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ARTIGOS

sábado, 5 de maio de 2018

Música sobre o Brasil: do ufanismo ao nada presta


A forma como pensamos o mundo é ideológica. Como estamos no mundo, por extensão, também somos ideologicamente formadas e formados e isso quer dizer que estamos, inevitavelmente, atreladas e atrelados a um conjunto de ideias. Esse conjunto de ideias é o que chamamos de ideologia – conjunto de ideias que compõe as formas coletivas de agir, de pensar e mesmo de sentir. Talvez você pense: eu não! Penso com minha própria cabeça e nenhuma ideologia me diz o que fazer!


Bem, essa é uma das formas (e são muitas) através das quais as ideologias atuam: nos fazem pensar que nossas ideias vieram somente de nossa capacidade de pensar, o que é questionável principalmente do ponto de vista filosófico, sociológico. O conhecimento histórico nos ajuda a confirmar essa perspectiva. Não tem como viver em sociedade e não ter vínculo ou sofrer influências de ideias externas a nós, pois, desde o nascimento, o processo de socialização atua nesse sentido. A Mafalda que o diga.


Pense nas ideias que você tem (pausa no texto para você pensar) ……………………………………………………………………………………………………. você acredita que elas vieram do nada? Que você sempre as teve? Pense em algo como “política não se discute”. Faça aquele esforço de memória para lembrar o momento mais antigo, a memória mais remota que você tem sobre alguma situação em que essa frase foi repetida. Talvez sua memória te leve para aquelas reuniões de final de semana, com a família inteira e alguma tia sua dizendo que “política não é pra se discutir! É feito religião e futebol: NÃO SE DISCUTE!!!”


Pronto! Se uma reminiscência parecida com essa veio à tona, então eu te questiono, pessoa que agora lê: tem certeza que ninguém te diz o que pensar e mesmo fazer e até o que sentir? Pausa dramática para o “eita, é mesmo!”.


Pois bem, agora que entramos em consenso sobre a possível origem das nossas ideias, vamos pensar sobre os pensamentos sobre o nosso país. Mas, antes de tal empreitada, é importante que você tenha em mente que toda produção humana é ideológica, tem relação com ideias e ideias tem a ver com os valores que atribuímos ao mundo ao nosso redor e também a nós. Como é notável, há uma grande interrelação entre os vários âmbitos da vida em sociedade. Perceber essas interrelações é ter imaginação sociológica.

Isso quer dizer que não há neutralidade ideológica no que fazemos. No sentido que sempre existirá relação entre o que pensamos e o que fazemos. Poderíamos, para simplificar, afirmar, há ideologias em tudo.

Pensar o país em que vivemos implica identificar alguns aspectos de senso comum para justificar as mazelas que sofremos no mundo atual: “tudo começou no período colonial, pois as primeiras pessoas a chegarem aqui eram degenerados, bandidos, prostitutas. Com essa composição, o Brasil só poderia ter dado errado”. Essa fala compõe o repertório de muitos professores e professoras de História (e de outras áreas do conhecimento) que durante o ano letivo afirmam reiteradas vezes esse juízo de valor.

É um grande desserviço ao conhecimento histórico e também à possibilidade de desenvolvimento de senso crítico por parte de estudantes, uma vez que a fala docente tem uma autoridade muito grande sobre as turmas. Professor/a falou, verdade verdadeira é. A abordagem mais adequada seria problematizar inclusive essas ideias, porque, como lemos, ideias têm uma história e fazer a genealogia dessa ideia de Brasil como terra de mazelas permitiria desenvolver a capacidade de emitir juízos menos apaixonados e mais problematizadores.

Outro ponto de vista comum sobre o Brasil é de que somos um país “gigante pela sua própria natureza”, um país “abençoado por deus”. Patriotismo exagerado que pode descambar em ufanismo e ser justificativa para governos de exceção, ditatoriais. Como pode-se notar, são extremos que negam a historicidade (ou possibilidade dela). Parece que sempre existiu esse país, sempre existiram essas mazelas ou mesmo essas belezas atribuídas.

Por meio de educação indireta, aquela que não acontece na escola, mas fora dela e em vários locais como grupos religiosos, ambientes de trabalho, parques, conversas na fila para pagar contas etc, essas ideias são emitidas e repassadas adiante, de maneira aparentemente inofensiva. Nesse processo de aprendizado indireto, as músicas são protagonistas fundamentais, pois cantarolamos o último sucesso sem, muitas vezes, prestar atenção ao que está sendo dito.

Comecemos com um clássico: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, por muitas pessoas, considerado o hino do país.



Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado
Tira a Mãe Preta,do serrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver Essa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim


Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim


Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim



Analisando a letra da composição, identificamos elementos que até hoje compõe o imaginário positivo e otimista do Brasil: a mistura, a miscigenação estão presentes como algo para se orgulhar. A alegria e o samba pedem passagem também, juntamente com a sensualidade afrodescendente e a esperteza de quem acredita que deve sempre tirar vantagem quando for possível e que compõe, hoje a ideia de jeitinho brasileiro.

Outra canção nessa mesma linha, gerou desentendimentos na época de seu lançamento, País tropical, de Jorge Ben, constrói e reproduz a ideia de que “deus é brasileiro”, por sermos abençoados pois não sofremos com terremotos e outros problemas ambientais. Afirma também a sensualidade da mulher negra, a Teresa); posteriormente Seu Jorge e, mais recentemente, Ivete Sangalo fizeram suas versões, também com muito sucesso.

País Tropical
Wilson Simonal

Moro num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza
(Mas que beleza)
Em fevereiro
(Em fevereiro), tem carnaval
(Tem carnaval,)
Tenho um fusca e um violão
Sou Flamengo e tenho uma nega chamada teresa 
Sambaby, sambaby,

Sou um menino de mentalidade mediana(pois é)
Mas assim mesmo, feliz da vida
Pois eu não devo nada a ninguem 
(pois é)pois eu sou feliz,muito feliz comigo mesmo
Sambaby,sambaby
Eu posso não ser um bandleador (pois é)
Mas assim mesmo la em casa, todos meus amigos

Meus camaradas, me respeitam (pois é)
Essa é a razao da simpatia do poder,
Do algo mais é da alegria .
Mó,num pá tropi,
Abençóa por Dé
E boni por naturé (mas que belé)
Em feveré (em feveré)
Tem carná (tem carná)
Eu tenho um fu e um vio,
Sou flamé,tê uma nê chamá Terê
Sou flamé,tê uma nê chamá Terê.



Saindo de um extremo e indo para outro, temos a visão pessimista e aparentemente crítica da história do Brasil. A crítica é aparente pois envereda para a postura de reclamar afirmando que não há nada positivo no país. Uma canção de muito sucesso é a seguinte:

Meu país
Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil Brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo



É feita uma descrição quase cirúrgica de mazelas que atingem quase toda a população brasileira. Fome, miséria, políticos corruptos, hospitais em frangalhos, escolas precárias, analfabetismo, racismo e, diante de tudo isso, o eu lírico apenas fica calado, observando - a vida descrita na arte ou a arte copiando a realidade?

A canção seguinte traz a mesma perspectiva de crítica de mazelas sociais, mas é feito um clamor para que seja desmascarado o país e que este confie no eu lírico da canção, num pedido que se apoia na lealdade, na ideia de que não será o Brasil traído.



BRASIL
Cazuza/George Israel/Nilo Roméro

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)


O que há em comum nestas quatro canções é o posicionamento binário da realidade, que é mais complexa do que uma divisão entre as percepções de um país “abençoado” ou “degenerado” e sem solução. Em ambos os posicionamentos existem ideologias que mascaram a complexidade do real. Não há, também, certos ou errados mas sim o entendimento de que bem ou mal não existem em estado puro na história de qualquer sociedade. É importante superar essa dicotomia e aceitar o desafio de propor possibilidades que dialoguem entre si, aceitando uma das características fundamentais da democracia: o conflito. 

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