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ARTIGOS

segunda-feira, 8 de abril de 2013

HOMOFOBIA E USOS EQUIVOCADOS DO SABER HISTÓRICO

Considerando a recente onda de manifestações de rua e feicebuquianas sobre as declarações do deputado pastor Marco Feliciano e sua manutenção na Comissão de Direitos Humanos  e o que tenho ouvido e visto em minha prática docente, decidi contribuir para o debate esclarecendo alguns pontos que dizem respeito ao conhecimento histórico que está sendo utilizado em certas postagens e discursos por aí.

A intenção não é defender ou acusar este ou aquele grupo, mas esclarecer alguns elementos muito repetidos e que por estarem ligados ao conhecimento histórico merecem um melhor tratamento. Vamos lá:

1. “A política nazista fez uma campanha de aceitação forçada para o povo”. Ao utilizarem este argumento procuram defender que determinados partidos políticos estão forçando a população a aceitar a homossexualidade.

CORREÇÃO: O que Hitler fez não foi obra de um poder hipnótico macabro ou de uma máquina de controlar mentes. Ele foi o catalisador e agregador de um sentimento antissemita que grassava pela Europa ocidental desde o medievo. Com a crise econômica de 1929 e a descrença no liberalismo após a Primeira Guerra Mundial e sob a ameaça de crescimento do socialismo soviético, muitos apoiaram a ideia de um Estado centralizador (negação da não-intervenção estatal do liberalismo clássico) e garantidor da propriedade privada (negação do socialismo e sua defesa da destruição da propriedade privada burguesa). Não há, por parte do partido que está no poder, uma campanha de imposição de práticas homoafetivas, mas sim a defesa delas poderem se expressar e garantir direitos jurídicos que lhes são negados ainda que sobre esses grupos recaiam as mesmas obrigações da dita “normalidade”.

2. “A história da sociedade ocidental é a história do homem e da mulher”. Busca-se afirmar que a história da humanidade foi feita apenas pelos homens e pelas mulheres, não tendo participação quem estava fora da heterossexualidade monogâmica.

CORREÇÃO: A história da sociedade ocidental é a história do que foi registrado por homens que afirmavam e defendiam o modelo heterossexual, logo, registros de qualquer ação fora desse modelo mal existem e quando existem, a maior parte, foi feito com o olhar do padrão estabelecido. O silêncio, em história, diz muito sobre as práticas sociais de outros tempos e espaços. Segue-se assim o exemplo cotidiano de não falar sobre algo, sobre um problema, seja qual for, crendo que ele deixará de existir. Citando o poeta Brecht:

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

O silêncio sobre os cozinheiros no exército de César é prova de que eles não existiram ou não participaram da conquista? Não. Manter essa afirmação é incorrer em um erro histórico grave.

3. “Os nazistas faziam campanha nas escolas para doutrinarem as crianças garantindo adeptos para as suas ideias e o Estado brasileiro quer ‘formar gays desde criancinha’ ao distribuir kits abordando a temática em escolas”.

CORREÇÃO: O Estado nazista implementava uma educação que buscava formar cidadãos preparados para obedecer ao Fuehrer e as escolas valorizavam mais a ação do que a reflexão. Incentivava-se, também, a negação do Outro, daquilo que não era alemão, a denominada “raça ariana”. Uma observação mais cuidadosa dos chamados “kits gays” garantirá o entendimento que o objetivo é combater atos de violência verbal, física, simbólica contra as crianças e adolescentes que não se enquadram no SUPOSTO comportamento correto. A afirmação que se quer fazer a juventude crescer homossexual é fruto de desconhecimento do conteúdo do kit. O Estado nazista não intentava formar pensadores e sim executores de ordens. O objetivo do kit é possibilitar, desde a tenra idade, a percepção de que o mundo não é meu umbigo ou minha forma de pensar e, PRINCIPALMENTE, DEIXAR VIVER AQUELA/AQUELE QUE NÃO É MEU REFLEXO NO ESPELHO.

ALGUNS ESCLARECIMENTOS:

O PLC – 122 (Projeto de Lei da Câmara) muito mencionado e pouco lido e refletido, deve ser entendido de maneira mais ampla, histórica e sociológica. A elaboração de lei é fruto de um contexto histórico ligado a necessidades específicas, seja de uma pessoa, seja de uma coletividade. Vale ressaltar que a maior parte das leis liga-se a necessidade de grupos que, ou estão no comando ou pressionando quem está.

O PLC – 122 foi elaborado com o objetivo de ampliar a lei 7716/89. Esta lei criminaliza racismo, discriminação por PRECONCEITO RELIGIOSO e XENOFOBIA. Atente para o fato de que a lei 7716/89 não é uma lei contra o racismo, como se afirma muito por aí e que nela está inserida a criminalização por PRECONCEITO RELIGIOSO, logo, não se estava garantindo direitos para uma minoria em detrimento da maioria, como anda sendo afirmado.

Esse mesmo PLC – 122 abarca que a reação contrária, de homossexuais discriminando heterossexuais também seja crime.

Deve-se considerar que o PLC – 122 não vai tornar crime o pensamento preconceituoso. O que vai ser criminalizada é a discriminação. Exemplo: posso pensar comigo que não gosto de duas mulheres se beijando no cinema, mas se as expulso do cinema pois são duas MULHERES se beijando, então configura-se a discriminação. A discriminação seria tornar ato aquilo que eu penso. Enquanto penso, é preconceito, quando impeço alguém de usufruir de direito porque vai de encontro ao que penso, estou discriminando.

Outro exemplo: se um sacerdote religioso adverte duas mulheres que se beijam no pátio de seu templo porque é considerado desrespeitoso QUALQUER BEIJO ENTRE CASAIS, então não há crime de homofobia. Contudo, se o casal que se beija é advertido pois SÃO DUAS MULHERES/HOMENS E NÃO SE ACEITA A DEMONSTRAÇÃO DE CARINHO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO, ENTÃO CONFIGURA-SE HOMOFOBIA.

O que presenciamos hoje é uma mudança importante que a sociedade marcada pela heterossexualidade monogâmica está passando. Assim como olhamos para os registros de mulheres sendo queimadas sob acusação de bruxaria na idade média europeia ocidental com perplexidade perante tamanha brutalidade, as gerações posteriores poderão olhar para os registros desses momentos e perguntar: como puderam ser tão intolerantes?

Pense fora da caixa.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA


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