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ARTIGOS

terça-feira, 31 de julho de 2018

SENDO FIEL A SI - A DOR DE SER O QUE É: A FILOSOFIA E A IMPORTÂNCIA DO AUTOCONHECIMENTO

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é “. Será? Colocar em dúvida o trecho da canção Dom de iludir, imortal na voz de Caetano Veloso, causa estranhamento. Se observarmos ao redor e prestarmos atenção nas conversas de muitas pessoas, esse pretenso saber de si é repetido muitas vezes em frases como:

- (…) porque eu sou assim...
- (…) ah, meu filho, eu me conheço...
- (…) aaaah, se fosse comigo ia ver, porque eu sei como eu sou e...

Mas, se pudéssemos averiguar a vida dessas pessoas que tão fortemente esbravejam esse autoconhecimento, talvez (talvez mesmo?) nos decepcionássemos com as contradições apresentadas.

Quem falou que “mandaria a esposa embora”, não mandou; quem esbravejou que “chutaria o balde e pediria demissão do emprego”, continuou empregado e quem disse que “tocaria o terror” ficou foi intocada num canto escondida e aterrorizada.

Se pudéssemos nos aproximar dessas pessoas nessas situações e lembra-las do que disseram antes, é quase certo que ouviríamos uma outra frase célebre:

- Ah, mas aqui foi diferente!

Ou a pessoa inquirida seria acometida pela terrível e maldosa amnésia de ocasião, também chamada de “dando o perdido”, “se fazendo de besta” ou “fazendo o ‘migué’”. Terrível mal essa amnésia de ocasião. Pois bem, cuidemos da vida e adiantemos a leitura.

Alguém vai gritar que é hipocrisia, que essas pessoas são hipócritas como todas as pessoas na terra. Hipocrisia pode ser entendida como a ação que é contrária ao que se fala.

Hipócrita é a pessoa que diz uma coisa e faz outra. Por essa perspectiva, seu pai, sua mãe e outros adultos seriam todos hipócritas quando repetem a frase: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!” (poderíamos complementar: “quando nem eu faço o que eu falo!”), em situações do tipo quando mandaram você dizer para o amigo de seu pai que ele não está em casa, estando.

A hipocrisia também é parte de reflexões filosóficas, mas que não trataremos aqui, por enquanto vamos utilizar essa ideia para abordar a questão do autoconhecimento e suas possibilidades.

Com certeza todos conhecemos pessoas que agem assim, mas, sabemos que também agimos assim? Ou, mais intenso ainda: aceitamos que também agimos assim?

Pois bem, aqui cabe outro questionamento: sua vida está sendo bem vivida? Mas não responda com os clichês básicos e eternos, repetidos aos quatro ventos. Não quero respostas tipo:

- Sim, tenho saúde e paz, o resto eu vou atrás!
- Com a graça de Deus e como Ele bem permitir!

No caso desta última, não estou negando o poder ou a existência de deus ou de quaisquer divindades, apenas peço que afaste esses elementos cotidianos e superficiais que usamos quando nos perguntam sobre a qualidade da vida que temos.

COM VOCÊS, SÓCRATES!

Aqui temos Sócrates, divisor de águas na história da filosofia, que reivindicou a importância da vida refletida, da vida inquirida, da vida problematizada. Mas não são questionamentos rasos, são perguntas basilares para que nos sejam expostas as aparências do mundo que são colocadas como substitutas do que as coisas são.

Seria algo assim: pense numa grande cortina que estivesse sobre todo o mundo e sobre o que tem nele. Essa grande cortina, entretanto, não embaça a sua vista de forma efetiva, mas cria imagens que ficam por cima do que está no mundo.

Como toda cortina, expõe uma parte do que está do lado de fora. Pode ser que, por curiosidade, espiaremos ou ignoraremos. Em nível hard, abriremos a cortina e deixaremos a luz entrar.

A questão é que o que está do lado de fora pode não ser o que pensávamos – isto seria a estampa da cortina. Pense assim: a ideia que temos de justiça pode não ser, efetivamente, justa, mas o que foi estampado na cortina e, o que foi pintado, corresponde ao que acreditamos ser a realidade.

Agora estenda essa ideia de cortina para você. Se nós estamos no mundo e tudo o que há no mundo está coberto pela cortina estampada, então nós também nos vemos por essa estampa na cortina. Isso quer dizer que o pretenso autoconhecimento também é um autoconhecimento que está ligado – e muito – ao que é aparente, ou seja, superficial.


Daí a dificuldade de percebermos as contradições entre o que pensamos, falamos e o que fazemos, as nossas atitudes. É quando gritamos hipocrisia apontando para as outras pessoas e as outras pessoas apontam para nós e umas contra as outras. Há, então, não uma hipocrisia generalizada, mas uma percepção aparente e generalizada sobre quem se é.

Pelo método de Sócrates, temos que problematizar essa percepção, questioná-la. Arregaçar a cortina para enxergar o que está do lado de fora, no caso, dentro de nós. Importante ter em mente que, da mesma forma que as ideias, quando questionadas, podem revelar equívocos e interesses que entram em conflito com o que pensamos, o que podemos descobrir sobre nós pode – e geralmente é – desagradável.

Como tendemos a fugir do que não é prazeroso, não queremos saber, ter contato com que essas verdades sobre nós. Mas elas não só estarão lá como seguirão arranhando a parede que as prende, a parede que as cerca e impede de sair.

COM VOCÊS, JUNG

Aqui aproximamos Sócrates de C. G. Jung e o que este designou como sombra. Podemos conceituar, de forma introdutória, sombra como sendo aqueles aspectos de quem somos, de nossa personalidade que estão, por assim dizer, escondidos de nós, no nosso inconsciente – para usar um termo mais técnico. Essa sombra não é ruim, tampouco deve ser entendida como boa, mas pode ser entendida como potencialidade e, como toda potencialidade, pode expor muita coisa.

Sabe aquela sabedoria popular que afirma que todo mundo tem um lado ruim? Pronto, vamos pensar a sombra a partir dessa perspectiva, mas vamos entender esse lado ruim fora da dicotomia bem X mal. Esse lado ruim seria o que está oculto e está oculto por ser desfavorável de alguma forma para nós. Pense da seguinte maneira: durante a história da sua vida você foi educada/o de maneira a se comportar mais de uma forma e foi levada/o a reprimir outra, considerada ruim. O que foi reprimido não sumiu, mas foi “trancado” no porão, no caso, no inconsciente.


Pense que consciente e inconsciente são um par e sendo um par atuam (ou deveriam atuar) juntos, o que não acontece de maneira plena. Se colocamos aspectos de nossa personalidade no “porão”, esses aspectos compõem o que somos e vão buscar a saída, uma espécie de reconciliação, uma retomada da dança que foi interrompida em algum momento.

A frase “eu sou assim”, a partir da perspectiva de Jung, deve ser entendida como “eu me mostro assim”, ou seja, é como se fosse uma máscara (persona) que forma a nossa personalidade para que possamos viver no mundo resistindo ao que nos faz sofrer e convivendo com as outras pessoas. A questão, porém, vai além da proteção contra o mundo no que ele tem de ofensivo ou do que é necessário para viver nele.

Essa máscara (persona, personalidade) nos esconde nossa sombra e, vez ou outra, (muitas vezes) essa indesejada meio que “empurra a porta” nos mostrando o que queremos esconder, o que temos vergonha e mesmo medo de admitir. Talvez aquela “bad” que nos toma seja essa sombra “vazando” pelas brechas do inconsciente na direção da luz, do consciente.

E COMO ISSO ACONTECE?

Sabe quando você tentou se relacionar com alguém, mas nunca conseguiu, sempre deu errado, você tem o famigerado “dedo podre”, só aponta para o ruim, para o que não presta? É provável que sua fúria tenha se voltado para as pessoas que foram ruins com você. Pois bem, essas suas escolhas podem ser parte de sua sombra “vazando”.

Essas escolhas, quase idênticas, compõem um padrão. Se você é conhecido pelas suas amizades pela sua incrível capacidade de escolher um mesmo tipo de relacionamento, o abusivo, pense que há algo que sua sombra está tentando comunicar. Uma verdade ocultada, algo sobre merecer amar e ser amada/o e que pode ter a ver com algum momento de sua jornada ou fazer parte de algum aspecto de sua personalidade.

E quando tem aquela pessoa que você detesta desde que conheceu, aquela que irrita você quando fala, quando sorri, quando anda, quando existe, já parou para pensar na razão de tamanha ojeriza? Essas sensações, esses sentimentos que temos por alguém são muito mais reveladores do que somos, do que sentimos do que sobre o que a pessoa é, afinal a pessoa não é responsável sobre o que você sente, ela só pode ser responsável pelo que ela é.

Em situações como essa, a sombra contribui para você como um espelho contribui para quem quer ajeitar o bigode, retirar a maquiagem, escovar o dentes: nos mostra algo que pode melhorar a nossa aparência, sendo que nesse caso não seria a aparência em termos estéticos, mas aquilo que aparentamos para nós mesmos para encobrir o que nos envergonha, o que não queremos reconhecer que exista ou que também somos assim.

Talvez você pense que às vezes uma raiva de alguém é apenas uma raiva de alguém e não tem grande verdade para ser revelada sobre isso. Há verdade nisso também, mas pense que mesmo essa raiva diz respeito ao que VOCÊ sente ou sentiu por algo que outra criatura realizou, disse, expressou. Mais uma vez volta-se para você. Pense mais: o que é dito, o que é feito não tem significado em si, mas se relaciona a algo que contribui para a construção de sentido de quem observa, escuta ou sofre a ação.

O QUE FAZER

Aí você afirma: “então eu só preciso assumir que tenho ‘defeitos’ e pronto, equilibrei tudo!” Calma, jovem, não funciona assim – ainda bem que não. Encarar a sombra não é um processo apenas racional (não mesmo). Não se encara o que se é para negar, confrontar e destruir, mesmo porque não se consegue destruir o que se é. Muito menos para ser “legal”, complacente, algo tipo “bichinho/a de mim que sou tão terrível”. Longe disso.

Entrar em contato com a sombra que somos pode ampliar a luz que temos sem que haja ofuscamento nem apagão, mas um equilíbrio claro/escuro que integrará qualidades importantíssimas na realização efetiva de quem se é. Não se viverá sem sofrimentos, mas se terá mais coragem e alegria para passar pelas atribulações e encarar o que o poeta tão bem definiu como “a pena de viver”.

Assim, trocar a atitude de responsabilizar o mundo pelo que acontece por uma atitude de busca pela própria contribuição individual que se dá para o que há no mundo, é um bom primeiro passo.

A pergunta a se fazer é: o que me leva a essas situações? Por que esses acontecimentos se repetem? Por que eu permito que essas pessoas entrem na minha vida e façam tudo o que fazem? Por que essa pessoa me incomoda tanto? Por que essa presença me inquieta? Por que toda vez que tal coisa é dita eu me sinto assim (ou assado?)

Aqui cabe ilustrar com um clássico do cancioneiro nacional na voz de Raimundo, o Fagner e do Baleiro Zeca:


Seguem as letras:

À Flor da Pele

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo fina

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você

Eu não preciso de muito dinheiro,
Graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..

Revelação

Um dia vestido de saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas, camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar
Volta a incomodar
Volta a incomodar

Quem nunca se sentiu “à flor da pele”? Qualquer coisa que aconteça é recebida com muita intensidade, desde um bom dia de alguém, passando pela desarrumação da casa até chegar ao vento que irrita simplesmente porque está ventando.

Uma espécie de desorientação, incerteza, insegurança de não se sabe o quê nos ajudam a ter uma chave de leitura para a canção e que pode se aproximar desse “grito silencioso” da sombra que temos e que quer “encontrar a luz”.

Tentar “se guardar”, ilhar o sentimento apenas traz uma falsa sensação de bem-estar, deixar de lado o que incomoda não é lidar com o que incomoda, mas sim não encarar o abismo que se é e que tem um grande olhar no fundo, esperando para nos encarar e nos fazer ver o feio e o belo que somos em uma perspectiva que ultrapassa a estética, dizendo respeito ao mal que somos e ao bem que também nos é.

Aqui é muito importante ter em mente que o mal de que se trata não é o mal caricato de filmes e telenovelas, é o mal ancestral, aquele que faz parte da história, quando não se negava, mas buscava-se a convivência equilibrada que garantisse a manutenção da vida.

Pare e pense: se todo mundo é mal, mas todo mundo é bom (porque diz que os outros é que são ruins), quem é, verdadeiramente a vítima desse mal? Tenso, né? O mal do mundo é o resultado da soma do mal de cada um. Enquanto negarmos isso, seguiremos sofrendo e fazendo sofrer quem afirmamos amar acima de tudo.

Retomo as questões: o que me leva a essas situações? Por que esses acontecimentos se repetem? Por que eu permito que essas pessoas entrem na minha vida e façam tudo o que fazem? Por que essa pessoa me incomoda tanto? Por que essa presença me inquieta? Por que toda vez que tal coisa é dita eu me sinto assim (ou assado?)? O que é essa sensação de desalinho com a minha vida, com as pessoas que eu creio amar?

As respostas, se procuradas no porão em que foram jogados aspectos considerados ruins, nocivos e mesmo temores e fragilidades infundados ou fruto de situações dolorosas, estarão na sombra e na aceitação ativa e não complacente do mal que também há em nós.

Deixaremos de culpar “o dedo podre” nas escolhas amorosas, entenderemos que o chefe não é apenas mandão e assim sucessivamente.


Não somos bons nem maus essencialmente. Somos potencialidades que carregam a ambiguidade do existir. Afirmar que tudo é culpa do ego é uma solução rasa e que não dá conta dos caminhos quase infinitos pelos quais podemos trilhar, se embarcarmos na viagem fantástica do autoconhecimento. Não será fácil, será doloroso, mas com certeza nos engrandecerá e tornará nossa vida mais consciente e, por extensão, mais nossa.   

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