Menu Superior Horizontal

  • E
  • D
  • C
  • B
  • A

Acesse aqui!

Entre em contato pelo Facebook ou Twitter.

Assista aqui!!!

Assista a filmes históricos clicando aqui!!

Fichas monstro!!!

Faça o download das Fichas Monstro clicando na barra de menu!!

Fale com o Prof. Salviano Feitoza

Clique aqui e saiba informações importantes sobre o Prof. Salviano Feitoza

ARTIGOS

sábado, 9 de junho de 2018

SOBRE O ENVELHECIMENTO


A canção Envelhecer, de Arnaldo Antunes, entre suas estrofes afirma que

a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer
(...)

Otimismo é uma das características presentes em toda a composição do ex-titã. Ainda que muito válida essa perspectiva, o envelhecimento traz algumas transformações físicas e psíquicas que alteram a qualidade de vida e, por extensão, deveriam receber mais atenção por parte de todo mundo. Essa atenção, porém, deve ultrapassar alguns lugares muito comuns quando trata-se desse assunto. É preciso superar a ideia de “melhor idade”, de “vovô e vovó queridinha” que só vive em função dos netos e netas.

O extremo oposto também deve ser superado: a ideia de que velhinhas e velhinhos são a personificação do mal na terra – principalmente as mulheres idosas, geralmente postas no imaginário como sendo as bruxas que servem ao diabo e, para tanto, enganam, oferecem poções mágicas, enfeitiçam e toda uma ampla gama de artíficios para atingir seus intentos.

Um dos primeiros aspectos a ser considerado é que o envelhecimento é uma uma questão de saúde pública, o que quer dizer que é de interesses coletivo porque tem relação com e afeta vários âmbitos da vida social e, por isso, deve ter atenção do Estado pois idosas e idosos estão em situação de vulnerabilidade, que pode ser definida como a situação em que indivíduos ou grupos têm sua capacidade de autodeterminação reduzida apresentando dificuldades em se autoproteger devido a exiguidade de poder, de cognição, educação, recursos diversos (não apenas materiais), força ou outros aspectos.

Deve ser considerado que a situação de vulnerabilidade não está atrelada apenas aos mais velhos e mais velhas, mas qualquer indivíduo que esteja na situação descrita, o que impede a possibilidade de incorrer em outro estereótipo que é o de velhinhas e velhinhos como sendo o único grupo que pode estar vulnerável.

Retornando ao caso de idosas e idosos, a situação de vulnerabilidade pode ser relacionada a alguns aspectos. Dentre os primeiros está a crescente dificuldade em realizar as atividades mais prosaicas, mais cotidianas. Essa queda gradativa da autodeterminação torna as pessoas idosas mais dependentes de outras, o que faz aparecer um outro problema: quem vai cuidar dessas pessoas? Há alguns anos essa pergunta tinha uma resposta mais simples: alguma das filhas ou a filha que ainda não tivesse casado (a popular solteirona).

Adicione às questões de autodeterminação, um conjunto de situações que contribuem para a incapacitação crônica, como osteoartrite, osteoporose, hipertensão, diabetes mellitus, depressão, entre outras. Quando se trata de envelhecimento, essas situações podem ser classificadas como inevitáveis (ou quase), tornando fundamentais as perspectivas do cuidado e, mais especificamente, do cuidado preventivo.

Mesmo o envelhecimento sendo comum a todas e todos, a população feminina é mais atingida pela situação de vulnerabilidade, uma vez que, além de sofrer pelas incapacitações, ainda sofre com discriminação, violência, trabalho doméstico, dificuldades educacionais e profissionais. Amplifica-se a deterioração tanto física quanto emocional, que passa a ser acompanhada por fragilidades também existenciais, que vão da autoestima passando pela dependência em relações abusivas (muitas vezes familiares) e chegando, em muitas situações, ao abandono propriamente dito e também ao suicídio, antecedido por estados de depressão.

É importante ter em mente que entre as mulheres, o grupo das mulheres negras são atingidas de maneira mais incisiva pelas situações descritas acima, sendo tal condição atrelada ao racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira.

Desses males físicos e psíquicos passamos para as questões propriamente sociais, ligadas à cidadania e ao usufruto de direitos.

DIREITOS E CIDADANIA

Considerando que direitos são garantias jurídicas que devem possibilitar a sobrevivência, para a pessoa idosa esse usufruto é precário para além da medida. A chamada população jovem e em idade produtiva já não usufrui dessas garantias da maneira que deveria e, a partir daí pense como deve ser dificil para uma pessoa idosa se locomover pelas ruas com calçadas altas ou com muitos buracos, pegar uma condução como são os ônibus e metrôs da maior parte das cidades do país são uma experiência física excruciante para as pessoas idosas e que traz muitos sofrimentos. A liberdade de locomoção é restrita e essa restrição vem acompanhada de um processo de invisibilização social, que nega direitos aos que cumpriram com deveres durante toda uma vida.

É importante ter em mente que o trabalho a que nos dedicamos define nossas identidades pessoais e mesmo sociais. Em conversas, quando nos apresentamos, o fazemos a partir de nossos trabalhos: “sou fulana, médica”, “eu sou beltrana, engenheira”. Essa identidade é fundamental na formação e manutenção da autoestima e, quando chega o momento da aposentadoria, do afastamento das atividades as quais uma pessoa se dedicou durante décadas, é como se fosse retirada dela o direito de “ser quem ela é”.

Há um número grande de pesquisas que comprovam que após a aposentadoria muitas pessoas adoecem, entram em estados depressivos e cometem suicídios motivados pelo afastamento de suas atividades. Entretanto, o afastamento das atividades por aposentadoria seria uma espécie de “mal menor”, se levarmos em consideração que mesmo afastadas essas pessoas teriam uma renda – mesmo que não atendendo bem todas as suas necessidades.

A situação torna-se mais problemática quando ocorre a demissão: mesmo com experiência de sobra na atividade a qual se dedicou por muito tempo, a pessoa – agora idosa – não encontra espaço para continuar trabalhando, seja porque houve uma modernização daquela atividade para além do que a pessoa consegue acompanhar, seja porque o mercado de trabalho busca pessoas mais jovens para desempenhar aquela função, principalmente se estiver ligada ao trato com o público. Há vários casos de professores, por exemplo, que foram demitidos, entre outras razões, porque não eram bonitos e jovens.

Há, porém, uma atenção que pode ser classificada como perversa: aquela que tem como interesse a aposentadoria dessas pessoas. Aqui se faz referência aos inúmeros serviços de empréstimos consignados para aposentados e pensionistas. Ramo do mercado que se desenvolveu a partir da percepção de um nicho rentável e com garantias de recebimento, várias são as estratégias para garantir a “realização do sonho e do conforto da ‘boa idade’”. Ligações intermitentes, mensagens de celular, abordagens nas ruas, nas filas de banco quando vão receber seus valores mensais, os mecanismos são quase infinitos.

Uma outra atenção (perversa) reveladora da violação de direitos da pessoa idosa diz respeito à saúde: a rede pública não atende da maneira que deveria e a iniciativa particular chega a ser abusiva ao fornecer planos de saúde a preços elevadíssimos e que trazem, em seu funcionamento, muitas dificuldades para garantir o cuidado e a atenção necessários para a manutenção da vida desses indivíduos. Uma das provas que o abuso ocorre em escalas elevadas é a necessidade da criação de um estatuto do idoso que, para além das questões de serviços públicos de saúde, visa proteger de uma estrutura social que negligencia e violenta o que não é jovem e belo dentro dos padrões socialmente estabelecidos e reproduzidos.

TRABALHO REPRODUTIVO

Aqui se faz necessária a reflexão sobre o trabalho reprodutivo, que é, conceitualmente, o trabalho que assegura a continuidade da vida, ou seja, é uma atividade ligada ao cuidado, sendo o cuidado entendido como as práticas relacionadas ao vestuário, alimentação e higiene. O trabalho reprodutivo foi historicamente atribuído às mulheres mas passou por algumas mudanças, ou melhor, impactos a partir do aumento das reivindicações feministas e, a partir destas, pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho.

Quando o cuidado passa a ser profissão (trabalho reprodutivo), a gratuidade do trabalho doméstico e o fato de ser exclusividade feminina é diretamente atingido, o que leva a outras mudanças que não são o objetivo deste texto.

As pessoas idosas, historicamente, não eram alvo de interesse de mercado, o que passou a mudar e a geriatria passou a ser uma área em franco desenvolvimento no Brasil (com atraso quando se compara com outros países do mundo), o que pode ser identificado no crescimento de agências que oferecem os serviços profissionais de cuidado, o que pode ser visto como algo positivo mas que apresenta o problema do custo/investimento que se deve fazer e que a maior parte da população não tem condições.

Aqui pode ser inserido o papel do Estado no que se refere ao direito à saúde e a uma vida com dignidade: a efetivação de um projeto que prepare a saúde pública para atender a essas demandas que tendem a ficar ainda maiores e não devem ser deixadas aos cuidados livres de regulação de empresas particulares.

Assim, ao pensarmos o envelhecimento, que é inevitável, devemos pensá-lo para além dos estereótipos mencionados no início do texto e abordá-lo pela perspectiva de políticas públicas que agreguem Estado e sociedade civil, ou seja, o envelhecimento é uma questão social importante pois afeta diretamente a produtividade, a prestação de serviços, a saúde pública e, o que deveria ser mais importante, a qualidade da vida humana.

Amplie:






domingo, 3 de junho de 2018

O corpo e a espetacularização da existência na sociedade do capital


A peça “Esperando Godot” que faz parte do movimento artístico cultural conhecido como Teatro do Absurdo, do dramaturgo Samuel Beckett, apresenta uma abordagem da condição humana que pode ser comparada metaforicamente com a busca constante da adequação ao padrão de beleza socialmente colocado como ideal. Na obra, os dois personagens protagonistas esperam diariamente pela chegada de Godot, que é sempre anunciada para o dia seguinte. A chegada de Godot nunca se concretiza, chegando-se a duvidar da sua existência, mas, mesmo assim, todos continuam esperando por ele. Ironiza-se, dessa forma, a esperança de uma suposta “salvação” que, adiada eternamente, nunca chega.

Assim funciona a busca pelo atual padrão de beleza: a indústria cultural relaciona beleza à felicidade e transforma o padrão do que se entende como belo em mercadoria passível de ser consumida através da aquisição de mercadorias que prometem sempre a concretização desse padrão. Esse padrão, no entanto, nunca pode ser atingido, pois a insatisfação emocional crônica gerada por essa busca é estimulada de forma contínua através dos mecanismos mercadológicos que fabricam a ideia do consumo como necessidade. Sendo o consumo permanente um mecanismo fundamental para atender a necessidade mais básica do capitalismo, ou seja, a acumulação de capital através do lucro, a beleza esperada nunca chega, tornando o indivíduo um consumidor modelo.

Ao perceber essa questão sociologicamente, o corpo passa a ser um veículo para a representação das diversas formas de sociabilidade, refletindo, portanto, a cultura e os valores nos quais a vida social se insere. O corpo é, portanto, a materialização da relação que o indíviduo constrói com a sociedade na qual ele está inserido, na medida em que assume uma dimensão para além dos aspectos biológicos que o formam, passando a ser uma construção social. Como construção social, a formação da consciência acerca do corpo, assim como as formas coletivas de pensar e sentir sobre ele, são históricas, porque mudam no tempo e no espaço.

Considerando o contexto atual das sociedades ocidentais industrializadas, existe uma relação profunda entre a produção cultural e a formação das subjetividades que, potencializada pelo capitalismo avançado, transforma a representação da imagem do corpo em uma mercadoria, que como todas as outras mercadorias, deve ser vendida. Essa relação se dá a partir das redes sociais, uma vez que a veiculação de imagens assumiu para o Capitalismo uma importância tal que determinou a redução das relações humanas, inclusive a própria expressão das identidades, à imagem que é veiculada pelas mídias.

Uma vez que o corpo-imagem é a forma mais evidente de expressão das identidades, ele também passa a ser entendido dentro da lógica mercantil de consumo de aparências. Assim, junto ao conceito de “Indústria Cultural”, a caracterização da “Sociedade do Espetáculo” feita por Guy Debord evidencia a estruturação das relações humanas a partir da imagem espetacularizada em que a publicidade leva ao extremo a fetichização das mercadorias disponíveis para serem consumidas, o corpo sendo uma delas.

A construção da sociedade capitalista como Sociedade do Espetáculo se dá, então, para Debord, pela produção cotidiana de espetáculos aliados com a estrutura produtiva capitalista. Entendido, pois, nessa perspectiva, o espetáculo formulado por Debord funciona como um mecanismo do sistema para garantir a acumulação de capital, de forma condizente com o processo histórico concreto de consolidação do Capitalismo e da sociedade burguesa.

No entanto, avaliando essa questão para além do que Debord pôde prever a partir de seu contexto histórico, a midiatização, mediada pelas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter, etc -  da sociedade atingiu uma complexidade tal que o corpo não apenas assimila a realidade espetacularizada e consome os produtos estéticos, mas se tranforma ele mesmo na própria mercadoria, desenvolvendo-se agora a ideia do corpo-mercadoria no lugar do corpo-imagem.

Com efeito, procura-se “vender” uma autoimagem considerada ideal pela sociedade, através da espetacularização de um corpo que remeta ao que o capital entende como sucesso, o que implica a adequação do corpo a essa ideia, tornando-o mais “comercializável”, como qualquer outra mercadoria. É nesse sentido que se dá a padronização dos corpos considerados belos, haja vista que não se veicula, ou veicula-se muito pouco, a imagem de pessoas fora do padrão de corpo considerado comercializável ocupando posições sociais que, na sociedade capitalista, estão relacionadas ao sucesso, como posições de liderança e postos profissionais de destaque.

Como consequência, constrói-se uma esteriotipação que desconsidera as subjetividades de quem foge ao padrão e, a partir daí, molda os corpos dos indivíduos. Exemplo da espetacularização dessas representações sociais padronizadas do corpo e que tem relações com a política, é a matéria da revista Veja, como se observa na imagem, na qual se constata a construção de um discurso que impõe um padrão não apenas estético, mas também comportamental e político, sobre o corpo feminino.



O que a espetacularização faz é chamar atenção de forma exuberante sobre aquilo que o mercado quer que seja consumido, para tanto, passa  o verniz da beleza, do prestígio e do status, criando uma relação de culto a imagem que é sustentada pelo caráter teatral dos produtos midiáticos. É o que se observa com os perfis fit e de blogueiras no Instagram, que expõem de forma glamourizada e idealizada – ou seja, espetacularizada – ações banais, como refeições e exercícios físicos. A importância está no performático: naquilo que vale mais “likes”, mais seguidores, mais “matches”.

Essa questão é representada pela série distópica Black Mirror, no episódio “Nosedive”, em que as interações sociais e a exibição fetichizada das experiências cotidianas fazem parte de um sistema de avaliação instantânea que gera uma nota para cada pessoa, baseada no número de curtidas e interações virtuais que ela possui, que determinam o prestígio social e até mesmo o acesso a serviços e a determinados espaços físicos. Apesar de a série ser uma representação da realidade, ao refletir sobre os recursos de avaliação que atribuem notas aos indivíduos nos aplicativos de uso cotidiano como o uber e o AirBnB, assim como nossos esforços constantes para conseguir um bom desempenho neles, percebe-se que a realidade proposta pela série não está tão distante da realidade de fato.

Na sociedade pós-moderna o corpo assume o valor simbólico de uma mercadoria fetichizada, espetacularizado e facebooquializado, exposto para ser consumido. E no Império da existência como produto para ser exibido e consumido, o poder espetacular aparece como um desdobramento da expansão comercial inerente ao Capitalismo, disseminando em todas as esferas da vida social as condições para garantir a manutenção da sociedade burguesa. Ao direcionar o olhar sociológico para essa temática, é possível a desconstrução desses padrões culturalmente construídos atráves da desnaturalização da ideia de beleza, na medida em que se entende o processo social que possibilita a sua existência.
===================================
Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM