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ARTIGOS

terça-feira, 10 de julho de 2018

SOBRE A DECEPÇÃO E O QUE A FILOSOFIA PODE NOS DIZER


“Se eu ganhasse um real por cada decepção, ficaria decepcionado em Paris”

“se decepção ensina, já tenho faculdade”

“muita confiança gera decepção”

Se você se identificou com alguma frase dessa, se você já as disse ou compartilhou vários memes da decepção, continue a ler esse texto e não será decepcionado com o que a filosofia pode fazer por você – se você permitir, certo? Então, vamos lá.

Decepcionar-se é sentir-se enganado/a por alguém em quem se confia ou confiou sem reservas. É ser exposta/o a algo sobre alguém que não se esperava que tal pessoa fizesse (ou não fizesse). Em seguida começa a autoflagelação verbal e psíquica seguida do amaldiçoamento do mundo que, obviamente, está totalmente contra você, pessoa boa, boazinha, um anjo angelical (redundante de propósito) que “nunca fez mal a qualquer ser vivo”.

Pois bem, essa atitude pode ter outros nomes: chororô, mimimi, fragilidade emocional ou (inspirando-se na telenovela clássica Chiquititas) coração com buraquinhos – agora começa na sua mente o refrão: “tenho um coração com buraquinhos/e não posso me curar”…

Mas antes que você sinta-se decepcionado/a com esse texto, invoco a autoridade polifônica para me salvaguardar de sua fúria (e decepção): Sêneca, pensador romano, desenvolveu algumas ideias sobre a frustração que nos toma quando não temos nossas expectativas atendidas. Segundo ele, essa sensação de trouxa (termo moderno) que nos invade é oriunda de nossa idealização sobre as pessoas, sobre o mundo que nos cerca e sobre nós e o que acreditamos que somos.

Funciona assim: pensamos que tal ou qual pessoa é aquilo que ela nos expõe ou aquela característica que mais nos atrai e essa atração pode ter relação com o que nos falta ou com o que gostaríamos de ser ou ter em termos de atitude. Buscamos uma espécie de complementação, a tampa da panela, o sapato para o pé podre, a corda para nossa caçamba entre vários termos populares para fazer referência à suposta “alma gêmea” (toca Fábio Jr. agora...)

É aí que está a grande armadilha que armamos para nós: não somos sempre aquela atitude que apresentamos para o mundo, essa atitude é apenas mais uma das nossas máscaras sociais. Não quer dizer que somos marcadas/os pela falsidade, quer dizer apenas que dependendo da situação agiremos de determinadas maneiras, que somos mutáveis, que atendemos às necessidades de sobrevivência de cada situação.

Sim, sobrevivência, porque cada lugar social que ocupamos é marcado por comportamentos que temos que repetir se quisermos continuar sendo aceitas/os nesses lugares. Para além de certo e errado, devemos entender o que ocorre e como acontece.

Assim, se queremos continuar sendo vistas/os como legais, gente boa, mente aberta e outras classificações sociais e cotidianas, buscamos repetir as tais atitudes aprovadas pelas pessoas, pelos grupos, pela sociedade. Assim é que semeia-se a expectativa que germinará na grande decepção - ou decepções, afinal, para se decepcionar basta estar viva/o e convivendo com outras pessoas.

Como as pessoas não conseguimos manter o tempo inteiro a mesma atitude em todas as situações e todos os lugares e com todas as pessoas e com as mesmas pessoas que convivemos, em algum momento a “casa vai cair”, opa, quer dizer, a “máscara”. A suposta queda da máscara vai revelar o que se tentou esconder, pelo menos daquela pessoa (ou pessoas), daquele contexto, enfim. A decepção, então, é fruto de uma rede de expectativas criadas e reproduzidas em escala social, planetária, universal – exagero, mas o exagero ajuda a pensar o que é exagerado.

Pense direitinho: a pessoa te decepcionou ou você esperou demais dela? A pessoa foi mal caráter ou você criou expectativas que não foram supridas por alguém que NÃO TINHA OBRIGAÇÃO ALGUMA COM O QUE VOCÊ GOSTARIA QUE ELA FOSSE OU GOSTARIA QUE ELA FIZESSE?

Está em caps lock para demarcar mesmo, para que possamos pensar na grande rede de expectativas irreais sobre o que não podemos controlar e sobre quem não tem obrigações com o que sentimos. Antes que você pense: então devo agir da maneira que bem entender, não considerar os sentimentos das outras pessoas porque “não são problemas meus, não posso ser culpado/a porque as pessoas acreditam em mim ou me amam?”

Sim, se agir da maneira que bem entender for, antes de tudo, responder aos questionamentos: o que falo está de acordo com o que sinto? O que faço é coerente com o que penso ou com o que quero realmente fazer? Eu gostaria que as outras pessoas no mundo agissem – todas elas – da maneira com a qual agirei? Nesse ponto é crucial a sinceridade consigo pois, muitas vezes, responderemos que sim porque queremos apenas satisfazer nossos desejos.

Para Sêneca, lidar com o sentimento de frustração e fúria que seguem a uma decepção diz respeito a esperar das pessoas apenas o que elas podem, de verdade, nos oferecer. Como saber o que as pessoas podem nos oferecer de verdade? Resposta angustiante: não tem como saber com total certeza. A solução é o que modernamente se chama “manter as expectativas baixas”, “esperar o básico e não o especial com adicionais de fábrica”.

Esperar o humano mas, o que o humano é além de um poço sem fundo de contradições, uma cacimba de paradoxos, uma estrada de conflitos renitentes? Não prestamos muita atenção (na verdade não prestamos nenhuma atenção) nas pessoas de mais idade quando elas nos alertam sobre os perigos da falta de cautela, da crença desprovida de questionamentos, da cegueira inconsciente (?) sobre os “defeitos” das pessoas que amamos (ou acreditamos amar).

Isso não quer dizer não devemos viver a vida com todas as suas possibilidades, quer dizer que devemos aprender com as decepções pois elas são inevitáveis, principalmente quando começamos a caminhar com nossas próprias pernas e a pensar a partir de nossos próprios juízos. Algo que as decepções podem nos ensinar é que só se decepciona quem cria expectativas sobre algo que não pode controlar e entre o que não controlamos estão os pensamentos, os sentimentos, as decisões e as ações das outras pessoas.

Marisa Monte nos presenteou com uma canção que pode ser escutada e lida a partir dessa aceitação do que as pessoas podem nos oferecer:




DEPOIS


Depois de sonhar tantos anos
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também
Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois





Então, as decepções compõem as expectativas generalizadas que são construídas socialmente a partir de papeis sociais que muitas vezes não percebemos que estamos cumprindo. Essas expectativas são irreais, muitas vezes inalcançáveis e uma forma de quebrar esse ciclo vicioso é aceitar que todas/os somos humanas/os em primeiro lugar. Pai, mãe, avó, avô, filha, filho, amigo, amiga, primo, prima etc são papeis sociais nos quais estão atreladas as posições sociais e as expectativas relacionadas com elas.

É simples, mas não é fácil porque o lugar do martírio, do sofrimento causado sempre pelas outras pessoas (malvadas, malvadas, malvadas) é mais cômodo e valorizado. A decepção é irmã do sofrimento por amor, afinal, amar não é sofrer? NÃÃÃÃÃÃÃÃO É NÃÃÃÃÃÃÃO! Mas esse é assunto para Nietzsche em outra postagem.

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