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ARTIGOS

terça-feira, 22 de maio de 2018

MORADORES DE RUA, POBREZA E IDEOLOGIA


Historicamente, o processo de urbanização brasileiro, iniciado no século XX, se deu de forma excludente. Sob as bandeiras da modernidade e da civilização, esse processo determinou demolições em massa e políticas higienistas que se fizeram presentes físicamente, a partir da destruição de habitações populares e de cortiços nas áreas urbanas centrais, e socialmente, aumentando o número de pessoas em situação de rua. Às pessoas pobres e suas moradias, eram associadas poluição urbana e doenças como a febre amarela e a varíola, criando o discurso de que para melhorar as condições de higiene e saúde nas cidades, símbolos da modernidade e do desenvolvimento, era preciso retirar as camadas populares das áreas centrais urbanizadas, reservando para elas as periferias urbanas, lógica de organização espacial que perdura até os dias de hoje.  


Esse discurso ideológico – tomando a conceituação marxista de ideologia, ou seja, produção de ideias que mascaram a origem socialmente construída das relações sociais de exclusão e dominação – dessubjetiva e descaracteriza enquanto sujeitos de direitos os indíviduos que moram nas ruas, entendendo-os não mais como indivíduos que possuem nome, experiências de vida e visões de mundo particulares, mas dentro do estigma de “mendigos”. Essa descaracterização, não raramente, legitima o uso de diversas faces da violência contra essa parcela da população: desde a sua invisibilização perante a sociedade até a agressão física. Como pode ser percebida através da charge, essa forma de percepção acerca das pessoas em situação de rua dificulta inclusive o desenvolvimento de políticas que tratem o cerne desse problema social, sendo mais comum ações que procuram “esconder” o problema, tirando essas pessoas de vista.

Esse tipo de ação perpetua um senso comum que discrimina e culpabiliza o indivíduo por morar nas ruas, senso comum este que se estende e se projeta nas ações do Estado, que consistem ou na omissão, através de políticas sociais infímas e ineficientes, ou seja, através da invisibilização do problema nas estruturas do Poder Público, ou na repressão dessas pessoas quando elas se fazem presentes em determinadas áreas, removendo-as, muitas vezes de forma violenta, dessas áreas, em nítidas ações de higienização social. Nesse sentido, apesar de espaços como ruas, praças e shoppings serem, na teoria, espaços públicos, empreendimentos privados como restaurantes, lojas e condomínios se apropriam deles, impedindo a presença e a circulação de moradores de rua, fazendo com que funcionem, na prática, como espaços privados, destinados apenas a determinadas parcelas da sociedade.

Na sociedade contemporânea, a construção das representações sociais associa a noção de caráter à inclusão na lógica burguesa de organização do trabalho. Assim, a associação do morador de rua ao não-trabalho – evidenciada no clássico “vai trabalhar, vagabundo” dirigido a essas pessoas - remete à criminalização desse grupo social, inclusive com a legitimação para o uso da violência contra esse grupo. Partindo dessa perspectiva de análise, percebe-se que as cidades brasileiras se fizeram com a ostentação da seguinte mensagem: em cidades modernas não existe espaço para a pobreza.

Não tendo a pobreza magicamente desaparecido, recolheu-se às áreas periféricas, longe da vista dos centros econômicos. Assim, ao pensar sociologicamente sobre esse assunto, é fundamental ir além dos lugares-comuns repercurtidos sobre ele, compreendendo a origem histórica do tratamento a que foram submetidas pessoas que vivem nas ruas, assim como das formas coletivas de pensar e agir em relação a essa parcela da sociedade.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

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