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ARTIGOS

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CIÚME: o que a filosofia pode nos dizer


Aí a pessoa recebe uma ligação, pede licença para atender e você se corrói de curiosidades ou a pessoa tá toda risonha escrevendo no whatsapp e quando você aparece, sai do aplicativo, fica séria, olha para você e fala: “diz!” Ou ainda: tem uma pessoa nova na turma e começa a conversar com seu amigo, aquele de todas as baladas e horas de estudos (porque ninguém é de ferro, né?) e você olha e pensa: “oxe, oxe, oxe, quem é esse otário?”

Tá rindo, né? Pois bem, o que motiva essa reação em todas as situações descritas acima é o ciúme. Quando se trata de ciúme geralmente se trata também de amor, sendo que o ciúme é entendido como prova de amor, como a confirmação que a outra pessoa (objeto de ciúme) é amada, desejada, que não se quer perder. Pois bem, vamos com a filosofia pensar um pouquinho sobre essas perspectivas. O primeiro passo deve ser conceituar, entender o conceito do que pensamos e mesmo sentimos (se é que é possível neste último caso).

O ciúme é uma paixão e você deve se perguntar se paixão não é outra coisa, não é o que sentimos quando queremos muito estar com alguém, desejamos o corpitcho de tal pessoa nu e várias referências a nudez e o que se pode fazer estando nu com alguém. Esse entendimento, bem popular, de paixão, entretanto, é bem recente e muitas vezes diferenciado de amor. Não trataremos aqui dessa aparente(?) (ou real?) separação. Ficaremos no ciúme e o motivo de ser uma paixão.

Para os gregos, paixão é uma força ou uma ação que tem sua origem de fora de nós. Essa força ou ação impede que nós ajamos, criam obstáculos para o que costumamos fazer de maneira tranquila e calma. Estar sujeito às paixões, nesse sentido inicial para os gregos, era estar impossibilitada de agir. As paixões nos perturbam e nos conduzem de maneira contrária à razão que, estaria, assim, no comando de nossos atos. Nessa perspectiva, paixão é algo negativo, que traz problemas, melhor é afastar-se dela, silenciá-la.

Sendo o ciúme uma paixão, isso quer dizer que quando se está tendo um “ataque de ciúmes” o que pode ser entendido é que a pessoa em questão é vítima de uma perturbação em sua alma, de um tremor íntimo que arrasa toda a sua capacidade de agir “como um ser humano normal”. Você já deve ter ouvido de alguém que surtou de ciúme a frase: “eu estava ‘fora’ de mim”. Esse descontrole já produziu dezenas de milhares de vídeos de pessoas passando vergonha em público porque o/a companheiro/a teve um desses ataques.

Aqui vale mencionar o senso comum que atribue às mulheres uma predisposição maior que os homens para sentir ciúmes. Mais uma pérola do pensamento sexista que apaga as manifestações violentas de homens que assassinaram suas companheiras ou ex-companheiras porque acreditaram que ela “estava se ‘oferecendo’” para os ‘caras’ na festa (ou em qualquer situação)” e não aceitaram o fim do relacionamento, respectivamente. Agora tem que ser em maiúscula: HOMENS E MULHERES TÊM A MESMA CAPACIDADE E POSSIBILIDADE DE MATAR POR CAUSA DE CIÚMES, mas quando é um homem que mata, geralmente se diz que foi por amor.

Nesse ponto é fundamental ter em mente que não temos educação sentimental, educação para lidar com as paixões que, como está descrito acima, vêm de fora e nos perturbam a capacidade de agir sob o domínio da razão. O projeto político pedagógico da maior parte (para não falar de todas) das instituições de ensino se ocupa de conhecimentos matemáticos, de química, de física, de biologia, sobre as regiões do planeta, de seus rios, de como viviam os seres humanos em outras épocas e lugares, de forma que temos estudantes que ingressam na vida adulta sabendo usar log de base 10, enumeram as causas da primeira guerra, a mundial mas que não sabem lidar com a panela de pressão que são sentimentos oriundos de paixões como a ira, o medo e o ciúme etc.

Nesse hiato existente, quem desempenha esse papel? Essa pergunta deve ser feita porque há uma educação sentimental vigente e ela atua sobre cada um/a de nós sem restrições. O cancioneiro popular faz esse papel de sensei das emoções, de guia de sentimentos, de farol de afetos. Há um número quase infinito de canções que nos guiam na nossa formação emocional. Tanto é válida essa afirmação que peço para você que está lendo esse texto agora que pare e pense em uma música que você considera a música de sua vida, aquela que deve representar sua história de vida, seus sentimentos.

É muito provável que seja uma “canção de amor”, independente do gênero, paixões como o ciúme estão presentes em várias músicas que foram e ainda são sucesso por todo o território nacional. Algumas são sucesso mundial (ocidental, pelo menos). Não é exagero afirmar que os nossos sentimentos, e como lidamos com eles, foram orientados em grande medida pelo que cantoras, cantores, grupos musicais reproduziram e reproduzem ainda hoje. Continue a leitura e confira alguns exemplos.

Roberto Carlos, aquele do especial clássico de fim de ano, tem uma das mais conhecidas canções sobre a temática, mas que na voz do grupo Raça Negra tem mais sentimento (minha opinião tem sim, tem sim, tem sim!)



Se você demora mais um pouco

Eu fico louco esperando por você
E digo que não me preocupa
Procuro uma desculpa
Mas que todo mundo vê

Que é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você põe aquele seu vestido lindo
E alguém olha pra você
Eu digo que já não gosto dele
Que você não vê que ele
Está ficando "demodê"

Mas é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Esse telefone que não pára de tocar
Está sempre ocupado quando eu penso em lhe falar
Quero então saber logo quem lhe telefonou
O que disse, o que queria, e o que você falou

Só de ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você me diz que vai sair sozinha
Eu não deixo você ir
Entenda que no meu coração
Tem amor demais, meu bem e essa é a razão

Do meu ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você


O rock também tem contribuição nesse processo de educação sentimental, escute e leia a letra de Ciúme, do grupo Ultraje a Rigor:



Eu quero levar

Uma vida moderninha
Deixar minha menininha
Sair sozinha
Não ser machista
E não bancar o possessivo
Ser mais seguro
E não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade
Hiê! Hiê! Hiê!

Mas eu me mordo de ciúme

Companhia do Calipso também cantou essa paixão em Morrendo de Ciúme:



Ouvi alguém dizendo que você andou falando em mim sem

perceber.
Depois que tomou todas por aí.
Estou sabendo que até chorou.
E quando a gente chora isso é amor.
Por que é que você não que assumir.
Assuma que me ama eu quero ouvir.

Tá, você tá é morrendo de ciúmes.
Porque não deixa logo esse costume de querer enganar
seu coração.
Quer dar uma de difícil.
Eu te conheço.
Depois não quebre a cara pague o preço.
Porque não deixa dessa indecisão.
Você que se matar de solidão.


O tal sertanejo universitário, na voz de Edu Chociay, garante aos ouvidos ávidos por declarações dessa natureza, a música Ciúme:

Sim, assumi que é ciúmes sim

Eu fico tão fora de mim
Tudo é ameaça pra tirar você de mim

Também, tenho medo de ficar sem
De perder quem me faz tão bem
Porém


Você desaba e chora

E eu reflito na hora
O que eu tô causando pra você

Eu vou mudar meu jeito
Curar o meu defeito
Olhando nos seus olhos vou dizer
Me perdoa, é que

É que eu te amo mais
Que a mim mesmo, mas
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes

Eu não quero ninguém
Querendo te querer
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes


Você pode fazer a sua lista de músicas sobre ciúme e analisá-las a partir do que abordaremos aqui. Cuidemos da vida então.

Essa paixão, o ciúme, é ambígua pois tanto pode apresentar valores positivos quanto negativos, ou seja, se considerarmos que quando gostamos de alguém, cuidamos, então temos resultados positivos quando somos tomados por ciúmes. É como se virássemos guardiãs, sempre dispostas/os a manter a pessoa bem, viva, feliz etc.

Porém, meio que por um passe de mágica, quem antes cuidava passa a, digamos, “cuidar demais”. Restringir a liberdade de locomoção, reduzir as companhias, mesmo as mais antigas amizades, anteriores ao próprio relacionamento. Vale lembrar que não se trata apenas de relacionamentos ditos amorosos, mas de qualquer relação entre humanos.

O que pode levar o ciúme a sair do cuidado e passar a ser opressor? Segundo René Descartes, o egoísmo e a insegurança são o ponto de partida de toda relação ciumenta. Quem é ciumento/a carrega em si um desejo de possuir sozinha/o seja a companhia, a conversa ou mesmo a intimidade e a partilha de sentimentos mais profundos. Daí querer monopólio sobre alguns assuntos da vida da pessoa em questão não querendo, assim, que conviva com outros indivíduos.

No que diz respeito à insegurança, a pessoa ciumenta, muitas vezes, não se sente merecedora do amor que recebe, seja de amizades ou da pessoa com quem priva de mais intimidade. Nesse sentido, a pessoa ciumenta se sente “o cocô do cavalo do bandido”, indigna de qualquer consideração. Como esse indivíduo lida com essa percepção? Surtando!

Perturbadora, mas muito válidas, também são as perspectivas de Sigmund Freud, a saber: sente-se ciúme porque se rivaliza com alguém. A pessoa ciumenta sente que está concorrendo com outras no que diz respeito às atenções e amores de quem a acompanha. Até aí parece de boas, mas a questão não é sobre disputa e sim sobre como a pessoa se vê e a importância que atribui a si.

Freud ainda nos oferece a abordagem do ciúme que tem como ponto de partida a projeção do que a pessoa ciumenta sente. Funcionaria assim: quem afirma que a pessoa está “dando bola” para outras, está flertando, paquerando, rolando um “lesco-lesco” na verdade é ela quem deseja isso, quem quer “pular a cerca” é ela. Não conseguindo perceber ou não querendo aceitar esse desejo que há em si, a pessoa aponta para a/o companheira/o. Seria algo do tipo: eu quero, mas não assumo e digo que é minha companhia que quer.

Agora a terceira forma de ciúme impacta de maneira autoexplicativa: quem sente ciúme seria uma pessoa homoafetiva reprimida uma vez que ela é quem deseja o/a outro/a, o indivíduo que rivaliza supostamente com ele. Pensando em relações heteronormativas, seria algo assim: o namorado ciumento teria desejos por outros homens mas nega a si que os sente. A namorada ciumenta, idem. Tá pensando agora sobre isso, né? Há um debate intenso sobre essas possibilidades explicativas e é importante lembrar que são possibilidades e não verdades absolutas ou inquestionáveis.

COMO LIDAR?

O pensamento filosófico não dá receita de bolo, mas indicações para que possamos encontrar as possíveis chaves para uma vida mais consciente, o que não quer dizer uma vida livre de sofrimentos, mas uma vida com mais autonomia até para lidar com o que dói. O ciúme faz sofrer tanto quem tem os ataques quanto quem sofre, quem é “objeto” de ciúme.

Quando o ciúme deixa de ser expressão de cuidado e passa a ser negativo, é fundamental que a pessoa ciumenta aceite que ela pode estar se vendo como alguém sem valor, sem importância. Uma possível saída é atribuir um valor a si que seja equivalente ao que teme perder, ou seja, quando se está seguro de si, seguro sobre quem se é, seguro do valor que tem, há um perigo infinitamente menor de ser tomado pela paixão que é o ciúme.

Isso não quer dizer que não se vai sofrer ou que se está imune às dores causadas por perdas ou abandonos mesmo porque para ser abandonada/o basta ter companhia. A Escola Estoica pode nos ensinar, se permitirmos, que só deveríamos nos ocupar do que depende de nós para acontecer. Quando sentimos ciúmes estamos sob efeitos externos que reduzem, que minguam a nossa capacidade de, conscientemente, tomar decisões racionalmente.

Podemos sentir ciúmes, podemos sim, mas após sentir devemos procurar entender o que essa paixão tem a dizer sobre nós, afinal só controlamos o que nós fazemos. Os atos de outras pessoas (as que afirmamos amar) dizem respeito unicamente ao que as motiva. Negar a paixão do ciúme é não dar um importante passo rumo ao autoconhecimento, mas se deixar tomar pelo ciúme é abrir mão do autodomínio que pode nos garantir autonomia e soberania de si. O que fazer, então? A justa medida originada do autoconhecimento parece ser a melhor resposta.

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