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ARTIGOS

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio e a persistência do racismo na sociedade brasileira

Há uma grande dificuldade (provavelmente da maior parte das pessoas) de pensar algumas questões no Brasil e uma delas é a persistência do racismo. Já se sabe que raças humanas não existem mas ainda se hierarquiza seres humanos a partir de sua aparência, de suas ideias e crenças (ou não crenças). O corpo humano é usado como referencial para definir quem é “mais humano”, quem é considerado mais capacitado, quem tem direito de viver e quem não tem. Pensando “nesta terra descoberta por Cabral” (para mencionar a música do Juca Chaves – se você não conhece, procure conhecer pois ele deu importante contribuição para a história da república brasileira), esses direitos todos estão praticamente garantidos em sua plenitude se, entre outros aspectos, a pessoa não tiver um teor elevado de melanina.

Talvez você tenha pensado: “pronto, começou o ‘mimimi”, a vitimização, vai escrever sobre o quanto é difícil ser afrodescendente (porque nem de negro mais se pode chamar), o quanto sofreu e sofre por ter a pele escura e o cabelo crespo!” CALMA, JOVEM! Eu escrevo e peço que não abandone esta leitura, ela provavelmente pode te ajudar a compreender inclusive essa reação que muitas pessoas têm quando se menciona essa palavrinha com “r”. Para tanto, vamos pensar a partir de conceitos sociológicos, afinal esta é uma página que objetiva divulgar a possibilidade de se pensar o mundo a partir de conceitos que muitas vezes não conhecemos mas que podem nos ajudar a nos entender e também ao mundo em que estamos inseridos e inseridas.

ALGUNS CONCEITOS

O termo raça diz respeito às qualidades que são atribuídas a indivíduos e grupos tendo como fundamento as características físicas, como, por exemplo, a cor da pele. Na história da humanidade sempre aconteceram essas distinções entre grupos sociais, mas o fundamento aparentemente científico só foi aplicado pelos fins do século XVIII e começo do século XIX. Essa aplicação pseudocientífica foi crucial para a dominação imperialista de nações como Grã-Bretanha, França e outras.

Racismo, conceitualmente, passa a ser a predominância das características físicas para compreensão das diferenças entre os indivíduos e grupos. Em termos práticos seria algo como afirmar que uma pessoa corre mais rápido ou tem dificuldades de aprendizado porque ela é negra ou branca. É atribuir ao que é físico algo que pode ser desenvolvido com investimentos, prática e disciplina. Um exemplo dessa perspectiva é quando se afirma que os quenianos se destacam em corridas porque “é do povo africano essa capacidade de correr”. Ou ainda: “parece uma coisa que faz com que negros se destaquem no futebol (Brasil) e no basquete (EUA).

Em ambas as situações, vale pensar se quenianos se destacam na corrida, pessoas negras se destacam no futebol e no basquete porque os seus corpos são “melhores preparados” para essas atividades ou se não temos aqui situações em que o custo para realizar tais atividades é bem menor do que estudar para ser físico nuclear, engenheiro espacial ou mesmo médica/o. Seria importante também ter em mente que, em muitas situações, usufruir de educação básica de qualidade já é uma grande possibilidade. Assim, não há nada de físico, biologicamente definido, geneticamente preparado que explique, sem controvérsias, o destaque de algumas pessoas, de alguns grupos em relação a outros.

Os grupos humanos são diferentes entre si porque indivíduos são diferentes entre si. O que se relaciona diretamente com o racismo é a desigualdade. A desigualdade é oriunda da atribuição de hierarquias ao que é diferente. Pensando em termos práticos: olhos azuis são diferentes de olhos castanhos e o juízo de fato pararia por aí se não fossem estabelecidas posições de inferioridade e superioridade: olhos azuis são mais bonitos do que olhos castanhos ou vice-versa. Agora pense nas peles humanas. Peles com mais melanina são diferentes de peles com menos melanina. Até aí, nenhum problema, nada de novo sob o sol.

Pessoas com peles escuras são inferiores em relação a pessoas com peles claras – estabelece-se, assim, a hierarquia. Pessoas de pele escura são inferiores e, por isso, não têm direito a usarem os mesmos banheiros que pessoas de pele clara e, como historicamente temos exemplos, devem ser reduzidas à condição de escravizadas para, assim, purgarem o pecado ancestral definido no livro sacralizado de uma religião ocidental originada no Oriente Médio.

Esse estabelecimento de um lugar social é o que pode ser conceituado como status. O lugar social de um indivíduo em uma sociedade pode ser atribuído ou pode ser adquirido. O primeiro caso é quando o indivíduo é colocado naquela posição, ele não escolheu estar ali ou mesmo se esforçou para isso. Exemplo simples: você é filho/a de seu pai, neto/a de seus avós, primo/a de seus primos e não escolheu nenhuma dessas pessoas para fazer parte de sua vida e nem elas a você. No momento de seu nascimento, a você foi atribuída essa posição e a essas pessoas também.
Ampliemos: quando você se depara com pessoas e acredita que essas pessoas podem representar um perigo para a sua segurança, você ATRIBUI um lugar social, você atribui um status a essa pessoa. O que te faz atribuir essa posição pode variar. Pode ser a roupa, a “cara” do indivíduo, o “jeito” (algo difícil de conceituar) mas, muitas vezes, essa “cara”, esse “jeito” tem a ver com a pele e a quantidade de melanina que ela carrega.

Um pouco mais: frases como “você não tem cara de médica”, “quem te vê nem diz que sabe tanto” ou, ainda, o conjunto de reações diante de pessoas que dirigem determinado modelo de carro ou moram em determinado bairro e são abordadas com alguma truculência ao som de perguntas como: “de quem é esse carro?”, “tá circulando por aqui pois tá querendo roubar?” são exemplos de status atribuídos aos indivíduos e que, nessas situações citadas, tem a ver com cor da pele.

Talvez você diga: mas acontece com qualquer pessoa, pessoas negras não são privilegiadas porque essas situações acontecem com pessoas pobres, mal vestidas independente da cor da pele. CORRETO. Mas considere que as chances de acontecer são maiores com pessoas negras porque há uma atribuição de lugar de inferioridade a pessoas afrodescendentes de maneira quase imediata.

E O RACISMO ÀS AVESSAS?

É comum encontrar e até se falar que sofreu de racismo por ser branco/a. Geralmente esse raciocínio vem acompanhado de seu primo, a heterofobia. Não será abordada aqui a questão da heterofobia, mas o desenvolvimento das ideias é análoga, pode ser usada como ponto de partida.

Comecemos por entender que o racismo na sociedade brasileira não é uma questão de pessoas racistas, mas sim de uma estrutura racista. Para entendermos melhor, vamos partir do conceito de estrutura social, que diz respeito à forma como uma sociedade se organiza por meio de relações complexas e com alguma continuidade no tempo e espaço. A estrutura social brasileira está assentada historicamente na atribuição de posições de inferioridade não só a pessoas negras mas também às expressões culturais, religiosas afrodescendentes.

Exemplo: se alguém afirma ser membro de candomblé, umbanda ou participar de qualquer manifestação de religiosidade de matriz africana, a chance de se ouvir um “vixi” é muito grande. Quando uma pessoa negra não raspa o cabelo ou, no caso feminino, não alisa para conseguir o penteado mais parecido com a da mocinha da novela (que geralmente é de pele clara) pode-se ouvir comentários do tipo: “que revolta é essa?”, “por que você não alisa o cabelo pra ficar bonita?”. Lembra do que foi escrito acima sobre status atribuído? Pronto, não se atribui beleza à aparência de pessoas negras ou legitimidade, direito de existir às expressões religiosas de matriz africana.

Isso quer dizer que há uma situação de inferioridade ao que se relaciona à população negra, é a estrutura da sociedade que é racista e que está baseada em ideias que compõem as formas coletivas de pensar, de sentir e de agir. No mercado de trabalho, muitas vezes, um/a candidato/a não é aceito/a em vaga disputada porque é negra a sua pele, ainda que não seja explicitada essa razão. Pense nas vezes em que você julgou alguém incapaz de fazer alguma coisa. Essa pessoa era negra? Se sim, questione-se a razão dessa atribuição de lugar de inferioridade.

Não há, conceitualmente, racismo contra pessoas brancas porque o mundo ocidental não inferioriza pessoas porque elas têm a pele clara. Há pouquíssimas piadas de pessoas brancas, os cabelos crespos são colocados como fantasias para o carnaval enquanto os cabelos lisos têm grande valor de venda. São esses elementos cotidianos que definem o racismo como estrutural e não como caso isolado, de alguém que discrimina e ofende. A discriminação e a ofensa são parte da formação da identidade nacional. Mas, você pode afirmar que existe racismo contra brancos/as, entretanto, sociologicamente, o conceito não dá conta da realidade social.


Como se pode combater esse mal? Uma possibilidade é a ação conjunta entre educação e legalidade. Educando as pessoas para a diversidade e punindo os crimes motivados por questões “raciais”. Mas a primeira atitude contra esse racismo estrutural que compõe a sociedade brasileira deve ser aceitar o/a racista que há em cada um/a de nós e quando alguém nos acusar de racismo, antes de respondermos com “eu não sou racista”, “como posso ser racista se tenho amigos negros, se namorei pessoas negras?”, pergunte: Por que você está me dizendo que sou racista? Dê oportunidade a si mesmo/a de descobrir a ignorância que há em si e que, na maior parte das vezes, não queremos reconhecer que existe.

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