Menu Superior Horizontal

  • E
  • D
  • C
  • B
  • A

ARTIGOS

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A ESPETACULARIZAÇÃO DO SENSO COMUM E A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA


Freud, ao pensar a civilização como aquilo que diferencia o ser humano dos outros animais - não fazendo distinção, portanto, entre civilização e cultura - afirma que o mal-estar é uma realidade inevitável de todo indivíduo que vive em sociedade. A vida social implicaria, para ele, uma série de proibições repressoras de instintos e desejos naturais. Pensando a partir da perspectiva da própria vida em sociedade e das contradições que ela produz, sobretudo na era da superexposição que a revolução tecnológica proporcionou, é possível estabelecer uma relação entre uma vazão excessiva de pulsões relacionadas à violência, e até mesmo a um certo grau de sadismo, e a construção de discursos sociais que naturalizam ações violentas.
Para estabelecer essa relação é fundamental, ainda, a compreensão do indivíduo a partir dos elementos sociais que o constituem. Um dos aspectos que definem o caráter humano é a capacidade de pensamento, ou como diz Gilberto Gil na letra da música, “pensamento, mesmo, fundamento singular do ser humano”. Mas foi a partir do momento que o homo sapiens começou a refletir sobre a realidade ao seu redor, ou seja, a partir do momento em que o homem foi capaz de atribuir significação simbólica à sua realidade, e a comunicar essa significação a outros, que a nossa espécie abandonou o reino da natureza e passou a viver o mundo da cultura. No entanto, essa significação e sua comunicação só é possível através de um conjunto de símbolos, e a esse conjunto de símbolos damos o nome de linguagem. O conhecimento humano, portanto, nada mais é do que uma construção de sentidos que só é possível através da linguagem. Nessa perspectiva, a linguagem faz parte da estruturação do indivíduo enquanto sujeito, uma vez que só podemos construir qualquer significação sobre qualquer coisa a partir do momento que damos um nome a essa coisa, ou ainda, como pensou o linguísta Benjamin Lee Whorf, “a linguagem não é apenas o modo como uma pessoa se comunica, mas como constrói a casa da sua consciência”.
No entanto, as sociedades humanas são mediadas por relações de poder, seja o poder no âmbito no macrofísico, ou nas relações de dominação que se estabelecem no âmbito do microfísico, observadas e teorizadas por Foucault. Assim, pode-se pensar que quem detém os meios de construir e disseminar discursos, ou seja, quem domina a produção da linguagem, detém poder. Somando-se isso à capacidade de disseminação em massa de informação de forma muito rápida e à mercantilização que o Capitalismo estendeu a todos os elementos da vida social, o resultado foi um fenômeno que prejudica a assimilação crítica e a reflexão autônoma acerca dos fatos do cotidiano: a espetacularização do senso comum.
Sociologicamente, o espetáculo consiste em um conjunto de relações sociais mediadas pela construção de sentimentos a partir da apresentação espetacularizada e ilusória de algo. Associa-se esse conceito, geralmente, à produção de imagens, no entanto, também no âmbito dos discursos ocorre a produção de espetáculos. Dessa forma, os discursos sociais assumem também uma característica mercadológica, na medida em que buscam “vender” uma ideia, ou ainda, um modo específico de entendimento da sociedade, da política, das leis, etc. A partir daí, ganham visibilidade e repercurssão os discursos do senso comum, que passam a aparecer de forma espetacularizada através de comentários em redes sociais, de videos compartilhados nas mídias e de postagens que são exibidas de forma polemizada e repetidamente compartilhadas e curtidas. Conceitua-se senso comum como uma forma de entendimento da realidade que, diferentemente do senso crítico, se baseia em uma percepção superficial e imediatista, dispensando a reflexão aprofundada, não se preocupando com o rigor lógico e conceitual das ideias emitidas. Considerando, ainda, que o aumento progressivo da disponibilização de informações não implicou o aumento da capacidade humana de assimilar qualitativamente essas informações, é estimulada uma percepção parcial das informações cotidianas. A partir disso, passou a permear na vida social, e mais fortemente nas redes sociais, a legitimação de ideias baseadas no senso comum para tratar de questões sociais e políticas complexas. Desse modo, não é preciso nenhuma reflexão crítica, estudo ou análise intelectual porque se convencionou a emissão de opinião baseada em achismos e em reducionismos simplistas.
Nesse sentido, o conceito de Indústria Cultural, criado por Adorno e Horkheimer, auxilia o entendimento da repercurssão exarcebada que o uso do senso comum vem tendo nos espaços sociais, sobretudo nas mídias virtuais, pois evidencia o aspecto de mercadoria da produção de pensamentos. É preciso que as ideias sejam “vendáveis” para que possam ser consumidas de forma massificada e rápida, o que implica a necessidade de tornar as ideias facilmente assimiláveis a partir da retirada de qualquer caráter crítico e questionador. Como consequência, o senso comum, apresentado como espetáculo para ser consumido, não é informativo, mas um conjunto de raciocícios rasos e intelectualmente problemáticos – quando não simplesmente absurdos – transmitidos para serem reproduzidos de forma passiva, muitas vezes a partir de palavras de ordem e de trocadilhos de memorização fácil.
É essa a lógica discursiva que fabricou o discurso de ódio que permeia praticamente todas as esferas da vida em sociedade - e que serve inclusive a políticos que constróem sua popularidade em cima dele – e transforma ações violentas em elementos cotidiados banalizados. É este, então, o ponto central da reflexão desse texto: a construção do discurso de ódio, a partir do uso do senso comum, como instrumento ideológico que legitima o uso da violência. É fundamental, para entender os acontecimentos polêmicos recentes envolvendo discurso de ódio e política - que foram desde parlamentares incitando mais massacres em prisões, passando por homenagens em rede nacional a estupradores sociopatas e por chamadas para “metralhar a petralhada”, até a tentativa de assassinato de candidatos à presidência da república – o uso do discurso de combate a um suposto “mal social” na construção do sentimento de ódio para justificar a retirada de direitos, a repressão total e até mesmo a execução de pessoas ou grupos sociais politicamente distoantes.
O que se observa, a partir dessa lógica, é a busca pela sensação de prazer proporcionada pela aplicação de “castigos” com requintes de crueldade, pelo linchamento exibido de forma espetacularizada e pela fetichização da tortura, por meio da transferência do poder de aplicação de punição do Estado para qualquer um que se disponha a aplicá-la em nome do chamado cidadão de bem. O discurso de ódio expressa o desejo de que, entre a acusação da prática um crime e a aplicação de uma punição o mais violenta possível, estejam dispensadas quaisquer garantias legais, uma vez que as mesmas tornam-se meras inconveniências para quem deseja satisfazer o desejo imediatista de vingança pessoal. Não é mais necessário se reunir em um coliseum para assistir ao espetáculo da violência contra indivíduos rotulados como barbáros, ou se deslocar para apreciar a morte na fogueira de indivíduos considerados subversivos, basta assistir à tortura punitivista pela tela do smarthphone.
Todavia, o que o reducionismo simplista do senso comum que está na base do discurso de ódio distorce é a percepção de que, por desconsiderar a profundidade das causas dos problemas estruturais da sociedade brasileira, já que recusa o uso da reflexão crítica, dá apenas uma ilusão de solução, tendo na prática o efeito contrário. Para além de uma concepção maniqueísta de Justiça social, sociedades que se pretendem democráticas só encontram as soluções para os seus problemas na radicalização da própria prática democrática. Qualquer alternativa que se baseie no discurso de que é necessário “tomar medidas antidemocráticas para salvar a democracia” vai sempre tender a um totalitarismo que só serve para alimentar o próprio sistema, sistema esse que lucra com a violência que se abate sobre todos – sobre uns mais do que sobre outros, mais ainda assim, que atinge a todos em alguma medida. No final das contas, retornando a Freud, a sensação de satisfação das pulsões sádicas mais reprimidas em prol da existência da Civilização é sempre efêmera, e até mesmo os maiores disseminadores do discurso de ódio acabam sendo engolidos pelas contradições do discurso que defendem.
=======================================
Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

Reações:

1 comentários: