práxis à representação vazia de conteúdo, em que a imagem produzida para ser consumida como mercadoria importa muito mais do que a coerência do discurso produzido. Sobre esse conceito, Tiburi (2017, p. 10) escreve que

As cenas do que chamei de Ridículo Político fazem parte da vida pública e correspondem a uma estetização curiosa da política (ou de uma certa forma de fazer política que se tornou tendencial) que vive da manipulação
da imagem e da produção de inverdades de todo tipo. O que chamei de “esteticamente correto” é o disfarce do ridículo, o esforço para estar na linha do padrão estético, que invade as relações em nível micro e macropolítico. O esteticamente correto se dá em cumplicidade com toda uma cultura de naturalização do ridículo na qual estamos submersos.


Não é difícil perceber as semelhanças entre o conceito filosófico de “Ridículo político” e as ações de Bolsonaro, assim como as do personagem com a personalidade do deputado, que ainda consegue inovar em um aspecto: aparece com soluções simplistas e imediatistas para problemas que ganham rápida repercurssão social, como o problema da segurança pública – ainda que seja, pra dizer o mínimo, incoerente para alguém que passou anos no Congresso Nacional sem apresentar nenhuma proposta viável para todos esses problemas, de repende possuir todas as soluções que irão magicamente resolvê-los. Diante disso tudo, resta entender: o que motiva a escolha Bolsonaro?

A popularidade da figura política de Bolsonaro é baseada em dois aspectos principais: na ostentação de uma fala abertamente favorável a ações violentas, como tortura e assassinato político, e na defesa da repressão absoluta de tudo aquilo que seja desviante do modelo de cidadão branco, heteronormativo, cristão e possuidor de poder aquisitivo. O apelo discursivo de Bolsonaro, portanto, é de cunho moralista. Essa é uma característica importante de se destacar, pois envolve um processo de negação como forma de afirmação. A contradição é apenas aparente, pois, ao negar algo ou alguém, implicitamente aponta-se para si mesmo como o contrário do que foi negado, e é por isso que o apontamento negativo se dá sempre contra o outro, e nunca para si mesmo. Dessa forma, ao apontar o outro como imoral, aponta-se para si mesmo como exemplo de moralidade, pois, nesse raciocínio, a autoridade acusatória só pode ser conferida a quem ocupa a posição “moralmente desejável”, o que leva a percepção de que a primeira motivação para o discurso moralista é o ego. Uma personalidade egocêntrica tende, por sua vez, à rejeição radical de tudo aquilo que diverge de si, seja essa divergência de aspecto ideológico, comportamental, religioso, cultural, etc, o que caracteriza uma postura autoritária.

Como já disse Jessé Sousa, a classe média brasileira, que se autoproclama a representante da moralidade e dos chamados “cidadãos de bem”, usa essa moralidade de maneira convenientemente seletiva fazendo “vista grossa” diante da corrupção dos setores representantes do status quo brasileiro, quando não defendendo essa corrupção seletiva abertamente (quem não se lembra dos cartazes equiparando sonegação de impostos à legítima defesa?). Para o sociólogo, essa legitimação seletiva da corrupção é um reflexo do ódio de classe que esses setores sociais ostentam, ódio esse que está ligado à mentalidade escravista que ainda permanece na sociedade brasileira, até então reprimida e agora exposta viceralmente nas ações e nos discursos, potencialmente ou abertamente, fascistas.

Aqui se volta ao processo de formação da socidade brasileira, marcado por mais permanências do que rupturas com a lógica colonial, e que perpetua até hoje os aspectos mais violentos das “mentalidades Casa Grande”: o desejo de segregação social da “ralé brasileira” (retornando mais uma vez à Jessé Souza para tomar emprestado o conceito criado por ele) e a extensão dessa segregação às estruturas do Estado e do sistema jurídico.

Nesse sentido, é válida a percepção de que as ideologias, entendidas como o conjunto de ideias socialmente construídas que estruturam as formas coletivas de percepção e apreensão do mundo, influenciam a produção de sentimentos – sendo importante ter em mente a diferença entre sentimento e emoção: sentimentos são produtos culturais e estão associados às formas como fomos ensinados a reagir diante das diversas situações que se apresentam no meio coletivo, como ciúme e ódio, enquanto que as emoções existem naturalmente como reações biológicas a situações externas, como se dá quando experimentamos o medo diante de um perigo. Assim, observa-se que predomina no cenário político atual o uso do discurso de ódio como um instrumento de construção do sentimento de ódio, sentimento este que está ligado ao desejo de reprimir e perseguir a oposição, e que é legitimado ideologicamente a partir do discurso da moralidade que normalmente acompanha o dicurso de ódio.

Ao pensar sociologicamente sobre esse processo, é fundamental a compreensão de que as mentalidades e os comportamentos de indivíduos que vivem em sociedade são permeados por relações de poder e que essas relações incluem o poder de criminalizar indivíduos. Ou seja, nas sociedades, a definição de criminalidade não existe naturalmente, mas perpassa o poder de atribuição de status. Status, em sociologia, significa a condição socialmente construída a que o indivíduo se encontra submetido, ou a posição social que ele ocupa, tendo sido esse conceito desenvolvido por Max Weber para analisar como pertencimento social, prestígio e poder se estruturam na sociedade. Assim, a atribuição do status social de criminoso é dada por quem detém, na sociedade, poder. Como consequência, a construção dessa condição social pode servir a interesses específicos dos grupos que detêm o poder para a obtenção de quaisquer objetivos que sejam desejáveis a esses grupos, inclusive objetivos políticos.

É por esse motivo que o apontamento da incoerência, da falta de qualquer tipo de consistência e até mesmo de  mentiras na fala de Bolsonaro não surte nenhum efeito sobre a imensa maioria dos seus eleitores: porque não se trata de política em si, mas de sentimentos. Quando se mostra que o deputado representa muito mais da velha política do que qualquer outra coisa, que passou anos usufruindo do salário e dos benefícios de deputado sem praticamente fazer nada no Congresso, que não apresenta projeto de governo nenhum e que se nega a debater sobre qualquer coisa – deixando óbvio seu despreparo para ocupar não só a presidência da república, mas qualquer cargo político – o que se observa é que tudo isso simplesmente pouco importa para quem apoia o que ele representa. Pouco importa o fato de que Bolsonaro esteve no PP, partido que ocupa o topo da Lava Jato em número de políticos investigados, ou o fato de que ele fale em “bandidos de estimação” quando recebeu dinheiro de propina da JBS através do partido e ainda tenha tentado justificar o ato indagando “qual partido que não recebe proprina?” e  tentou uma aliança política com o PR, partido cujo líder foi condenado pelo envolvimento com o mensalão e que tem vários deputados investigados pela Lava-Jato.

Os fatos não importam porque o que se busca no discurso de ódio não é a verdade, mas a legitimação da violência de quem já tinha o desejo por ela reprimido em si. O que a fala e a própria figura de Bolsonaro representam é a legitimação de todos os racismos, homofobias, machismos, facismos e ódio de classe que, se antes não se mostravam porque “pegava mal”, agora encontram o cenário construído para se mostrar sem o mínimo pudor. A recusa a qualquer pensamento baseado na lógica ou até mesmo no bom senso mais básico se dá porque o discurso de ódio não atinge a racionalidade civilizacional, mas sim os afetos políticos do indivíduo, afetos esses que estão ligados ao desejo de aniquilamento de tudo aquilo que é em algum aspecto desviante do que se considera moralmente aceitável (mesmo quando essa moral é questionável, afinal de contas não estamos tratando de coerência entre ação e discurso, mas de sentimentos reprimidos). Assim, para que o discurso de ódio seja eficiente, é necessário que se evite ao máximo possível o confrontamento com qualquer argumentação minimamente racional.



















Um dos grandes problemas dessa lógica discursiva é que, em regimes políticos autoritários, como os que são elogiosamente defendidos por Bolsonaro, o status social de criminoso pode ser atribuído arbitrariamente à qualquer um que questione de alguma maneira ou que represente de alguma forma um obstáculo para a efetivação dos interesses do poder instituído. Historicamente, regimes autoritários transformam todo discurso de questionamento da ordem em crime e os indivíduos que sustentam esses discursos perdem seu nome, passando a ser chamados de “terroristas”, “bandidos” ou “subversivos”, em um processo de apagamento de qualquer identidade subjetiva para o enquadramento em uma categoria política. A partir daí o que ocorre é o uso sistemático da violência como política de Estado, através da racionalização do processo de repressão e aniquilamento dos chamados “inimigos do Estado”.


Foi esse o processo colocado em prática pela Ditadura Militar brasileira, implantada a partir de 1964. A partir da criação de um poderoso aparato de coleta de informação, o governo militar desenvolveu uma logística de matar pessoas que se mostrou uma das mais eficientes. O funcionamento da tortura e do assassinato como política de Estado envolveu a captação de recursos financeiros fornecidos em boa parte por empresários, a sistematização de métodos de desaparecimentos de mortos políticos, a partir da queima de corpos, da retirada da arcada dentária e de digitais, impossibilitando a identificação, e o desenvolvimento de técnicas de tortura que permitissem infligir a maior dor física e a maior agonia psicológica possível sem matar, de modo a aniquilar qualquer capacidade de resistência da oposição. Ao contrário do que se pensa, a violência da ditadura não se direcionou apenas aos grupos que optaram por recorrer à resistência armada, mas à qualquer indivíduo a quem fosse de interesse do governo militar atribuir o status de inimigo do Estado. Sobretudo durante o processo de colonização - que promoveu a exploração de recursos naturais por empresas privadas em territórios ainda pouco povoados - fez-se necessário o controle e a eliminação de grupos sociais locais das áreas de interesse (áreas para empreendimentos de agropecuária, mineração e corte de madeira). Lilia Moritz Schwarcz (2015, p.463) escreve sobre o “Relatório Figueiredo”, o mais importante documento que relata a ação da ditadura sobre tribos indígenas, que

O resultado é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda a sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas brasileiros por proprietários de terra e por agentes do Estado. Figueiredo fez um trabalho de apuração notável. Incluiu relatos de dezenas de testemunhas, apresentou centenas de documentos e identificou cada uma das violações que encontrou: assassinatos, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Seu relatório denuncia – e comprova – a existência de caçadas humanas com metralhadoras e dinamite atirada de aviões, inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e doações de açúcar misturado a estricnina

Além das populações indígenas, existe uma vasta documentação que comprova a mesma lógica operacional de tortura e genocídio contra sem-terras, mineradores e comunidades ribeirinhas. Vale ressaltar que esses eram indivíduos que não possuíam quaisquer ligações com comunistas ou com grupos de oposição esquerdistas. Esses exemplos demostram a contradição da lógica de “perseguição do inimigo” presente no discurso de Bolsonaro: em sistemas autoritários, quem define quem é o inimigo? O que se observa, portanto, é a construção da ideia de um inimigo que serve aos interesses de quem detém poder.

Partindo desse raciocíonio, levanta-se uma outra questão: em regimes democráticos, discursos pró-ditadura devem ser aceitos, em nome da liberdade de expressão? A liberdade deve ser limitada em um regime que a tem como seu fundamento mais básico? Não existe solução simplista nos processos democráticos, e a resposta para esse impasse não foge a essa regra: sim, as liberdades devem ter limitações em regimes democráticos, e essa resposta não pode ter a pretensão de apresentar uma solução simples para esse problema complexo. Nenhum sistema que tem como fundamento estrutural a garantia de liberdades pode admitir uma liberdade absoluta, pois que o uso dessa liberdade pode, em algum momento, ameaçar a própria democracia e o seu fundamento básico. Em outras palavras, entende-se que a ideia de uma liberdade ilimitada pode – e em algum momento vai, a história não permite discordar –  gerar situações em que as liberdades democráticas podem ameaçar a existência da própria democracia e das liberdades instituídas por ela. As liberdades, pois, devem existir até o limite em que não ameacem a Lei-Maior que estabelece os princípios que permitem a democracia existir enquanto tal.

Nessa perspectiva, pensando a partir das teorias política e ética de Immanuel Kant, filosófo iluminista, percebe-se que, para ele, na organização da vida em sociedade, o indivíduo tem a sua liberdade limitada pela ação reguladora e pelo aparato jurídico do Estado, exercida através das suas instituições, e seria dentro dessas condições que a liberdade individual deveria ser exercida. Kant aponta que cada indivíduo só pode exercer a liberdade que reconhece igualmente a todos os outros, de modo que essa prática é ela mesma uma solução para as contradições da vida em sociedade. Consequentemente, a liberdade é limitada pelas leis civis instituídas a partir do contrato social, não se confundindo, entretanto, com a obediência alienada e inquestionável, mas sim com a possibilidade de reflexão crítica, inclusive da crítica sobre o próprio Estado, desde que em conformidade com o poder normativo democrático. Agir segundo esse princípio seria, do ponto de vista da ética kantiana, uma ação por dever, e este dever ético estaria, por sua vez, fundamentado na garantia da dignidade dos seres racionais que, fazendo uso de sua liberdade, instituem leis a si mesmos.

Percebe-se, a partir daí, que uma outra característica da democracia é a legitimidade do conflito de ideias, isto é, a aceitação da falta de consenso entre grupos que convivem em sociedade. A democracia, portanto, incorpora a negociação dos impasses sociais, de maneira que nenhum grupo possa impor a todos os outros seus desejos, mas que, a partir do diálogo e da negociação, se possa abdicar de algumas das vontades particulares em prol de projetos de sociedade que contemplem a coletividade social. Seria a aplicação de uma lógica próxima da Justa Medida aristotélica do “nem tanto, nem tão pouco”, uma vez que os diversos grupos de indivíduos nem poderiam impor totalmente seus desejos aos demais, nem precisariam abrir mão de absolutamente todos esses desejos em função de outros. Ao observar, portanto, a fala de Bolsonaro de que “minha proposta é defender direitos da maioria e não da minoria. (...) as minorias têm que se calar, se curvar à maioria”, percebe-se que ela reflete uma postura absolutamente antidemocrática. Porque, então, se diz que Bolsonaro defende ideias fascistas? Porque regimes fascistas não admitem a discordância de pensamentos. Nesses regimes, é imposto um conjunto de ideias e um projeto de sociedade que passam a valer como verdades incontestáveis, sendo qualquer divergência reprimida a partir do uso, ou da ameaça de uso, da violência.

Com base nisso tudo, a conclusão é a de que em qualquer sociedade que se pretenda verdadeiramente democrática, não pode haver espaço para o discurso pró-ditadura, para o discurso que fala abertamente em quebra das regras democráticas, em “metralhar” a oposição política e em reprimir minorias sociais. A escolha ou a recusa à Bolsonaro, portanto, vai muito além da recusa ou escolha de um partido político, trata-se do modelo de sociedade que as consciências individuais desejam. Resta apenas a sua reflexão, leitor que chegou até o final desse texto, sobre qual lado sua consciência está e, muito mais do que isso: qual o preço que você está disposto a pagar pela sua escolha – ou pela sua recusa?
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A ESCOLHA BOLSONARO: O QUE A FILOSOFIA PODE NOS DIZER


O objetivo deste texto não é tratar do candidato Bolsonaro ou de suas propostas. Também não é criticar as falas dele que circulam aos quatro ventos e redes sociais. Não se achará um dedo em riste apontando as inadequações de sua proposta de governo caso seja eleito. Isso tudo está em muitos lugares – muitos. Não será necessária sua reprodução aqui. Este texto objetiva pensar sobre as razões de Bolsonaro e suas propostas receberem apoio, ou seja, tentar-se-á, por meios das Filosofias, responder a pergunta: por que escolhem Bolsonaro?

“porque ele é o melhor preparado”, “porque ele é honesto”, “porque ele vai acabar com a bandidagem”,  “porque ele diz o que pensa sem medo”. Se você é um apoiador/a dele, talvez (talvez mesmo porque não estou querendo colocar ideias na sua cabeça) algumas dessas frases componham seu cabedal de justificativas. Antes de continuar, sei que existem outras razões mas não teríamos espaço e quem viesse a ler esse texto poderia achar enfadonha tanta listagem, por isso apenas estas.

Motivos para não o escolher também são vários e, atendendo a proposta do texto, não listaremos aqui. Mais uma vez: este texto propõe, por meio de algumas ideias filosóficas, entender as razões de algumas pessoas escolherem o mencionado candidato causando, inclusive, muito espanto no ciclo de amizades, locais de trabalho, grupos religiosos, barracas na praia, na rua, na chuva, na fazenda... ou numa casinha de sapê (agora na sua mente a musiquinha tocará hehehe).

Deixemos de coisa e cuidemos do texto.

ESCOLA DE FRANKFURT, ADORNO E A ESCALA “F”

Comecemos com a Escola de Frankfurt. Nascida Instituto de Pesquisa Social, a Escola reuniu pensadores como Max Horkheimer, Walter Benjamim, Jurgen Habermas e Theodor Adorno. A partir das ideias de Kant, Marx e Hegel e além deles foram desenvolvidas importantes reflexões sobre o mundo em que viviam e que produziu o mundo em que nós vivemos. Muitas das ideias frankfurtianas podem nos ajudar a entender nossos dilemas, nossas situações.

Para as finalidades desse texto, vamos voltar nossas atenções para o pensador Theodor Adorno. Ele realizou uma pesquisa movido pela tentativa de responder a uma pergunta mais ou menos essa: “Por que tantas pessoas apoiaram o nazismo?” Mas tenha em mente que a interrogação de Adorno foi mais ampla, uma vez que direcionou seu questionamento para o que chamaríamos hoje de “cidadã/ão de bem”.
 
adorno
O que motiva o indivíduo “pacato”, cotidiano, aquele que nunca antes na história de sua vida, de sua amizade, de seu relacionamento afetivo-sexual-amoroso a gritar palavras de ordem violentas, que pedem morte aos corruptos, morte aos degenerados e degeneradas sexuais, praticantes de “abominações” e afins?

Se você se fez essa pergunta, Adorno a fez de maneira um pouco diferente e noutros termos, afinal estava na primeira metade do século XX, do século passado. As respostas que ele encontrou são, ao mesmo tempo, perturbadoras e potencialmente libertadoras. Mas antes, um aviso:

ESTE TEXTO NÃO VISA CONVENCER QUEM ESCOLHEU BOLSONARO PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA A “DESESCOLHER”, TAMPOUCO OBJETIVA IMPEDIR OUTRAS PESSOAS DE ESCOLHEREM O CITADO CANDIDATO.

O OBJETIVO É OFERECER PONTOS DE PARTIDA PARA PENSARMOS NOSSAS ESCOLHAS E AS ESCOLHAS DE OUTRAS PESSOAS, O QUE É FUNDAMENTAL PARA EVITAR DARMOS “NOSSA OPINIÃO INTELIGENTE SOBRE O BLOQUEIO A CUBA” (PARAFRASEANDO A CANÇÃO DE CAETANO E GIL). EXPERIMENTE PENSAR.   

 Aviso dado, texto que segue.

A PERSONALIDADE AUTORITÁRIA: O QUE É

Vamos destrinchar: personalidade, na pesquisa de Adorno, é uma organização de forças mais ou menos duradoura dentro do indivíduo (ADORNO, 1950). Forças nos motivam a agir ou nos impedem de agir. Caracterizam-se, assim, pela possibilidade de determinar nossas respostas ao que nos acontece nos ambientes em que estamos e diante das situações que nos ocorrem.

Mas, é fundamental diferenciar personalidade de comportamento. Os nossos comportamentos (formas de agir) são determinados pela nossa personalidade, mas isso não quer dizer que é tipo um mecanismo automático, que nossa personalidade é total atrelada às nossas ações. O que acontece é que as forças de nossa personalidade são mais como um alerta para a ação. É tipo a companhia elétrica de sua cidade ou o corpo de bombeiros que ficam em estado de alerta, em prontidão para atender algum chamado.

Assim, quando agimos, expomos o que estava meio que “atrás da porta”, de prontidão, em alerta, esperando a oportunidade para se lançar ao mundo. A personalidade autoritária não quer dizer que somos todas fascistas, ditatoriais, extremistas, que queremos as pessoas diferentes de nós, de nossas ideias, em câmaras de gás ou mesmo em valas depois de levarem um tiro. Quer dizer que temos um POTENCIAL de autoritarismo, quer dizer que somos POTENCIALMENTE fascistas, quer dizer que, EM POTÊNCIA, todo mundo pode agir de tal maneira.

Aí você pode falar ou pensar: “que viagem, mermão!”, “acredito nisso, não, que mané potencial fascista o quê?”, “tá dizendo que eu vou mandar matar gente feito nazistas, é?”. A resposta a esses pensamentos é única: todo mundo pode fazer isso, mas, entre poder fazer e fazer há uma distância muito válida de ser entendida a partir da fala cotidiana: “todo mundo é bom, a não ser quando não é”. Peço mais uma vez que abra seu coração e sua mente para ENTENDER, em primeiro lugar, PENSAR SOBRE, em segundo e só depois EXPRESSAR sua ideia.

É possível que alguém que leia este texto também esteja pensando: “eu... eu... sou fascista?!”, “minha namorada é autoritária?”, “meu pai?!!!”. Calma, jovem, retomando a ideia, é POTENCIALMENTE, logo, pode ser que sim e pode ser que não, mas o que deve ser observado – inicialmente - é o conjunto de atitudes que compõe a personalidade autoritária. São nove as atitudes que a pesquisa de Adorno permitiu identificar e, a partir delas, vamos levantar possibilidades de entendimento da escolha Bolsonaro.

AS NOVE ATITUDES DA PERSONALIDADE AUTORITÁRIA

Essa parte vai ser quase divertida, vai lembrar quiz do BuzzFeed, sendo que ao final pode trazer possíveis conclusões perturbadores para alguns indivíduos. Há, a partir daqui uma possibilidade de autoconhecimento válida para quem se propor a encarar o abismo de si que é, ao mesmo tempo, social e psíquico. Comecemos então e vá marcando as atitudes que porventura você identifique em si ou mesmo em outras pessoas que você conheça – eleitoras ou não de Bolsonaro.

1. submissão autoritária. Configura-se como submissão autoritária a atitude de seguir fielmente um indivíduo, a pessoa que se crê grande guia e que pode resolver todos os problemas que afetam todo mundo (ou todo “cidadão/ã de bem” – ainda que conceitualmente seja difícil definir o que seja). A pessoa submissa, nesse sentido, tende a amenizar aspectos contraditórios da liderança que segue, justificando com frases tipo: “... mas também fizeram isso!” ou “... e o pessoal contrário a ele/a, também faz e você não fala nada!” ou ainda: “também não é assim desse jeito, foi modo de falar, ele/a não vai fazer assim”;

2.  convencionalismo: convenções sociais são fundamentais para a manutenção e reprodução da herança cultural de uma sociedade, mas, no caso da personalidade autoritária, o que se identifica é uma defesa exacerbada da chamada tradição. Como a tradição representa, para essas pessoas, tudo o que sempre se fez de um jeito e deu certo exatamente desse jeito, qualquer alteração, qualquer mudança pode colocar em risco a certeza que a pessoa nutre de que o mundo é imutável.


Essa defesa entrincheirada da tradição, esse apego arraigado ao tradicional produz reações violentas – inclusive físicas – contra qualquer mudança ou variação do que se convencionou. Exemplo prático: a defesa da ideia de família tradicional, desconsiderando que os arranjos familiares são diversos e atendem às necessidades de sobrevivência dos indivíduos. Famílias lideradas pelas avós, pelas mães que foram abandonadas pelos pais de suas crianças são exemplos de famílias que estão fora do padrão convencional e que são alcunhadas de desajustadas por indivíduos de personalidade autoritária;

3. agressividade autoritária: o convencionalismo citado acima tem relação direta com a agressividade autoritária que se caracteriza pela reação contra grupos, indivíduos, atitudes diferentes da sua. Qualquer “desvio” é prontamente rechaçado. Além disso, personalidades autoritárias são controladoras, querem saber tudo o que é feito por alguém e não é com o objetivo de cuidar efetivamente, mas de controlar o que é feito, monitorar ações, saber de pensamentos. Exemplo prático: saber o que foi feito durante o dia, desconfiar de algo que não tenha sido dito que ia ser feito (mesmo que imprevistos ocorram), querer saber com quem estava falando no whatsapp, quem é a pessoa que curte sempre primeiro a foto que é postada, quem é que sempre comenta, as razões de tal pessoa olhar de um jeito estranho e afins;

4. anti-intracepção: personalidades autoritárias rechaçam qualquer possibilidade de autoconhecimento, de lidar com emoções. Caracterizam-se por fazer piadinhas sobre a sensibilidade alheia e, nesse caso, não é sobre gostar ou não de poesia (apenas), mas alguém que se emociona diante de situações de violência ou que fica triste por algum acontecimento cotidiano é prontamente ridicularizado. Personalidades autoritárias tendem a se orgulhar excessivamente de sua suposta racionalidade (que costumam exaltar reiteradamente). Exemplo prático: negar que uma pessoa em estado depressivo precise de cuidados ou ainda, afirmar com convicção que fazer terapia é “pagar para alguém ouvir você reclamar”. Também afirmam que “se é pra pagar pra alguém me ouvir, eu vou para uma mesa de bar porque lá pelo menos eu fico bêbado!”;

5. projetividade/projeção: como personalidades autoritárias negam sentimentos, principalmente os seus, elas tendem a projetar nas outras os aspectos sobre si que elas não conseguem perceber – ou não querem. Seus desejos frustrados, suas vontades reprimidas, pela perspectiva psicanalítica, inconscientemente dirigem seus juízos de valor bem como suas ações. Exemplo prático: aquela pessoa que aponta os “erros” alheios, que se coloca como guardiã da moral e dos bons costumes e que, quando menos se espera, é pega se comportando exatamente da mesma maneira que as pessoas que ela “reprovou”.

Exemplo prático 2: uma pessoa que passou uma vida inteira criticando indivíduos homoafetivos e que, com o avanço da idade, “vira ‘gay’”. Uma chave de leitura sobre essa situação é de que essa pessoa projetou a frustração dela contra quem “assumiu” o que era. Quando finalmente a pessoa se viu livre das obrigações sociais (muitas delas auto impostas), decidiu “se assumir”, gerando os conhecidos comentários: “depois de velho/a, virou “gay”;

6. valorização do poder e da força: uma personalidade autoritária tende a simplificar o mundo em esquemas bipolares e, um que se destaca é a dicotomia fraco X forte. Por isso valorizam a força pois o mundo, por essa perspectiva, pertenceria aos mais fortes. Outro aspecto a considerar é que também afirmam que por terem sido muito exigentes para consigo se tornaram o que são;

7. destruição e cinismo: a valorização do poder e da força exposto acima vem acompanhada de agressividades, de hostilidades em muitas situações. Personalidades autoritárias têm dificuldades de lidar com oposições, mesmo as mínimas, aquelas do cotidiano mais rotineiro (redundante de propósito) e, como se diz comumente, “explodem por qualquer besteira”. Após a situação constrangedora e hostil, pedem desculpas, perdão, mas, ainda assim, afirmam que foram provocadas, que a vítima da explosão “também teve sua parcela de culpa”. Exemplo prático: a pessoa que “explode” por causa de um atraso, aquela que “vira bicho” quando mexem nas suas coisas ou que constrangem as outras em público, principalmente sendo chefe da pessoa constrangida;

8. superstição e estereotipia: personalidades autoritárias, geralmente, acreditam em divindades e em divindades muito rígidas em relação aos códigos morais. A divindade em que se crê teria um plano para a vida de cada um/a e tal plano é imutável, irredutível. Considerando as atitudes 2, 5 e 6, também estereotipam indivíduos e grupos a partir do que acreditam, de sua visão de mundo. Exemplo prático: nenhuma mulher dirige bem, todo pobre é mal-educado, todo rico é pirangueiro ou não tem amigos/as reais;

9. preocupação com a vida sexual alheia: o último tópico das atitudes que compõem a personalidade autoritária é muito comum. Daqueles senhores fofoqueiros, passando pela tia que faz juízo de valor sobre o comprimento da saia,  o discurso da liderança religiosa sobre as “abominações”, é notória a vigia, a busca por controle, a normatização das condutas afetivas, sexuais de quem não está no padrão heteronormativo. Uma chave de leitura seria que essa preocupação tem relação com a frustração de ver pessoas “se realizando” afetiva e sexualmente, enquanto há dificuldade em se realizar (no caso a pessoa autoritária).

MARQUEI 9 DE 9! E AGORA?

Chegamos no momento da leitura em que algumas pessoas podem se perguntar o que fazer se atingiu a marca de nove atitudes. Pois bem, existem algumas possibilidades, algumas chaves de leitura e elas são igualmente perturbadoras e libertadoras. Agora é fundamental reiterar o aviso dado: não pretende esse texto definir comportamentos, atitudes ou personalidades, mas mostrar como o conhecimento filosófico pode nos auxiliar na jornada de uma existência mais consciente do que nos acontece e mesmo do que sentimos e, por extensão, do mundo ao nosso redor. Tudo isso marcado por contradições, algumas indissolúveis, mas que é crucial lidar com elas.

Essas atitudes, na perspectiva de Adorno, são potencialidades, o que quer dizer que podem vir ou não a tornarem-se atos, ações efetivas. Lembra que mais acima foi mencionado como exemplo o corpo de bombeiros, sempre de prontidão para atender à alguma ocorrência? Pronto, mantenha essa metáfora, ela é fundamental. Essa prontidão pode ou não se converter em expressão aberta, para tanto o contexto é um diferencial, além das forças da personalidade que estejam, para usar um termo comum, “em alta” na situação do momento.

É fundamental também ter em mente que a personalidade não é imutável em suas características. O mundo em que estamos inseridas tem impacto sobre nós, não estamos isoladas da chamada totalidade social. Em resumo, se vivemos em sociedade, há uma via de mão dupla entre indivíduos e a própria sociedade. Aqui é importante considerar um aspecto: tanto mais profunda será essa influência da totalidade social sobre a personalidade quanto mais cedo ocorrer esse contato. A infância é o ponto de partida, mas não como se fosse um destino. É mais como um sinalizador, um tipo de GPS que guiaria os indivíduos por caminhos que podem ser alterados dependendo do que se encontra no percurso.

As instituições sociais (família, educação, religião, Estado) quando sofrem alterações, são relevantes para o tipo de personalidade que se desenvolve coletiva e individualmente em uma sociedade. Não devemos, porém, pensar que as instituições sociais são total influenciadoras, posto que o que acontece é um agendamento mútuo, ou seja, as instituições influenciam e são influenciadas. A partir daí segue a pergunta:

E O QUE ISSO TEM A VER COM A ESCOLHA BOLSONARO?

Pois bem, comecemos problematizando uma afirmativa comum e cotidiana: a política não é racional. Mas calma, entenda o que está escrito antes de assumir a negativa. Existe um negócio chamado paixão, que pode ser entendido como emoção e, muitas vezes, é entendida como um sentimento que pode anteceder o amor. É relacionada com o descontrole, com ansiedade de estar com alguém. Também é muito aproximada do desejo e do desejo sexual mesmo. Ainda que válidos esses entendimentos, vamos ampliá-los e aplicá-los na possível resposta de nossa questão.

Paixão é uma inclinação que se sobrepõe a outras inclinações que temos e, ao se sobrepor, finda impedindo a decisão racional sobre como agir. Essa é abordagem de Kant e que segue expondo a característica da paixão de dominar nossa conduta, nossa personalidade. Ainda segundo o autor da Crítica da Razão Prática, a paixão é como uma corrente que aprofunda o leito de um rio, lenta e gradualmente, sendo também como uma intoxicação que precisa de um remédio externo ou interno para ser combatida.

Partiremos de Kant, então. Sendo paixão uma inclinação que se sobrepõe à outras inclinações, o ódio é uma paixão e quando se sobrepõe devasta ou pode devastar tanto o indivíduo movido por ele quanto quem por ele for atingido. Exemplo é o que não falta de como a paixão do ódio pode ser devastadora. É importante ter em mente que não estamos tratando de emoção, estamos tratando de paixão. A emoção é devastadora, toma conta mesmo da pessoa e pode ser metaforizada com a embriaguez, que se atinge e passa deixando só a dor de cabeça mesmo.

Paixão não. Ela mina o indivíduo, ela cerca a existência, é como infiltração em terreno que vai fazendo tudo que está apoiado nele afundar lentamente e de forma quase imperceptível.  Difere da emoção porque esta passa e a paixão fica por ali convivendo com outras paixões e em alguns momentos se sobrepondo, como a prontidão mencionada mais acima sobre as forças da personalidade.

Se o ódio é uma paixão e paixões nos minam e impedem decisões racionais, uma chave de leitura disso é que, identificando a paixão que se sobrepõe em mim posso entender as decisões que tomei e tomo em minha vida. São exemplos de paixões o medo, a (van)glória e a esperança. Se o medo é a paixão que se sobressai, fazendo a observação de minha vida, notarei as várias vezes em que tomei decisões a partir do medo de que algo acontecesse ou de que não acontecesse ou de que algo que não sei o que é precisamente viesse a acontecer. Segue o exemplo para as outras paixões.

Pensemos a partir das atitudes que compõem a personalidade autoritária. Aquelas nove atitudes, podemos identificar nelas paixões predominantes do medo e do ódio. Medo do autoconhecimento, medo do que não conheço e temo conhecer porque talvez me deixe sem saber o que fazer diante de um contato com pessoas, ideias, estilos e formas de vida que dividem o mundo comigo e não consigo lidar com as emoções que parecem advir desse contato. Ódio pelo que me contraria, pelo que não posso controlar, pelo que se rebela ao que está instituído, ao que não se submete ao meu desejo de mando, de controle, de dominação.

Uma chave de leitura da escolha Bolsonaro pode ser a de que essa escolha está movida, paradoxalmente, pelo medo que paralisa, mas que também leva a agir. Algo assim: temo o que ameaça (ou parece ameaçar) minha forma de vida e não me movo em direção a algo novo (daí a fala de “volta ditadura!” “intervenção militar, já!”) mas quero retornar ao  que já conheço (que Bauman chamou de retrotopia). A dificuldade de lidar com sentimentos conflitantes – muitas vezes paradoxais – insufla o ódio, que pode me impulsionar para agir fisicamente extinguindo o que odeio ou me submetendo a quem acredito que fará isso por mim (lembrando do tópico 1 das atitudes que compõem a personalidade autoritária).

A partir de 2014 houve o que alguns especialistas chamam de “radicalização da democracia” no Brasil: atitudes mais conservadoras se transmutaram em reacionarismo (este se caracteriza pelo uso da violência – ou a propensão a – para impedir mudanças ou situações que afetem sua forma de vida. O conservadorismo diz respeito à manutenção da ordem, do que já se conhece, da chamada tradição) e ganharam as ruas, o que não é necessariamente ruim, considerando que a diversidade de ideias, de ideologias é fundamental para o aperfeiçoamento do próprio regime democrático. O que se deve prestar atenção é o que esse reacionarismo produziu, criou ou, se quiser a metáfora mitológica, qual foi o Kraken que foi liberto.

Nesse sentido, cabe a percepção das questões sociais: ampliação das desigualdades, das formas de exclusão, das violências institucionais que não são resolvidas prontamente. Diante de um contexto em que as autoridades, aquelas que deveriam administrar o Estado objetivando proporcionar segurança para a população não o fazem, a saída parece ser sempre extrema ou deve ser extrema. Mas essa radicalidade está ligada às paixões e como as paixões se relacionam com as atitudes que compõem a personalidade autoritária e todo mundo é potencialmente autoritário, então podemos entender esse avanço da escolha Bolsonaro como a inclinação ao ódio e ao medo como paixões predominando na vida política.

Some isso ao que defendeu Erick Fromm em seu O medo à liberdade: muitas vezes renunciamos à liberdade e nos lançamos rumo ao medo porque nos sentimos impotentes e angustiados diante das decisões que temos que tomar. Sendo as decisões motivadas pela paixão a qual nos inclinamos, a segurança do medo é maior que a angústia da liberdade positiva, aquela que se caracteriza pelo desenvolvimento de potencialidades intelectuais, emocionais, sensoriais etc. e que chama para si a responsabilização pelo que acontece.

Se o autoritarismo, para ser aceito e reproduzido nas instâncias da chamada “política oficial”, precisa de uma base grande, massificada mesmo, até para ter sucesso enquanto movimento político, ele precisa não apenas da submissão autoritária, mas da cooperação ativa da maioria da população. Como se consegue isso? Através do potencial antidemocrático que todas nós carregamos.

Uma chave possível de entendimento é que a constituição da sociedade brasileira, historicamente, foi antidemocrática, logo, temos terreno fértil para ideias que são, essencialmente, antidemocráticas crescerem e prosperarem. A nossa sociedade é, também, historicamente racista, machista, misógina, em suma, excludente e reprodutora de desigualdades materiais e sociais e encontrou na escolha Bolsonaro o catalisador desse ódio, dessa paixão que minou a história do Brasil desde os idos do século XVI. Pense da seguinte maneira: uma bola muito cheia e que se precisa tirar dela esse ar, mas para tirar esse ar só é possível através de um “pito” que fará o ar sair. A escolha Bolsonaro é o “pito” através do qual essas personalidades autoritárias podem se realizar, extravasar a paixão tanto do medo quanto do ódio.

A escolha Bolsonaro não está amparada em desconhecimento da história do Brasil, analfabetismo político (lembrando Brecht) ou fruto da alienação engendrada por meios de comunicação conservadores. Essa escolha tampouco é burrice. Essa escolha é a confirmação de uma forma de vida baseada no medo e no ódio (no sentido citado no texto e não totalmente no sentido do senso comum) enquanto paixões que nos minam e impedem o exercício da escolha racional (no sentido kantiano da autonomia, da maioridade no pensar).

Assim, podemos entender as razões que levam alguém a manter sua escolha, mesmo diante de argumentos racionais que demonstrem a fragilidade do candidato no que diz respeito a aspectos fundamentais para gerir um Estado democrático: essa escolha é movida pela paixão (mais uma vez, no sentido filosófico abordado nesse texto). Para lidar com essas paixões (medo e ódio) pouco vai adiantar “chamar a pessoa para a razão” (como se diz no popular). Paixões são indestrutíveis, apenas se sobrepõem umas em relação às outras, logo, deve-se buscar paixões que se sobreponham ao medo e ao ódio sem, no entanto, deixar de lado os mecanismos racionais que possibilitem reprimir as ações movidas por essas paixões (o medo e o ódio), uma vez que causam danos reais a indivíduos e grupos.

O Brasil é um país estruturalmente autoritário e considerando a relação entre a estrutura social e o habitus (segundo Pierre Bourdieu), todo indivíduo que faça parte dessa sociedade vivenciou sua constituição enquanto sujeito marcada por autoritarismo e violências. Um importante passo é entender as atitudes que compõem a personalidade autoritária e identificar as paixões (ódio e medo) no que motiva nossas ações e escolhas.

Se, mesmo diante dessa possibilidade de pensar sobre o que nos motiva e impulsiona e identificando em nós mesmas esse autoritarismo – latente ou explícito – ainda assim negarmos o enfrentamento dessas paixões que causam danos individuais e coletivos, é mais coerente (e saudável psiquicamente) se despir da máscara de “cidadão/ã de bem” (conceito difícil de elaborar claramente) e assumir a intolerância que nos compõe e o ódio que propagamos em nome de um medo travestido falsamente de coragem "de falar o que pensa" que é muito mais revelador da covardia de se autoconhecer e reconhecer nossas limitações enquanto humanidade.

Como foi escrito lá em cima, o objetivo do texto é fornecer subsídios para pensar o que motiva a escolha Bolsonaro. Como afirmam que Sócrates afirmou: uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida. Experimente pensar.