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ARTIGOS

domingo, 27 de maio de 2018

GREVE, PARALISAÇÃO, CONFLITO DE DIREITOS, INTERVENÇÃO MILITAR E O QUE ISSO PODE NOS FAZER PENSAR SOBRE A DEMOCRACIA NO BRASIL



A vida em sociedade é marcada por conflitos. Sendo que esses conflitos são, muitas vezes, vistos como algo a ser combatido, que a vida social deveria ser de paz e tranquilidade. Essa perspectiva é muito válida mas não condiz com um dos aspectos que caracteriza a história da humanidade e, em alguma medida, a própria existência no planeta: a dialética. Vamos por partes, tal qual fatiador de queijo em tempos de escassez.

Dialética diz respeito a conflito, a conflito de opostos e que levam a mudanças, sendo qualitativas, quantitativas e uma mescla das duas. Isso pode ser entendido de maneira simples: as coisas mudam! Para que mudem, reações em cadeia devem acontecer. Algumas pessoas serão afetadas e acharão boas as transformações, outras, se entenderão (e serão mesmo) prejudicadas e outras tantas mal serão ou nem serão atingidas. Contradições inerentes aos acontecimentos e que estão presentes no mais trivial dos atos até a mais grandiosa movimentação.

Então, para continuar nessa leitura, devemos entender que a vida social é mutável e ainda podemos concordar com o pensador Augusto Comte, aquele fundador da Sociologia (a física social), quando ele afirma que a sociedade é estática e dinâmica ao mesmo tempo. A sociedade, por essa abordagem, tem aspectos, instituições que não mudam ou mudam pouco. Família, educação, religião são exemplos de instituições dinâmicas e estáticas: arranjos familiares, formas de educação, religiões existem em várias sociedades e ao longo dos tempos, mas com diferenças relacionadas aos contextos que são analisados, que são pesquisados e as épocas em que se vivia.

CIDADANIA, DIREITOS E O CONFLITO QUE TEMOS E PRECISAMOS TER

Uma definição de cidadania que utilizaremos aqui é: possibilidade de viver no usufruto de direitos. Cidadã é a pessoa que usufrui de direitos, o que nos leva para outra questão: o que são direitos? Pois bem, essa pergunta é de múltipla resposta. Se você questionar pessoas sobre o que são direitos, elas, provavelmente, te dirão exemplos de direitos mas não uma definição do que seja um direito. Essa dificuldade é comum e expõe a importância de pensar através de conceitos, sendo estes como enquadramentos da realidade que nos cerca e da qual fazemos parte.

Sem mais delongas, direitos podem ser definidos como garantias jurídicas para a sobrevivência de indivíduos e grupos em sociedade. Direitos garantidos não quer dizer que direitos são usufruídos em sua plenitude. Quer dizer que há garantias em vários aspectos para que se possa viver com outras pessoas e apesar delas. Garantias para que as pessoas humanas possam desenvolver suas potencialidades, realizando tudo o que podem realizar, tornando-se tudo o que conseguirem se tornar.

Aí se insere o que foi mencionado acima: o conflito! A realização de potencialidades carrega em si a possibilidade do conflito de interesses e de necessidades, o que traz a tona a decisão que deve ser tomada: qual o direito deve ser violado em nome de outro? Exemplos nos ajudam a entender melhor: se tenho direito a expressar minhas crenças, ninguém deveria me privar, ok? A resposta é sim e não – ao mesmo tempo e na mesma hora. Como assim? Vamos lá pensar mais um pouco nessa vastidão de contradições.

A liberdade de expressão concretiza a liberdade de pensamento. Só há pensamento livre se se pode expressar o que se pensa pois a liberdade de expressão garante o direito à informação e o direito à informação é fundamental para a liberdade de imprensa, ao mesmo tempo que sem uma imprensa livre e qualificada o direito à informação não é usufruído em sua plenitude.

Se eu não gosto de determinadas pessoas pois a forma como elas vivem está em desacordo com a minha cosmovisão, com a minha visão de mundo, enquanto eu penso, a sociedade em que vivo não tem nada a ver com isso, mas, quando expresso o que penso, quando apresento minhaparticipação inteligente no bloqueio a Cuba” (parafraseando o Caetano em sua clássica e contundente Haiti), essa fala pode gerar repercussões e entre estas pode estar a violação à dignidade de outros seres, a extinção mesmo da vida do que não é igual a mim.

De situações como essa surgem os conflitos de direitos, que expõem a dialética que está presente em todas as sociedades humanas, como mencionado no início do texto. Se responsabilizo alguém por injúria racial, valorizo o direito à dignidade, o direito de existir sendo quem se é. Ao mesmo tempo, violo a liberdade de expressão pois esta atinge, na situação exposta, o direito de outra pessoa ou grupo. Quando não se reprime ou pune quem expressa ideias que podem colocar em risco a vida de outras pessoas por incitarem, entre outros crimes, os crimes de ódio, é o direito à vida – e a dignidade – que está sendo violado, mas valoriza-se a expressão.

Essas situações devem ser lidas para além do bem e do mal no sentido de não ser a personificação do mal quem defende a livre expressão e nem quem defende a dignidade. São indivíduos que procuram (acreditemos) viver a partir dos parâmetros que definiram para si (a partir de ideologias que são historicamente elaboradas e por grupos específicos com interesses também muito específicos). Passa a ser de interesse coletivo o que afeta (obviamente, mas às vezes não se vê isso – ou não se quer ver) o coletivo de uma sociedade. Seguindo essa linha de raciocínio, o direito à moradia pode entrar em conflito com o direito à propriedade e o direito à vida pode entrar em conflito com o (pasme!) próprio direito à vida. Exemplo: quando há pessoas que, para garantir a própria vida, devem extinguir a vida de alguém ou de outras pessoas.

Esses conflitos proporcionam o aperfeiçoamento da vida em sociedade e, mais especificamente, a democracia pode ser aperfeiçoada. Negar-se a lidar com essas contradições é desvalorizar o próprio regime democrático, que é (ou deve ser) perfectível, transparente e conflituoso. Como podemos esperar aperfeiçoamento em um regime marcado pela negação do direito ao contraditório? Viver em regime democrático é aceitar a parte que cabe no latifúndio da cidadania, é saber que não se deve negar o próprio regime em prol de regimes mais “rígidos”, legal e moralmente (pelo menos na aparência).

Regimes autoritários (também chamados de ditaduras – há uma treta conceitual que não desenvolveremos nesse texto) não são aperfeiçoáveis, transparentes e não permitem o conflito de ideias, de pensamentos, de opiniões e a história da humanidade ocidental deixou vários exemplos disso.

A reivindicação por um regime ditatorial pode ser entendida como imaturidade social e desconhecimento de situações históricas importantes (inclusive no país). No primeiro aspecto, imaturidade diz respeito a dificuldade de lidar com as oposições. Seria algo parecido com o chamado “mimimi” de uma criança fazendo birra pois não querem brincar do jeito que ela acha melhor. Não se procura debater ideias, não são toleradas críticas e, geralmente, a violência (verbal e física) tende a ser aplicada como “argumento”. As redes sociais fornecem vários exemplos dessa atitude.

E A SITUAÇÃO DOS CAMINHONEIROS?

Não será tratada a origem do movimento que parou praticamente todo o país, mas alguns aspectos das repercussões desse movimento. A liberdade de locomoção foi restringida consideravelmente e o abastecimento de diversos gêneros está comprometido. É generalizada a notícia das dificuldades enfrentadas por trabalhadoras e trabalhadores para saírem de suas casas rumo ao trabalho e também na volta para casa. Poucos ônibus circulando e lotados de forma tal que parecem que vão estourar espalhando pessoas para todos lados. “Sempre cabe mais um” é comparável a uma lei da física só percebida e vivenciada por quem depende do serviço público de transporte. Situação cotidiana e intensificada no atual cenário com a paralisação dos caminhoneiros.
Aqui cabe uma análise, a partir de um dos conceitos de ideologia, da atitude das pessoas trabalhadoras que se enfiam contra todas as possibilidades físicas em um ônibus lotado. Sendo ideologia um conjunto de ideias que compõe as formas de sentir, de pensar, de agir de pessoas e grupos, o que fazemos de nossa vida, de nós mesmos, como nos relacionamos com o mundo e com outras pessoas, é uma elaboração coletiva, determinada historicamente, externa a nós e que naturaliza o que acontece fazendo parecer que sempre foi assim e não que é produto de necessidades e interesses que nada têm de divinizado ou mágico.

Há uma ideologia do trabalho historicamente construída e reafirmada cotidianamente. Essas ideias levam as pessoas a fazerem um esforço descomunal e se sujeitarem ao horror físico e psicológico de ir trabalhar em péssimas condições quando poderiam dizer: “eita, não dá para ir nessas condições de falta de transporte”. Entretanto, o que se escuta são frases tipo: “menino, eu tenho que ir pro trabalho mesmo assim!” “Tá doido, se eu não for quem vai fazer o trabalho hoje?”

Em muitas situações o próprio patrão não foi realizar suas atividades porque não tinha combustível para sair de casa mas exige da força de trabalho que, “aos trancos e barrancos dê seu jeito de ir pro serviço” A ideologia aqui atua com mais um adicional: a necessidade. A força de trabalho é composta por mais pessoas que atividades a serem desempenhadas (com alguma dignidade) então, o modo de produção se sustenta na necessidade de sobrevivência a tal ponto que o temor de perder o trabalho e sofrer com o desemprego sempre galopante, leva as pessoas a se sujeitarem. É um conjunto de fatores que convergem para a manutenção da ordem vigente.

Outro aspecto que se pode notar é a dificuldade de obter informações sobre o andamento da situação, salvo em canais alternativos de notícia, fora dos veículos da grande mídia. Aqui é importante fazer a ressalva de que gritar “o povo não é bobo, abaixo determinada rede de TV” não resolve e muito menos impacta de forma efetiva no monopólio que se tem no Brasil sobre a comunicação. Palavras sem ações efetivas que reivindiquem a regulação da mídia são, como na estrofe da canção popular, “espumas ao vento”. Além de clichê level hard quando se escreve em uma redação para o ENEM que aborde essa temática.

Quando se lê numa notícia que o país está refém de caminhoneiros, pode-se perceber uma característica da ideologia, a lacuna, que deixa um espaço incompleto no que está sendo dito e esse hiato contribui para a propagação de uma falácia de falsa causa, invertendo a relação e colocando como causa o que é, na verdade, consequência de algo que está escondido na lacuna do discurso apresentado.

Então, se chega ao ponto aparentemente mais espinhoso e polêmico: as faixas expostas reivindicando intervenção militar. Aqui é importante que se leia e procure entender o que está escrito para além dos sabores políticos. A experiência do pensamento deve ser problematizadora e não panfletária e menos ainda sem reflexões sobre o que se pensa e sobre a origem desses pensamentos.

Há um discurso generalizado de que a política nacional está corrompida “do cóccix até o pescoço” (para citar o álbum da cantora Elza Soares) e, pode-se afirmar a partir do que foi descrito acima, que parte considerável dessas ideias foi sedimentada em vários âmbitos da vida social tupiniquim. Família, educação, Estado, religião deram e dão sua contribuição fundamental para que essa ideologia se reproduza e mantenha. Adicione uma mídia que não foi regulamentada e a ausência de uma rede pública de TV e a negação da política como algo que pode e deve ser discutido vai ser parte do que se pensa e fala sobre o assunto.

Todos os dias essa cantilena repetida e a veiculação de denúncias (unilaterais em sua maior parte) de corrupção, contribuem para que se busque uma solução “rápida e prática” contra esse terrível mal. Há um coral uníssono de que se é contra a corrupção, que deve-se combatê-la, extirpá-la, tochas nas mãos, justiça! Justiça! Justiça! Pois bem, ser contra a corrupção é o que se espera moralmente de qualquer cidadã/o. Não quer dizer muita coisa, apenas que se é contra a corrupção. O nó todo pode ser desfeito (não há garantias) se ultrapassar a fronteira do discurso e passar a agir. Pode-se começar parando de vincular a corrupção a juízos apenas morais e abordar como geradora e reprodutora de desigualdades.

Política não é o âmbito do discurso apenas. Muito menos das ações moralmente baseadas em discursos polarizados tipo direita e esquerda, coxinha e petralha. A política é uma atividade humana sendo, por extensão, contraditória e conflituosa (como humanos e humanas somos). Conflitos existem e deve-se lidar com eles procurando aperfeiçoar o que dá resultados e transformando o que cause danos excessivos, uma vez que existem males que devem existir em prol de uma democracia.

Esse discurso idílico em busca de intervenção militar revela a busca por ordem diante de um aparente caos irresolvível. De acordo com os noticiários da grande mídia, parece que estamos em um equivalente hobbesiano de estado de natureza, em que a política é a terra de ninguém e só o mais forte (mais capaz de corromper, de dar o jeitinho – que é bem brasileiro) consegue sobreviver. É esse discurso e essa atitude que deve ser mudada.

A intervenção militar é a terra de cocanha, a terra sem males que muitas pessoas querem crer. Mas, revela muito mais o descompromisso com o próprio papel social que deveriam cumprir: o de cidadãs e cidadãos engajados e participativos, que usufruam de direitos e, PRINCIPALMENTE, CUMPRAM SEUS DEVERES. Reclame dos impostos e reivindique sua aplicação correta nos serviços públicos que temos direitos. Sonegar impostos é o caminho mais fácil de quem não quer se organizar e participar ativamente das mudanças sociais. Próximo da busca pela intervenção militar que, acredita-se, colocará ordem na casa sem que se precise se mexer, é só deixar os militares agirem.

Mais do que um conflito de direitos, a situação dos caminhoneiros joga na nossa cara que se não pararmos de polarizar a sociedade em bem X mal, certo X errado e assumirmos o que Betinho classificou como “cidadania ativa”, corremos o risco de ficarmos tão parados quanto os produtos nas rodovias do país.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

ESQUEMA MONSTRO - CULTURA DO ESTUPRO

O objetivo desta postagem é abordar conceitualmente o que seria cultura do estupro e é fundamental, para avançar na leitura, estar disponível para entender o conceito e pensar sobre ele.



Cultura do estupro pode ser conceituada como conjunto de pensamentos, hábitos, crenças, formas de agir que naturalizam e podem incentivar a prática do estupro. Isso se configura na vida cotidiana de várias maneiras que estão expostas no esquema. Essa cultura tem relação com a dominação masculina (olá, Bourdieu!) que naturaliza essas violências e mesmo valoriza comportamentos ambíguos que contribuem para que homens sintam-se incentivados a forçar o sexo: o popular “dizer não mas querendo dizer sim” é parte do que se ensina às mulheres e que as coloca em situação de perigo pois para os homens é como se fosse dito: “insista mais que você consegue!”

Esses elementos não são ensinados de maneira direta, mas através de canções, cenas de novela e cinema, piadas que naturalizam esse agir a partir de um pensar que objetifica o corpo feminino e o disponibiliza para o uso masculino mesmo contra a vontade das mulheres. Deve ser combatida e para tanto é preciso “estar atento e forte”.

#experimentepensar #penseforadacaixa

terça-feira, 22 de maio de 2018

MORADORES DE RUA, POBREZA E IDEOLOGIA


Historicamente, o processo de urbanização brasileiro, iniciado no século XX, se deu de forma excludente. Sob as bandeiras da modernidade e da civilização, esse processo determinou demolições em massa e políticas higienistas que se fizeram presentes físicamente, a partir da destruição de habitações populares e de cortiços nas áreas urbanas centrais, e socialmente, aumentando o número de pessoas em situação de rua. Às pessoas pobres e suas moradias, eram associadas poluição urbana e doenças como a febre amarela e a varíola, criando o discurso de que para melhorar as condições de higiene e saúde nas cidades, símbolos da modernidade e do desenvolvimento, era preciso retirar as camadas populares das áreas centrais urbanizadas, reservando para elas as periferias urbanas, lógica de organização espacial que perdura até os dias de hoje.  


Esse discurso ideológico – tomando a conceituação marxista de ideologia, ou seja, produção de ideias que mascaram a origem socialmente construída das relações sociais de exclusão e dominação – dessubjetiva e descaracteriza enquanto sujeitos de direitos os indíviduos que moram nas ruas, entendendo-os não mais como indivíduos que possuem nome, experiências de vida e visões de mundo particulares, mas dentro do estigma de “mendigos”. Essa descaracterização, não raramente, legitima o uso de diversas faces da violência contra essa parcela da população: desde a sua invisibilização perante a sociedade até a agressão física. Como pode ser percebida através da charge, essa forma de percepção acerca das pessoas em situação de rua dificulta inclusive o desenvolvimento de políticas que tratem o cerne desse problema social, sendo mais comum ações que procuram “esconder” o problema, tirando essas pessoas de vista.

Esse tipo de ação perpetua um senso comum que discrimina e culpabiliza o indivíduo por morar nas ruas, senso comum este que se estende e se projeta nas ações do Estado, que consistem ou na omissão, através de políticas sociais infímas e ineficientes, ou seja, através da invisibilização do problema nas estruturas do Poder Público, ou na repressão dessas pessoas quando elas se fazem presentes em determinadas áreas, removendo-as, muitas vezes de forma violenta, dessas áreas, em nítidas ações de higienização social. Nesse sentido, apesar de espaços como ruas, praças e shoppings serem, na teoria, espaços públicos, empreendimentos privados como restaurantes, lojas e condomínios se apropriam deles, impedindo a presença e a circulação de moradores de rua, fazendo com que funcionem, na prática, como espaços privados, destinados apenas a determinadas parcelas da sociedade.

Na sociedade contemporânea, a construção das representações sociais associa a noção de caráter à inclusão na lógica burguesa de organização do trabalho. Assim, a associação do morador de rua ao não-trabalho – evidenciada no clássico “vai trabalhar, vagabundo” dirigido a essas pessoas - remete à criminalização desse grupo social, inclusive com a legitimação para o uso da violência contra esse grupo. Partindo dessa perspectiva de análise, percebe-se que as cidades brasileiras se fizeram com a ostentação da seguinte mensagem: em cidades modernas não existe espaço para a pobreza.

Não tendo a pobreza magicamente desaparecido, recolheu-se às áreas periféricas, longe da vista dos centros econômicos. Assim, ao pensar sociologicamente sobre esse assunto, é fundamental ir além dos lugares-comuns repercurtidos sobre ele, compreendendo a origem histórica do tratamento a que foram submetidas pessoas que vivem nas ruas, assim como das formas coletivas de pensar e agir em relação a essa parcela da sociedade.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ESQUEMA MONSTRO - PLATÃO

Platão foi um dos pensadores mais importantes da História da Filosofia ocidental e a sua influência é debatida até os dias atuais, mais de dois mil anos após sua aparição. Para o ENEM, é importante ter em mente que ele foi um dos principais, se não o principal discípulo de Sócrates e o acompanhou até seus momentos finais.

Para Platão a existência estava dividida em dois mundos, o mundo das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias, também chamado de mundo inteligível, seria o mundo que só se conseguiria entender a partir da inteligência, ou seja, da razão e para tanto se deveria deixar de lado as impressões provenientes dos sentidos, do mundo sensível.

Politicamente defendeu que o melhor governo seria exercido por filósofos, sendo aos poetas negada a participação. Fundamentou parte de suas ideias em alegorias dentre as quais podemos destacar as alegorias do sol e da caverna.

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio e a persistência do racismo na sociedade brasileira

Há uma grande dificuldade (provavelmente da maior parte das pessoas) de pensar algumas questões no Brasil e uma delas é a persistência do racismo. Já se sabe que raças humanas não existem mas ainda se hierarquiza seres humanos a partir de sua aparência, de suas ideias e crenças (ou não crenças). O corpo humano é usado como referencial para definir quem é “mais humano”, quem é considerado mais capacitado, quem tem direito de viver e quem não tem. Pensando “nesta terra descoberta por Cabral” (para mencionar a música do Juca Chaves – se você não conhece, procure conhecer pois ele deu importante contribuição para a história da república brasileira), esses direitos todos estão praticamente garantidos em sua plenitude se, entre outros aspectos, a pessoa não tiver um teor elevado de melanina.

Talvez você tenha pensado: “pronto, começou o ‘mimimi”, a vitimização, vai escrever sobre o quanto é difícil ser afrodescendente (porque nem de negro mais se pode chamar), o quanto sofreu e sofre por ter a pele escura e o cabelo crespo!” CALMA, JOVEM! Eu escrevo e peço que não abandone esta leitura, ela provavelmente pode te ajudar a compreender inclusive essa reação que muitas pessoas têm quando se menciona essa palavrinha com “r”. Para tanto, vamos pensar a partir de conceitos sociológicos, afinal esta é uma página que objetiva divulgar a possibilidade de se pensar o mundo a partir de conceitos que muitas vezes não conhecemos mas que podem nos ajudar a nos entender e também ao mundo em que estamos inseridos e inseridas.

ALGUNS CONCEITOS

O termo raça diz respeito às qualidades que são atribuídas a indivíduos e grupos tendo como fundamento as características físicas, como, por exemplo, a cor da pele. Na história da humanidade sempre aconteceram essas distinções entre grupos sociais, mas o fundamento aparentemente científico só foi aplicado pelos fins do século XVIII e começo do século XIX. Essa aplicação pseudocientífica foi crucial para a dominação imperialista de nações como Grã-Bretanha, França e outras.

Racismo, conceitualmente, passa a ser a predominância das características físicas para compreensão das diferenças entre os indivíduos e grupos. Em termos práticos seria algo como afirmar que uma pessoa corre mais rápido ou tem dificuldades de aprendizado porque ela é negra ou branca. É atribuir ao que é físico algo que pode ser desenvolvido com investimentos, prática e disciplina. Um exemplo dessa perspectiva é quando se afirma que os quenianos se destacam em corridas porque “é do povo africano essa capacidade de correr”. Ou ainda: “parece uma coisa que faz com que negros se destaquem no futebol (Brasil) e no basquete (EUA).

Em ambas as situações, vale pensar se quenianos se destacam na corrida, pessoas negras se destacam no futebol e no basquete porque os seus corpos são “melhores preparados” para essas atividades ou se não temos aqui situações em que o custo para realizar tais atividades é bem menor do que estudar para ser físico nuclear, engenheiro espacial ou mesmo médica/o. Seria importante também ter em mente que, em muitas situações, usufruir de educação básica de qualidade já é uma grande possibilidade. Assim, não há nada de físico, biologicamente definido, geneticamente preparado que explique, sem controvérsias, o destaque de algumas pessoas, de alguns grupos em relação a outros.

Os grupos humanos são diferentes entre si porque indivíduos são diferentes entre si. O que se relaciona diretamente com o racismo é a desigualdade. A desigualdade é oriunda da atribuição de hierarquias ao que é diferente. Pensando em termos práticos: olhos azuis são diferentes de olhos castanhos e o juízo de fato pararia por aí se não fossem estabelecidas posições de inferioridade e superioridade: olhos azuis são mais bonitos do que olhos castanhos ou vice-versa. Agora pense nas peles humanas. Peles com mais melanina são diferentes de peles com menos melanina. Até aí, nenhum problema, nada de novo sob o sol.

Pessoas com peles escuras são inferiores em relação a pessoas com peles claras – estabelece-se, assim, a hierarquia. Pessoas de pele escura são inferiores e, por isso, não têm direito a usarem os mesmos banheiros que pessoas de pele clara e, como historicamente temos exemplos, devem ser reduzidas à condição de escravizadas para, assim, purgarem o pecado ancestral definido no livro sacralizado de uma religião ocidental originada no Oriente Médio.

Esse estabelecimento de um lugar social é o que pode ser conceituado como status. O lugar social de um indivíduo em uma sociedade pode ser atribuído ou pode ser adquirido. O primeiro caso é quando o indivíduo é colocado naquela posição, ele não escolheu estar ali ou mesmo se esforçou para isso. Exemplo simples: você é filho/a de seu pai, neto/a de seus avós, primo/a de seus primos e não escolheu nenhuma dessas pessoas para fazer parte de sua vida e nem elas a você. No momento de seu nascimento, a você foi atribuída essa posição e a essas pessoas também.
Ampliemos: quando você se depara com pessoas e acredita que essas pessoas podem representar um perigo para a sua segurança, você ATRIBUI um lugar social, você atribui um status a essa pessoa. O que te faz atribuir essa posição pode variar. Pode ser a roupa, a “cara” do indivíduo, o “jeito” (algo difícil de conceituar) mas, muitas vezes, essa “cara”, esse “jeito” tem a ver com a pele e a quantidade de melanina que ela carrega.

Um pouco mais: frases como “você não tem cara de médica”, “quem te vê nem diz que sabe tanto” ou, ainda, o conjunto de reações diante de pessoas que dirigem determinado modelo de carro ou moram em determinado bairro e são abordadas com alguma truculência ao som de perguntas como: “de quem é esse carro?”, “tá circulando por aqui pois tá querendo roubar?” são exemplos de status atribuídos aos indivíduos e que, nessas situações citadas, tem a ver com cor da pele.

Talvez você diga: mas acontece com qualquer pessoa, pessoas negras não são privilegiadas porque essas situações acontecem com pessoas pobres, mal vestidas independente da cor da pele. CORRETO. Mas considere que as chances de acontecer são maiores com pessoas negras porque há uma atribuição de lugar de inferioridade a pessoas afrodescendentes de maneira quase imediata.

E O RACISMO ÀS AVESSAS?

É comum encontrar e até se falar que sofreu de racismo por ser branco/a. Geralmente esse raciocínio vem acompanhado de seu primo, a heterofobia. Não será abordada aqui a questão da heterofobia, mas o desenvolvimento das ideias é análoga, pode ser usada como ponto de partida.

Comecemos por entender que o racismo na sociedade brasileira não é uma questão de pessoas racistas, mas sim de uma estrutura racista. Para entendermos melhor, vamos partir do conceito de estrutura social, que diz respeito à forma como uma sociedade se organiza por meio de relações complexas e com alguma continuidade no tempo e espaço. A estrutura social brasileira está assentada historicamente na atribuição de posições de inferioridade não só a pessoas negras mas também às expressões culturais, religiosas afrodescendentes.

Exemplo: se alguém afirma ser membro de candomblé, umbanda ou participar de qualquer manifestação de religiosidade de matriz africana, a chance de se ouvir um “vixi” é muito grande. Quando uma pessoa negra não raspa o cabelo ou, no caso feminino, não alisa para conseguir o penteado mais parecido com a da mocinha da novela (que geralmente é de pele clara) pode-se ouvir comentários do tipo: “que revolta é essa?”, “por que você não alisa o cabelo pra ficar bonita?”. Lembra do que foi escrito acima sobre status atribuído? Pronto, não se atribui beleza à aparência de pessoas negras ou legitimidade, direito de existir às expressões religiosas de matriz africana.

Isso quer dizer que há uma situação de inferioridade ao que se relaciona à população negra, é a estrutura da sociedade que é racista e que está baseada em ideias que compõem as formas coletivas de pensar, de sentir e de agir. No mercado de trabalho, muitas vezes, um/a candidato/a não é aceito/a em vaga disputada porque é negra a sua pele, ainda que não seja explicitada essa razão. Pense nas vezes em que você julgou alguém incapaz de fazer alguma coisa. Essa pessoa era negra? Se sim, questione-se a razão dessa atribuição de lugar de inferioridade.

Não há, conceitualmente, racismo contra pessoas brancas porque o mundo ocidental não inferioriza pessoas porque elas têm a pele clara. Há pouquíssimas piadas de pessoas brancas, os cabelos crespos são colocados como fantasias para o carnaval enquanto os cabelos lisos têm grande valor de venda. São esses elementos cotidianos que definem o racismo como estrutural e não como caso isolado, de alguém que discrimina e ofende. A discriminação e a ofensa são parte da formação da identidade nacional. Mas, você pode afirmar que existe racismo contra brancos/as, entretanto, sociologicamente, o conceito não dá conta da realidade social.


Como se pode combater esse mal? Uma possibilidade é a ação conjunta entre educação e legalidade. Educando as pessoas para a diversidade e punindo os crimes motivados por questões “raciais”. Mas a primeira atitude contra esse racismo estrutural que compõe a sociedade brasileira deve ser aceitar o/a racista que há em cada um/a de nós e quando alguém nos acusar de racismo, antes de respondermos com “eu não sou racista”, “como posso ser racista se tenho amigos negros, se namorei pessoas negras?”, pergunte: Por que você está me dizendo que sou racista? Dê oportunidade a si mesmo/a de descobrir a ignorância que há em si e que, na maior parte das vezes, não queremos reconhecer que existe.

sábado, 5 de maio de 2018

Música sobre o Brasil: do ufanismo ao nada presta


A forma como pensamos o mundo é ideológica. Como estamos no mundo, por extensão, também somos ideologicamente formadas e formados e isso quer dizer que estamos, inevitavelmente, atreladas e atrelados a um conjunto de ideias. Esse conjunto de ideias é o que chamamos de ideologia – conjunto de ideias que compõe as formas coletivas de agir, de pensar e mesmo de sentir. Talvez você pense: eu não! Penso com minha própria cabeça e nenhuma ideologia me diz o que fazer!


Bem, essa é uma das formas (e são muitas) através das quais as ideologias atuam: nos fazem pensar que nossas ideias vieram somente de nossa capacidade de pensar, o que é questionável principalmente do ponto de vista filosófico, sociológico. O conhecimento histórico nos ajuda a confirmar essa perspectiva. Não tem como viver em sociedade e não ter vínculo ou sofrer influências de ideias externas a nós, pois, desde o nascimento, o processo de socialização atua nesse sentido. A Mafalda que o diga.


Pense nas ideias que você tem (pausa no texto para você pensar) ……………………………………………………………………………………………………. você acredita que elas vieram do nada? Que você sempre as teve? Pense em algo como “política não se discute”. Faça aquele esforço de memória para lembrar o momento mais antigo, a memória mais remota que você tem sobre alguma situação em que essa frase foi repetida. Talvez sua memória te leve para aquelas reuniões de final de semana, com a família inteira e alguma tia sua dizendo que “política não é pra se discutir! É feito religião e futebol: NÃO SE DISCUTE!!!”


Pronto! Se uma reminiscência parecida com essa veio à tona, então eu te questiono, pessoa que agora lê: tem certeza que ninguém te diz o que pensar e mesmo fazer e até o que sentir? Pausa dramática para o “eita, é mesmo!”.


Pois bem, agora que entramos em consenso sobre a possível origem das nossas ideias, vamos pensar sobre os pensamentos sobre o nosso país. Mas, antes de tal empreitada, é importante que você tenha em mente que toda produção humana é ideológica, tem relação com ideias e ideias tem a ver com os valores que atribuímos ao mundo ao nosso redor e também a nós. Como é notável, há uma grande interrelação entre os vários âmbitos da vida em sociedade. Perceber essas interrelações é ter imaginação sociológica.

Isso quer dizer que não há neutralidade ideológica no que fazemos. No sentido que sempre existirá relação entre o que pensamos e o que fazemos. Poderíamos, para simplificar, afirmar, há ideologias em tudo.

Pensar o país em que vivemos implica identificar alguns aspectos de senso comum para justificar as mazelas que sofremos no mundo atual: “tudo começou no período colonial, pois as primeiras pessoas a chegarem aqui eram degenerados, bandidos, prostitutas. Com essa composição, o Brasil só poderia ter dado errado”. Essa fala compõe o repertório de muitos professores e professoras de História (e de outras áreas do conhecimento) que durante o ano letivo afirmam reiteradas vezes esse juízo de valor.

É um grande desserviço ao conhecimento histórico e também à possibilidade de desenvolvimento de senso crítico por parte de estudantes, uma vez que a fala docente tem uma autoridade muito grande sobre as turmas. Professor/a falou, verdade verdadeira é. A abordagem mais adequada seria problematizar inclusive essas ideias, porque, como lemos, ideias têm uma história e fazer a genealogia dessa ideia de Brasil como terra de mazelas permitiria desenvolver a capacidade de emitir juízos menos apaixonados e mais problematizadores.

Outro ponto de vista comum sobre o Brasil é de que somos um país “gigante pela sua própria natureza”, um país “abençoado por deus”. Patriotismo exagerado que pode descambar em ufanismo e ser justificativa para governos de exceção, ditatoriais. Como pode-se notar, são extremos que negam a historicidade (ou possibilidade dela). Parece que sempre existiu esse país, sempre existiram essas mazelas ou mesmo essas belezas atribuídas.

Por meio de educação indireta, aquela que não acontece na escola, mas fora dela e em vários locais como grupos religiosos, ambientes de trabalho, parques, conversas na fila para pagar contas etc, essas ideias são emitidas e repassadas adiante, de maneira aparentemente inofensiva. Nesse processo de aprendizado indireto, as músicas são protagonistas fundamentais, pois cantarolamos o último sucesso sem, muitas vezes, prestar atenção ao que está sendo dito.

Comecemos com um clássico: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, por muitas pessoas, considerado o hino do país.



Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado
Tira a Mãe Preta,do serrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver Essa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim


Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim


Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim



Analisando a letra da composição, identificamos elementos que até hoje compõe o imaginário positivo e otimista do Brasil: a mistura, a miscigenação estão presentes como algo para se orgulhar. A alegria e o samba pedem passagem também, juntamente com a sensualidade afrodescendente e a esperteza de quem acredita que deve sempre tirar vantagem quando for possível e que compõe, hoje a ideia de jeitinho brasileiro.

Outra canção nessa mesma linha, gerou desentendimentos na época de seu lançamento, País tropical, de Jorge Ben, constrói e reproduz a ideia de que “deus é brasileiro”, por sermos abençoados pois não sofremos com terremotos e outros problemas ambientais. Afirma também a sensualidade da mulher negra, a Teresa); posteriormente Seu Jorge e, mais recentemente, Ivete Sangalo fizeram suas versões, também com muito sucesso.

País Tropical
Wilson Simonal

Moro num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza
(Mas que beleza)
Em fevereiro
(Em fevereiro), tem carnaval
(Tem carnaval,)
Tenho um fusca e um violão
Sou Flamengo e tenho uma nega chamada teresa 
Sambaby, sambaby,

Sou um menino de mentalidade mediana(pois é)
Mas assim mesmo, feliz da vida
Pois eu não devo nada a ninguem 
(pois é)pois eu sou feliz,muito feliz comigo mesmo
Sambaby,sambaby
Eu posso não ser um bandleador (pois é)
Mas assim mesmo la em casa, todos meus amigos

Meus camaradas, me respeitam (pois é)
Essa é a razao da simpatia do poder,
Do algo mais é da alegria .
Mó,num pá tropi,
Abençóa por Dé
E boni por naturé (mas que belé)
Em feveré (em feveré)
Tem carná (tem carná)
Eu tenho um fu e um vio,
Sou flamé,tê uma nê chamá Terê
Sou flamé,tê uma nê chamá Terê.



Saindo de um extremo e indo para outro, temos a visão pessimista e aparentemente crítica da história do Brasil. A crítica é aparente pois envereda para a postura de reclamar afirmando que não há nada positivo no país. Uma canção de muito sucesso é a seguinte:

Meu país
Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil Brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo



É feita uma descrição quase cirúrgica de mazelas que atingem quase toda a população brasileira. Fome, miséria, políticos corruptos, hospitais em frangalhos, escolas precárias, analfabetismo, racismo e, diante de tudo isso, o eu lírico apenas fica calado, observando - a vida descrita na arte ou a arte copiando a realidade?

A canção seguinte traz a mesma perspectiva de crítica de mazelas sociais, mas é feito um clamor para que seja desmascarado o país e que este confie no eu lírico da canção, num pedido que se apoia na lealdade, na ideia de que não será o Brasil traído.



BRASIL
Cazuza/George Israel/Nilo Roméro

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)


O que há em comum nestas quatro canções é o posicionamento binário da realidade, que é mais complexa do que uma divisão entre as percepções de um país “abençoado” ou “degenerado” e sem solução. Em ambos os posicionamentos existem ideologias que mascaram a complexidade do real. Não há, também, certos ou errados mas sim o entendimento de que bem ou mal não existem em estado puro na história de qualquer sociedade. É importante superar essa dicotomia e aceitar o desafio de propor possibilidades que dialoguem entre si, aceitando uma das características fundamentais da democracia: o conflito.