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ARTIGOS

terça-feira, 20 de novembro de 2012

NEGR@S: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE NÓS QUE QUEREMOS QUE SEJAM LEMBRADAS TODOS OS DIAS


20 DE NOVEMBRO, dia da consciência negra. Eventos por todo o país lembram a morte do líder do quilombo dos Palmares, Zumbi. Por séculos essa data sequer foi lembrada e somente após muita reivindicação dos grupos afrodescendentes é que foi estabelecida oficialmente. 

Costuma-se realizar shows com artistas consagrados, são feitas manifestações em praças, a imprensa noticia e muita gente felicita negros e negras por essa data. Considero importante e tão importante é que vale a pena lembrar alguns pontos:

1. NÃO SOMOS DESCENDENTES DE ESCRAVOS: somos descendentes de africanos que foram  escravizados. Escravo não é espécie, não existem escravos machos e escravas fêmeas que acasalaram e originaram escravinhos, nascidos biologicamente determinados a “servir” outras pessoas; ESCRAVO É CONDIÇÃO IMPOSTA E NÃO ESPÉCIE;

2. MEU CABELO NÃO É RUIM: não matou ninguém, não bateu em crianças, não torturou. É MEU CABELO, É BOM PARA MIM. O SEU CABELO É SEU E POR ISSO É BOM PARA VOCÊ. Afirmar que meu cabelo, diferente do seu, é ruim, é manter o discurso histórico de valorização do padrão estético europeu. Esse discurso negou e nega a afirmação de beleza e identidade afro-brasileira. Como compôs Chico César: RESPEITEM MEUS CABELOS, BRANCOS;

3. NÃO SOU UM SAMBISTA DE NASCENÇA: nem dançarino natural, nem corredor de maratona e muito menos jogador de futebol desde o interior do útero de minha mãe. Se há destaques afro-brasileiros nessas áreas isso merece uma observação: há falta de investimentos noutras áreas, o que limita participação “ao que está mais perto” da realidade dos que se destacaram na música, na corrida, no futebol. Estenda escolas de qualidade para a população negra, possibilite acesso ao conhecimento científico e forme cientistas e assim sucessivamente em outras vertentes do saber e do fazer humanos;

4. ERRAR É HUMANO: quando erro, o fiz por não saber e não porque sou negro; frases como “viu o que ele fez? Também, só podia ser negro”, são carregadas de visão estereotipada, arrogante e depreciadora; quando se afirma dessa maneira, pode-se entender que quando um negro erra, é porque ele é naturalmente é um “errador”. Quando acertamos não se diz “acertou pois é negro”. Entendeu o caminho do discurso que legitima preconceitos,   estereótipos?

5. POSSO ME VESTIR DO JEITO QUE EU QUISER: se uso roupas coloridas, sem cor, saias curtas, blusas decotadas é porque EU QUERO USAR. Afirmar: “ela/ele se veste desse jeito porque é negr@” recai no que foi escrito acima; colorida ou sem cor, é roupa. NÃO EXISTE ROUPA DE NEGRO E NEM ROUPA DE BRANCO; É TUDO ROUPA. Posso usar roupas que meus ancestrais usaram, posso usar roupas que estadunidenses vendem – ainda que pouco propícias ao clima do local que vivo; o faço pois vivo em sociedade e não porque sou negr@;

6. NÃO SOU PRECONCEITUOSO COMIGO MESMO OU RACISTA COM OUTRAS PESSOAS NEGRAS: se há negr@s que fazem comentários racistas, o fazem como fruto da sociedade que foi gerada durante séculos de escravidão e que construiu a negação do ser negr@ associando muita coisa ruim a palavra NEGRO (abra o dicionário nesta e tire suas conclusões), logo, é mais difícil querer ser identificado com coisas ruins, não é?

7. USAR UMA CAMISA COM O TEXTO 100% NEGRO, NÃO É RACISMO: acompanhe o raciocínio: afirmar-se 100 % negr@ é posicionar-se tendo como objetivo tornar positivo algo que foi secularmente taxado de negativo. É mais possível uma pessoa negr@ não ter conseguido emprego, ter sido a única revistada por policiais em um coletivo porque era negra do que porque era branca. Esse mesmo raciocínio pode ser estendido para mulheres e homossexuais.

8. EXU NÃO É O DIABO, OXALÁ NÃO É JESUS: o Mal não foi criado pelos africanos com suas diversas religiões, até porque, se você desligar o botão do preconceito e do medo, implantado em sua mente pela tradição judaico-cristã, conhecerá religiões com características bastante humanitárias. Acreditar no que sacerdotes, que afirmam terem participado dessas religiões, falam, sem procurar saber, é se privar de algo que, segundo a tradição judaico-cristão, nos diferencia de outros animais: o livre-arbítrio. Há charlatões em todos grupos religiosos, então não fale da sujeira da casa alheia se a sua tem lixo no quintal;

9. MEU PÊNIS NÃO É GIGANTESCO E NEM MINHA VAGINA É MAIS QUENTE PORQUE SOU NEGR@: tradicionalmente se afirmou que homens negros/afrodescendentes são mais “bem dotados” que os outros. Ainda que supostas pesquisas científicas afirmem que a média dos homens negros tenha o órgão sexual maior que os homens brancos, existem homens brancos (e não devem ser poucos) com pênis grandes também.
                Muitas mulheres não negras transam tão bem quanto mulheres negras; esse discurso é tão introjetado que quando homens conversam sobre alguma mulher com quem estão saindo ou simplesmente vai passando na rua, dizem: “tô saindo com uma ‘nega’ boa danada”, ou “olha ali, que ‘nega’ gostosa”, e usam para se referir a mulheres brancas. Talvez você agora pense que é exagero. Não é exagero, não. As visões preconceituosas foram tão repetidas que se naturalizaram e não percebemos o sentido implícito  do que falamos e/ou pensamos;

Concluindo: NÃO SOU DESCENDENTE DE ESCRAVO; MEU CABELO NÃO É RUIM; NÃO TENHO QUE SABER SAMBAR, DANÇAR, JOGAR FUTEBOL OU SER EXÍMIO CORREDOR; USO ROUPAS COLORIDAS - OU NÃO - PORQUE EU QUERO; ERRO PORQUE SOU HUMANO E TODOS HUMANOS PODEM ERRAR; NÃO SOU UM HOMEM TRIPÉ OU MULHER COM VAGINA FLAMEJANTE... SOU HUMANO COMO VOCÊ, QUE LÊ ESTE TEXTO, E TENHO DIREITO AO RESPEITO E A RECLAMAR QUANDO SOU MALTRATADO.

Consciência negra não é só para negr@s. É consciência para tod@s que são excluíd@s nessa sociedade e que sendo negr@s padecem mais cruelmente ao som do ainda vivo discurso da democracia racial.

Mais do que falar sobre o que acontece temos que agir para mudar e essa mudança pode começar parando de contar piadas sobre negr@s, sorrir quando alguém conta e nos posicionarmos contra qualquer ato discriminatório, contra qualquer pessoa, independente da aparência, sexualidade, poder aquisitivo, origem, credo religioso ou ateísmo. Aí sim, serão desnecessários dias da Consciência Negra, das Mulheres, dos Índios...

PENSE FORA DA CAIXA

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA

Reações:

3 comentários:

  1. Porque que afirmar a cor, quando cor não deve possuir valor? Porque não inventar pra humanidade: Dia da consciencia pesada? ou Dia da consciencia humama?

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  2. Textos assim só firmam o preconceito, não existem negros ou brancos, existem humanos, afirmar características por conta de cor de pele é diferenciar, e completamente desnecessário.

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  3. A diferença é natural mas a desigualdade é social, historicamente construída e culturalmente legitimada. As afirmativas do texto buscam negar o que é naturalizado como características inerentes à população afrodescendente.

    E sim, existem negros e brancos e as características dessas etnias são importantes e devem ser igualmente valorizadas como humanas que são, o que na prática pouco acontece.

    A sociedade, na qual vivemos, estabelece padrões estéticos, culturais hegemonicamente europeizados ou americanizados (referindo-se aos EUA). Observar ao redor vai ajudar muito: as modelos com cabelos lisos, as propagandas de margarinas com famílias , em sua maioria, brancas, as telenovelas que mais retratam uma parcela que não é majoritária da população brasileira.

    Vou copiar a conclusão do texto: NÃO SOU DESCENDENTE DE ESCRAVO; MEU CABELO NÃO É RUIM; NÃO TENHO QUE SABER SAMBAR, DANÇAR, JOGAR FUTEBOL OU SER EXÍMIO CORREDOR; USO ROUPAS COLORIDAS - OU NÃO - PORQUE EU QUERO; ERRO PORQUE SOU HUMANO E TODOS HUMANOS PODEM ERRAR; NÃO SOU UM HOMEM TRIPÉ OU MULHER COM VAGINA FLAMEJANTE... SOU HUMANO COMO VOCÊ, QUE LÊ ESTE TEXTO, E TENHO DIREITO AO RESPEITO E A RECLAMAR QUANDO SOU MALTRATADO.

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