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ARTIGOS

quarta-feira, 11 de julho de 2018

ESQUEMA MONSTRO - FALÁCIAS INFORMAIS

Já ouviu algo durante uma discussão com alguém e sentiu que tinha alguma coisa errada ali mas não conseguia identificar? Talvez você esteve diante de uma falácia. Falácias são formas de argumentos que parecem válidas mas, uma vez analisada com mais atenção, pode-se perceber que o que está sendo dito não é, de fato, um bom argumento.

As falácias que você vê no Esquema Monstro são algumas de tipo informal, podem ser caracterizadas pelo uso de “maus” argumentos, que impedem ou dificultam uma percepção efetiva das contradições e mesmo dos erros expostos durante uma apresentação de ideias.

Pode ser muito divertido – e angustiante – observar o mundo ao nosso redor (e nós mesmas) e identificar como usam e como usamos argumentos que não se sustentariam se fossem feitas problematizações. Falácias estão muito presentes em propagandas e discursos políticos, logo, entender como funcionam é fundamental para a autonomia de pensamento.

terça-feira, 10 de julho de 2018

SOBRE A DECEPÇÃO E O QUE A FILOSOFIA PODE NOS DIZER


“Se eu ganhasse um real por cada decepção, ficaria decepcionado em Paris”

“se decepção ensina, já tenho faculdade”

“muita confiança gera decepção”

Se você se identificou com alguma frase dessa, se você já as disse ou compartilhou vários memes da decepção, continue a ler esse texto e não será decepcionado com o que a filosofia pode fazer por você – se você permitir, certo? Então, vamos lá.

Decepcionar-se é sentir-se enganado/a por alguém em quem se confia ou confiou sem reservas. É ser exposta/o a algo sobre alguém que não se esperava que tal pessoa fizesse (ou não fizesse). Em seguida começa a autoflagelação verbal e psíquica seguida do amaldiçoamento do mundo que, obviamente, está totalmente contra você, pessoa boa, boazinha, um anjo angelical (redundante de propósito) que “nunca fez mal a qualquer ser vivo”.

Pois bem, essa atitude pode ter outros nomes: chororô, mimimi, fragilidade emocional ou (inspirando-se na telenovela clássica Chiquititas) coração com buraquinhos – agora começa na sua mente o refrão: “tenho um coração com buraquinhos/e não posso me curar”…

Mas antes que você sinta-se decepcionado/a com esse texto, invoco a autoridade polifônica para me salvaguardar de sua fúria (e decepção): Sêneca, pensador romano, desenvolveu algumas ideias sobre a frustração que nos toma quando não temos nossas expectativas atendidas. Segundo ele, essa sensação de trouxa (termo moderno) que nos invade é oriunda de nossa idealização sobre as pessoas, sobre o mundo que nos cerca e sobre nós e o que acreditamos que somos.

Funciona assim: pensamos que tal ou qual pessoa é aquilo que ela nos expõe ou aquela característica que mais nos atrai e essa atração pode ter relação com o que nos falta ou com o que gostaríamos de ser ou ter em termos de atitude. Buscamos uma espécie de complementação, a tampa da panela, o sapato para o pé podre, a corda para nossa caçamba entre vários termos populares para fazer referência à suposta “alma gêmea” (toca Fábio Jr. agora...)

É aí que está a grande armadilha que armamos para nós: não somos sempre aquela atitude que apresentamos para o mundo, essa atitude é apenas mais uma das nossas máscaras sociais. Não quer dizer que somos marcadas/os pela falsidade, quer dizer apenas que dependendo da situação agiremos de determinadas maneiras, que somos mutáveis, que atendemos às necessidades de sobrevivência de cada situação.

Sim, sobrevivência, porque cada lugar social que ocupamos é marcado por comportamentos que temos que repetir se quisermos continuar sendo aceitas/os nesses lugares. Para além de certo e errado, devemos entender o que ocorre e como acontece.

Assim, se queremos continuar sendo vistas/os como legais, gente boa, mente aberta e outras classificações sociais e cotidianas, buscamos repetir as tais atitudes aprovadas pelas pessoas, pelos grupos, pela sociedade. Assim é que semeia-se a expectativa que germinará na grande decepção - ou decepções, afinal, para se decepcionar basta estar viva/o e convivendo com outras pessoas.

Como as pessoas não conseguimos manter o tempo inteiro a mesma atitude em todas as situações e todos os lugares e com todas as pessoas e com as mesmas pessoas que convivemos, em algum momento a “casa vai cair”, opa, quer dizer, a “máscara”. A suposta queda da máscara vai revelar o que se tentou esconder, pelo menos daquela pessoa (ou pessoas), daquele contexto, enfim. A decepção, então, é fruto de uma rede de expectativas criadas e reproduzidas em escala social, planetária, universal – exagero, mas o exagero ajuda a pensar o que é exagerado.

Pense direitinho: a pessoa te decepcionou ou você esperou demais dela? A pessoa foi mal caráter ou você criou expectativas que não foram supridas por alguém que NÃO TINHA OBRIGAÇÃO ALGUMA COM O QUE VOCÊ GOSTARIA QUE ELA FOSSE OU GOSTARIA QUE ELA FIZESSE?

Está em caps lock para demarcar mesmo, para que possamos pensar na grande rede de expectativas irreais sobre o que não podemos controlar e sobre quem não tem obrigações com o que sentimos. Antes que você pense: então devo agir da maneira que bem entender, não considerar os sentimentos das outras pessoas porque “não são problemas meus, não posso ser culpado/a porque as pessoas acreditam em mim ou me amam?”

Sim, se agir da maneira que bem entender for, antes de tudo, responder aos questionamentos: o que falo está de acordo com o que sinto? O que faço é coerente com o que penso ou com o que quero realmente fazer? Eu gostaria que as outras pessoas no mundo agissem – todas elas – da maneira com a qual agirei? Nesse ponto é crucial a sinceridade consigo pois, muitas vezes, responderemos que sim porque queremos apenas satisfazer nossos desejos.

Para Sêneca, lidar com o sentimento de frustração e fúria que seguem a uma decepção diz respeito a esperar das pessoas apenas o que elas podem, de verdade, nos oferecer. Como saber o que as pessoas podem nos oferecer de verdade? Resposta angustiante: não tem como saber com total certeza. A solução é o que modernamente se chama “manter as expectativas baixas”, “esperar o básico e não o especial com adicionais de fábrica”.

Esperar o humano mas, o que o humano é além de um poço sem fundo de contradições, uma cacimba de paradoxos, uma estrada de conflitos renitentes? Não prestamos muita atenção (na verdade não prestamos nenhuma atenção) nas pessoas de mais idade quando elas nos alertam sobre os perigos da falta de cautela, da crença desprovida de questionamentos, da cegueira inconsciente (?) sobre os “defeitos” das pessoas que amamos (ou acreditamos amar).

Isso não quer dizer não devemos viver a vida com todas as suas possibilidades, quer dizer que devemos aprender com as decepções pois elas são inevitáveis, principalmente quando começamos a caminhar com nossas próprias pernas e a pensar a partir de nossos próprios juízos. Algo que as decepções podem nos ensinar é que só se decepciona quem cria expectativas sobre algo que não pode controlar e entre o que não controlamos estão os pensamentos, os sentimentos, as decisões e as ações das outras pessoas.

Marisa Monte nos presenteou com uma canção que pode ser escutada e lida a partir dessa aceitação do que as pessoas podem nos oferecer:




DEPOIS


Depois de sonhar tantos anos
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também
Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois





Então, as decepções compõem as expectativas generalizadas que são construídas socialmente a partir de papeis sociais que muitas vezes não percebemos que estamos cumprindo. Essas expectativas são irreais, muitas vezes inalcançáveis e uma forma de quebrar esse ciclo vicioso é aceitar que todas/os somos humanas/os em primeiro lugar. Pai, mãe, avó, avô, filha, filho, amigo, amiga, primo, prima etc são papeis sociais nos quais estão atreladas as posições sociais e as expectativas relacionadas com elas.

É simples, mas não é fácil porque o lugar do martírio, do sofrimento causado sempre pelas outras pessoas (malvadas, malvadas, malvadas) é mais cômodo e valorizado. A decepção é irmã do sofrimento por amor, afinal, amar não é sofrer? NÃÃÃÃÃÃÃÃO É NÃÃÃÃÃÃÃO! Mas esse é assunto para Nietzsche em outra postagem.

sábado, 9 de junho de 2018

SOBRE O ENVELHECIMENTO


A canção Envelhecer, de Arnaldo Antunes, entre suas estrofes afirma que

a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer
(...)

Otimismo é uma das características presentes em toda a composição do ex-titã. Ainda que muito válida essa perspectiva, o envelhecimento traz algumas transformações físicas e psíquicas que alteram a qualidade de vida e, por extensão, deveriam receber mais atenção por parte de todo mundo. Essa atenção, porém, deve ultrapassar alguns lugares muito comuns quando trata-se desse assunto. É preciso superar a ideia de “melhor idade”, de “vovô e vovó queridinha” que só vive em função dos netos e netas.

O extremo oposto também deve ser superado: a ideia de que velhinhas e velhinhos são a personificação do mal na terra – principalmente as mulheres idosas, geralmente postas no imaginário como sendo as bruxas que servem ao diabo e, para tanto, enganam, oferecem poções mágicas, enfeitiçam e toda uma ampla gama de artíficios para atingir seus intentos.

Um dos primeiros aspectos a ser considerado é que o envelhecimento é uma uma questão de saúde pública, o que quer dizer que é de interesses coletivo porque tem relação com e afeta vários âmbitos da vida social e, por isso, deve ter atenção do Estado pois idosas e idosos estão em situação de vulnerabilidade, que pode ser definida como a situação em que indivíduos ou grupos têm sua capacidade de autodeterminação reduzida apresentando dificuldades em se autoproteger devido a exiguidade de poder, de cognição, educação, recursos diversos (não apenas materiais), força ou outros aspectos.

Deve ser considerado que a situação de vulnerabilidade não está atrelada apenas aos mais velhos e mais velhas, mas qualquer indivíduo que esteja na situação descrita, o que impede a possibilidade de incorrer em outro estereótipo que é o de velhinhas e velhinhos como sendo o único grupo que pode estar vulnerável.

Retornando ao caso de idosas e idosos, a situação de vulnerabilidade pode ser relacionada a alguns aspectos. Dentre os primeiros está a crescente dificuldade em realizar as atividades mais prosaicas, mais cotidianas. Essa queda gradativa da autodeterminação torna as pessoas idosas mais dependentes de outras, o que faz aparecer um outro problema: quem vai cuidar dessas pessoas? Há alguns anos essa pergunta tinha uma resposta mais simples: alguma das filhas ou a filha que ainda não tivesse casado (a popular solteirona).

Adicione às questões de autodeterminação, um conjunto de situações que contribuem para a incapacitação crônica, como osteoartrite, osteoporose, hipertensão, diabetes mellitus, depressão, entre outras. Quando se trata de envelhecimento, essas situações podem ser classificadas como inevitáveis (ou quase), tornando fundamentais as perspectivas do cuidado e, mais especificamente, do cuidado preventivo.

Mesmo o envelhecimento sendo comum a todas e todos, a população feminina é mais atingida pela situação de vulnerabilidade, uma vez que, além de sofrer pelas incapacitações, ainda sofre com discriminação, violência, trabalho doméstico, dificuldades educacionais e profissionais. Amplifica-se a deterioração tanto física quanto emocional, que passa a ser acompanhada por fragilidades também existenciais, que vão da autoestima passando pela dependência em relações abusivas (muitas vezes familiares) e chegando, em muitas situações, ao abandono propriamente dito e também ao suicídio, antecedido por estados de depressão.

É importante ter em mente que entre as mulheres, o grupo das mulheres negras são atingidas de maneira mais incisiva pelas situações descritas acima, sendo tal condição atrelada ao racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira.

Desses males físicos e psíquicos passamos para as questões propriamente sociais, ligadas à cidadania e ao usufruto de direitos.

DIREITOS E CIDADANIA

Considerando que direitos são garantias jurídicas que devem possibilitar a sobrevivência, para a pessoa idosa esse usufruto é precário para além da medida. A chamada população jovem e em idade produtiva já não usufrui dessas garantias da maneira que deveria e, a partir daí pense como deve ser dificil para uma pessoa idosa se locomover pelas ruas com calçadas altas ou com muitos buracos, pegar uma condução como são os ônibus e metrôs da maior parte das cidades do país são uma experiência física excruciante para as pessoas idosas e que traz muitos sofrimentos. A liberdade de locomoção é restrita e essa restrição vem acompanhada de um processo de invisibilização social, que nega direitos aos que cumpriram com deveres durante toda uma vida.

É importante ter em mente que o trabalho a que nos dedicamos define nossas identidades pessoais e mesmo sociais. Em conversas, quando nos apresentamos, o fazemos a partir de nossos trabalhos: “sou fulana, médica”, “eu sou beltrana, engenheira”. Essa identidade é fundamental na formação e manutenção da autoestima e, quando chega o momento da aposentadoria, do afastamento das atividades as quais uma pessoa se dedicou durante décadas, é como se fosse retirada dela o direito de “ser quem ela é”.

Há um número grande de pesquisas que comprovam que após a aposentadoria muitas pessoas adoecem, entram em estados depressivos e cometem suicídios motivados pelo afastamento de suas atividades. Entretanto, o afastamento das atividades por aposentadoria seria uma espécie de “mal menor”, se levarmos em consideração que mesmo afastadas essas pessoas teriam uma renda – mesmo que não atendendo bem todas as suas necessidades.

A situação torna-se mais problemática quando ocorre a demissão: mesmo com experiência de sobra na atividade a qual se dedicou por muito tempo, a pessoa – agora idosa – não encontra espaço para continuar trabalhando, seja porque houve uma modernização daquela atividade para além do que a pessoa consegue acompanhar, seja porque o mercado de trabalho busca pessoas mais jovens para desempenhar aquela função, principalmente se estiver ligada ao trato com o público. Há vários casos de professores, por exemplo, que foram demitidos, entre outras razões, porque não eram bonitos e jovens.

Há, porém, uma atenção que pode ser classificada como perversa: aquela que tem como interesse a aposentadoria dessas pessoas. Aqui se faz referência aos inúmeros serviços de empréstimos consignados para aposentados e pensionistas. Ramo do mercado que se desenvolveu a partir da percepção de um nicho rentável e com garantias de recebimento, várias são as estratégias para garantir a “realização do sonho e do conforto da ‘boa idade’”. Ligações intermitentes, mensagens de celular, abordagens nas ruas, nas filas de banco quando vão receber seus valores mensais, os mecanismos são quase infinitos.

Uma outra atenção (perversa) reveladora da violação de direitos da pessoa idosa diz respeito à saúde: a rede pública não atende da maneira que deveria e a iniciativa particular chega a ser abusiva ao fornecer planos de saúde a preços elevadíssimos e que trazem, em seu funcionamento, muitas dificuldades para garantir o cuidado e a atenção necessários para a manutenção da vida desses indivíduos. Uma das provas que o abuso ocorre em escalas elevadas é a necessidade da criação de um estatuto do idoso que, para além das questões de serviços públicos de saúde, visa proteger de uma estrutura social que negligencia e violenta o que não é jovem e belo dentro dos padrões socialmente estabelecidos e reproduzidos.

TRABALHO REPRODUTIVO

Aqui se faz necessária a reflexão sobre o trabalho reprodutivo, que é, conceitualmente, o trabalho que assegura a continuidade da vida, ou seja, é uma atividade ligada ao cuidado, sendo o cuidado entendido como as práticas relacionadas ao vestuário, alimentação e higiene. O trabalho reprodutivo foi historicamente atribuído às mulheres mas passou por algumas mudanças, ou melhor, impactos a partir do aumento das reivindicações feministas e, a partir destas, pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho.

Quando o cuidado passa a ser profissão (trabalho reprodutivo), a gratuidade do trabalho doméstico e o fato de ser exclusividade feminina é diretamente atingido, o que leva a outras mudanças que não são o objetivo deste texto.

As pessoas idosas, historicamente, não eram alvo de interesse de mercado, o que passou a mudar e a geriatria passou a ser uma área em franco desenvolvimento no Brasil (com atraso quando se compara com outros países do mundo), o que pode ser identificado no crescimento de agências que oferecem os serviços profissionais de cuidado, o que pode ser visto como algo positivo mas que apresenta o problema do custo/investimento que se deve fazer e que a maior parte da população não tem condições.

Aqui pode ser inserido o papel do Estado no que se refere ao direito à saúde e a uma vida com dignidade: a efetivação de um projeto que prepare a saúde pública para atender a essas demandas que tendem a ficar ainda maiores e não devem ser deixadas aos cuidados livres de regulação de empresas particulares.

Assim, ao pensarmos o envelhecimento, que é inevitável, devemos pensá-lo para além dos estereótipos mencionados no início do texto e abordá-lo pela perspectiva de políticas públicas que agreguem Estado e sociedade civil, ou seja, o envelhecimento é uma questão social importante pois afeta diretamente a produtividade, a prestação de serviços, a saúde pública e, o que deveria ser mais importante, a qualidade da vida humana.

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domingo, 3 de junho de 2018

O corpo e a espetacularização da existência na sociedade do capital


A peça “Esperando Godot” que faz parte do movimento artístico cultural conhecido como Teatro do Absurdo, do dramaturgo Samuel Beckett, apresenta uma abordagem da condição humana que pode ser comparada metaforicamente com a busca constante da adequação ao padrão de beleza socialmente colocado como ideal. Na obra, os dois personagens protagonistas esperam diariamente pela chegada de Godot, que é sempre anunciada para o dia seguinte. A chegada de Godot nunca se concretiza, chegando-se a duvidar da sua existência, mas, mesmo assim, todos continuam esperando por ele. Ironiza-se, dessa forma, a esperança de uma suposta “salvação” que, adiada eternamente, nunca chega.

Assim funciona a busca pelo atual padrão de beleza: a indústria cultural relaciona beleza à felicidade e transforma o padrão do que se entende como belo em mercadoria passível de ser consumida através da aquisição de mercadorias que prometem sempre a concretização desse padrão. Esse padrão, no entanto, nunca pode ser atingido, pois a insatisfação emocional crônica gerada por essa busca é estimulada de forma contínua através dos mecanismos mercadológicos que fabricam a ideia do consumo como necessidade. Sendo o consumo permanente um mecanismo fundamental para atender a necessidade mais básica do capitalismo, ou seja, a acumulação de capital através do lucro, a beleza esperada nunca chega, tornando o indivíduo um consumidor modelo.

Ao perceber essa questão sociologicamente, o corpo passa a ser um veículo para a representação das diversas formas de sociabilidade, refletindo, portanto, a cultura e os valores nos quais a vida social se insere. O corpo é, portanto, a materialização da relação que o indíviduo constrói com a sociedade na qual ele está inserido, na medida em que assume uma dimensão para além dos aspectos biológicos que o formam, passando a ser uma construção social. Como construção social, a formação da consciência acerca do corpo, assim como as formas coletivas de pensar e sentir sobre ele, são históricas, porque mudam no tempo e no espaço.

Considerando o contexto atual das sociedades ocidentais industrializadas, existe uma relação profunda entre a produção cultural e a formação das subjetividades que, potencializada pelo capitalismo avançado, transforma a representação da imagem do corpo em uma mercadoria, que como todas as outras mercadorias, deve ser vendida. Essa relação se dá a partir das redes sociais, uma vez que a veiculação de imagens assumiu para o Capitalismo uma importância tal que determinou a redução das relações humanas, inclusive a própria expressão das identidades, à imagem que é veiculada pelas mídias.

Uma vez que o corpo-imagem é a forma mais evidente de expressão das identidades, ele também passa a ser entendido dentro da lógica mercantil de consumo de aparências. Assim, junto ao conceito de “Indústria Cultural”, a caracterização da “Sociedade do Espetáculo” feita por Guy Debord evidencia a estruturação das relações humanas a partir da imagem espetacularizada em que a publicidade leva ao extremo a fetichização das mercadorias disponíveis para serem consumidas, o corpo sendo uma delas.

A construção da sociedade capitalista como Sociedade do Espetáculo se dá, então, para Debord, pela produção cotidiana de espetáculos aliados com a estrutura produtiva capitalista. Entendido, pois, nessa perspectiva, o espetáculo formulado por Debord funciona como um mecanismo do sistema para garantir a acumulação de capital, de forma condizente com o processo histórico concreto de consolidação do Capitalismo e da sociedade burguesa.

No entanto, avaliando essa questão para além do que Debord pôde prever a partir de seu contexto histórico, a midiatização, mediada pelas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter, etc -  da sociedade atingiu uma complexidade tal que o corpo não apenas assimila a realidade espetacularizada e consome os produtos estéticos, mas se tranforma ele mesmo na própria mercadoria, desenvolvendo-se agora a ideia do corpo-mercadoria no lugar do corpo-imagem.

Com efeito, procura-se “vender” uma autoimagem considerada ideal pela sociedade, através da espetacularização de um corpo que remeta ao que o capital entende como sucesso, o que implica a adequação do corpo a essa ideia, tornando-o mais “comercializável”, como qualquer outra mercadoria. É nesse sentido que se dá a padronização dos corpos considerados belos, haja vista que não se veicula, ou veicula-se muito pouco, a imagem de pessoas fora do padrão de corpo considerado comercializável ocupando posições sociais que, na sociedade capitalista, estão relacionadas ao sucesso, como posições de liderança e postos profissionais de destaque.

Como consequência, constrói-se uma esteriotipação que desconsidera as subjetividades de quem foge ao padrão e, a partir daí, molda os corpos dos indivíduos. Exemplo da espetacularização dessas representações sociais padronizadas do corpo e que tem relações com a política, é a matéria da revista Veja, como se observa na imagem, na qual se constata a construção de um discurso que impõe um padrão não apenas estético, mas também comportamental e político, sobre o corpo feminino.



O que a espetacularização faz é chamar atenção de forma exuberante sobre aquilo que o mercado quer que seja consumido, para tanto, passa  o verniz da beleza, do prestígio e do status, criando uma relação de culto a imagem que é sustentada pelo caráter teatral dos produtos midiáticos. É o que se observa com os perfis fit e de blogueiras no Instagram, que expõem de forma glamourizada e idealizada – ou seja, espetacularizada – ações banais, como refeições e exercícios físicos. A importância está no performático: naquilo que vale mais “likes”, mais seguidores, mais “matches”.

Essa questão é representada pela série distópica Black Mirror, no episódio “Nosedive”, em que as interações sociais e a exibição fetichizada das experiências cotidianas fazem parte de um sistema de avaliação instantânea que gera uma nota para cada pessoa, baseada no número de curtidas e interações virtuais que ela possui, que determinam o prestígio social e até mesmo o acesso a serviços e a determinados espaços físicos. Apesar de a série ser uma representação da realidade, ao refletir sobre os recursos de avaliação que atribuem notas aos indivíduos nos aplicativos de uso cotidiano como o uber e o AirBnB, assim como nossos esforços constantes para conseguir um bom desempenho neles, percebe-se que a realidade proposta pela série não está tão distante da realidade de fato.

Na sociedade pós-moderna o corpo assume o valor simbólico de uma mercadoria fetichizada, espetacularizado e facebooquializado, exposto para ser consumido. E no Império da existência como produto para ser exibido e consumido, o poder espetacular aparece como um desdobramento da expansão comercial inerente ao Capitalismo, disseminando em todas as esferas da vida social as condições para garantir a manutenção da sociedade burguesa. Ao direcionar o olhar sociológico para essa temática, é possível a desconstrução desses padrões culturalmente construídos atráves da desnaturalização da ideia de beleza, na medida em que se entende o processo social que possibilita a sua existência.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM









domingo, 27 de maio de 2018

GREVE, PARALISAÇÃO, CONFLITO DE DIREITOS, INTERVENÇÃO MILITAR E O QUE ISSO PODE NOS FAZER PENSAR SOBRE A DEMOCRACIA NO BRASIL



A vida em sociedade é marcada por conflitos. Sendo que esses conflitos são, muitas vezes, vistos como algo a ser combatido, que a vida social deveria ser de paz e tranquilidade. Essa perspectiva é muito válida mas não condiz com um dos aspectos que caracteriza a história da humanidade e, em alguma medida, a própria existência no planeta: a dialética. Vamos por partes, tal qual fatiador de queijo em tempos de escassez.

Dialética diz respeito a conflito, a conflito de opostos e que levam a mudanças, sendo qualitativas, quantitativas e uma mescla das duas. Isso pode ser entendido de maneira simples: as coisas mudam! Para que mudem, reações em cadeia devem acontecer. Algumas pessoas serão afetadas e acharão boas as transformações, outras, se entenderão (e serão mesmo) prejudicadas e outras tantas mal serão ou nem serão atingidas. Contradições inerentes aos acontecimentos e que estão presentes no mais trivial dos atos até a mais grandiosa movimentação.

Então, para continuar nessa leitura, devemos entender que a vida social é mutável e ainda podemos concordar com o pensador Augusto Comte, aquele fundador da Sociologia (a física social), quando ele afirma que a sociedade é estática e dinâmica ao mesmo tempo. A sociedade, por essa abordagem, tem aspectos, instituições que não mudam ou mudam pouco. Família, educação, religião são exemplos de instituições dinâmicas e estáticas: arranjos familiares, formas de educação, religiões existem em várias sociedades e ao longo dos tempos, mas com diferenças relacionadas aos contextos que são analisados, que são pesquisados e as épocas em que se vivia.

CIDADANIA, DIREITOS E O CONFLITO QUE TEMOS E PRECISAMOS TER

Uma definição de cidadania que utilizaremos aqui é: possibilidade de viver no usufruto de direitos. Cidadã é a pessoa que usufrui de direitos, o que nos leva para outra questão: o que são direitos? Pois bem, essa pergunta é de múltipla resposta. Se você questionar pessoas sobre o que são direitos, elas, provavelmente, te dirão exemplos de direitos mas não uma definição do que seja um direito. Essa dificuldade é comum e expõe a importância de pensar através de conceitos, sendo estes como enquadramentos da realidade que nos cerca e da qual fazemos parte.

Sem mais delongas, direitos podem ser definidos como garantias jurídicas para a sobrevivência de indivíduos e grupos em sociedade. Direitos garantidos não quer dizer que direitos são usufruídos em sua plenitude. Quer dizer que há garantias em vários aspectos para que se possa viver com outras pessoas e apesar delas. Garantias para que as pessoas humanas possam desenvolver suas potencialidades, realizando tudo o que podem realizar, tornando-se tudo o que conseguirem se tornar.

Aí se insere o que foi mencionado acima: o conflito! A realização de potencialidades carrega em si a possibilidade do conflito de interesses e de necessidades, o que traz a tona a decisão que deve ser tomada: qual o direito deve ser violado em nome de outro? Exemplos nos ajudam a entender melhor: se tenho direito a expressar minhas crenças, ninguém deveria me privar, ok? A resposta é sim e não – ao mesmo tempo e na mesma hora. Como assim? Vamos lá pensar mais um pouco nessa vastidão de contradições.

A liberdade de expressão concretiza a liberdade de pensamento. Só há pensamento livre se se pode expressar o que se pensa pois a liberdade de expressão garante o direito à informação e o direito à informação é fundamental para a liberdade de imprensa, ao mesmo tempo que sem uma imprensa livre e qualificada o direito à informação não é usufruído em sua plenitude.

Se eu não gosto de determinadas pessoas pois a forma como elas vivem está em desacordo com a minha cosmovisão, com a minha visão de mundo, enquanto eu penso, a sociedade em que vivo não tem nada a ver com isso, mas, quando expresso o que penso, quando apresento minhaparticipação inteligente no bloqueio a Cuba” (parafraseando o Caetano em sua clássica e contundente Haiti), essa fala pode gerar repercussões e entre estas pode estar a violação à dignidade de outros seres, a extinção mesmo da vida do que não é igual a mim.

De situações como essa surgem os conflitos de direitos, que expõem a dialética que está presente em todas as sociedades humanas, como mencionado no início do texto. Se responsabilizo alguém por injúria racial, valorizo o direito à dignidade, o direito de existir sendo quem se é. Ao mesmo tempo, violo a liberdade de expressão pois esta atinge, na situação exposta, o direito de outra pessoa ou grupo. Quando não se reprime ou pune quem expressa ideias que podem colocar em risco a vida de outras pessoas por incitarem, entre outros crimes, os crimes de ódio, é o direito à vida – e a dignidade – que está sendo violado, mas valoriza-se a expressão.

Essas situações devem ser lidas para além do bem e do mal no sentido de não ser a personificação do mal quem defende a livre expressão e nem quem defende a dignidade. São indivíduos que procuram (acreditemos) viver a partir dos parâmetros que definiram para si (a partir de ideologias que são historicamente elaboradas e por grupos específicos com interesses também muito específicos). Passa a ser de interesse coletivo o que afeta (obviamente, mas às vezes não se vê isso – ou não se quer ver) o coletivo de uma sociedade. Seguindo essa linha de raciocínio, o direito à moradia pode entrar em conflito com o direito à propriedade e o direito à vida pode entrar em conflito com o (pasme!) próprio direito à vida. Exemplo: quando há pessoas que, para garantir a própria vida, devem extinguir a vida de alguém ou de outras pessoas.

Esses conflitos proporcionam o aperfeiçoamento da vida em sociedade e, mais especificamente, a democracia pode ser aperfeiçoada. Negar-se a lidar com essas contradições é desvalorizar o próprio regime democrático, que é (ou deve ser) perfectível, transparente e conflituoso. Como podemos esperar aperfeiçoamento em um regime marcado pela negação do direito ao contraditório? Viver em regime democrático é aceitar a parte que cabe no latifúndio da cidadania, é saber que não se deve negar o próprio regime em prol de regimes mais “rígidos”, legal e moralmente (pelo menos na aparência).

Regimes autoritários (também chamados de ditaduras – há uma treta conceitual que não desenvolveremos nesse texto) não são aperfeiçoáveis, transparentes e não permitem o conflito de ideias, de pensamentos, de opiniões e a história da humanidade ocidental deixou vários exemplos disso.

A reivindicação por um regime ditatorial pode ser entendida como imaturidade social e desconhecimento de situações históricas importantes (inclusive no país). No primeiro aspecto, imaturidade diz respeito a dificuldade de lidar com as oposições. Seria algo parecido com o chamado “mimimi” de uma criança fazendo birra pois não querem brincar do jeito que ela acha melhor. Não se procura debater ideias, não são toleradas críticas e, geralmente, a violência (verbal e física) tende a ser aplicada como “argumento”. As redes sociais fornecem vários exemplos dessa atitude.

E A SITUAÇÃO DOS CAMINHONEIROS?

Não será tratada a origem do movimento que parou praticamente todo o país, mas alguns aspectos das repercussões desse movimento. A liberdade de locomoção foi restringida consideravelmente e o abastecimento de diversos gêneros está comprometido. É generalizada a notícia das dificuldades enfrentadas por trabalhadoras e trabalhadores para saírem de suas casas rumo ao trabalho e também na volta para casa. Poucos ônibus circulando e lotados de forma tal que parecem que vão estourar espalhando pessoas para todos lados. “Sempre cabe mais um” é comparável a uma lei da física só percebida e vivenciada por quem depende do serviço público de transporte. Situação cotidiana e intensificada no atual cenário com a paralisação dos caminhoneiros.
Aqui cabe uma análise, a partir de um dos conceitos de ideologia, da atitude das pessoas trabalhadoras que se enfiam contra todas as possibilidades físicas em um ônibus lotado. Sendo ideologia um conjunto de ideias que compõe as formas de sentir, de pensar, de agir de pessoas e grupos, o que fazemos de nossa vida, de nós mesmos, como nos relacionamos com o mundo e com outras pessoas, é uma elaboração coletiva, determinada historicamente, externa a nós e que naturaliza o que acontece fazendo parecer que sempre foi assim e não que é produto de necessidades e interesses que nada têm de divinizado ou mágico.

Há uma ideologia do trabalho historicamente construída e reafirmada cotidianamente. Essas ideias levam as pessoas a fazerem um esforço descomunal e se sujeitarem ao horror físico e psicológico de ir trabalhar em péssimas condições quando poderiam dizer: “eita, não dá para ir nessas condições de falta de transporte”. Entretanto, o que se escuta são frases tipo: “menino, eu tenho que ir pro trabalho mesmo assim!” “Tá doido, se eu não for quem vai fazer o trabalho hoje?”

Em muitas situações o próprio patrão não foi realizar suas atividades porque não tinha combustível para sair de casa mas exige da força de trabalho que, “aos trancos e barrancos dê seu jeito de ir pro serviço” A ideologia aqui atua com mais um adicional: a necessidade. A força de trabalho é composta por mais pessoas que atividades a serem desempenhadas (com alguma dignidade) então, o modo de produção se sustenta na necessidade de sobrevivência a tal ponto que o temor de perder o trabalho e sofrer com o desemprego sempre galopante, leva as pessoas a se sujeitarem. É um conjunto de fatores que convergem para a manutenção da ordem vigente.

Outro aspecto que se pode notar é a dificuldade de obter informações sobre o andamento da situação, salvo em canais alternativos de notícia, fora dos veículos da grande mídia. Aqui é importante fazer a ressalva de que gritar “o povo não é bobo, abaixo determinada rede de TV” não resolve e muito menos impacta de forma efetiva no monopólio que se tem no Brasil sobre a comunicação. Palavras sem ações efetivas que reivindiquem a regulação da mídia são, como na estrofe da canção popular, “espumas ao vento”. Além de clichê level hard quando se escreve em uma redação para o ENEM que aborde essa temática.

Quando se lê numa notícia que o país está refém de caminhoneiros, pode-se perceber uma característica da ideologia, a lacuna, que deixa um espaço incompleto no que está sendo dito e esse hiato contribui para a propagação de uma falácia de falsa causa, invertendo a relação e colocando como causa o que é, na verdade, consequência de algo que está escondido na lacuna do discurso apresentado.

Então, se chega ao ponto aparentemente mais espinhoso e polêmico: as faixas expostas reivindicando intervenção militar. Aqui é importante que se leia e procure entender o que está escrito para além dos sabores políticos. A experiência do pensamento deve ser problematizadora e não panfletária e menos ainda sem reflexões sobre o que se pensa e sobre a origem desses pensamentos.

Há um discurso generalizado de que a política nacional está corrompida “do cóccix até o pescoço” (para citar o álbum da cantora Elza Soares) e, pode-se afirmar a partir do que foi descrito acima, que parte considerável dessas ideias foi sedimentada em vários âmbitos da vida social tupiniquim. Família, educação, Estado, religião deram e dão sua contribuição fundamental para que essa ideologia se reproduza e mantenha. Adicione uma mídia que não foi regulamentada e a ausência de uma rede pública de TV e a negação da política como algo que pode e deve ser discutido vai ser parte do que se pensa e fala sobre o assunto.

Todos os dias essa cantilena repetida e a veiculação de denúncias (unilaterais em sua maior parte) de corrupção, contribuem para que se busque uma solução “rápida e prática” contra esse terrível mal. Há um coral uníssono de que se é contra a corrupção, que deve-se combatê-la, extirpá-la, tochas nas mãos, justiça! Justiça! Justiça! Pois bem, ser contra a corrupção é o que se espera moralmente de qualquer cidadã/o. Não quer dizer muita coisa, apenas que se é contra a corrupção. O nó todo pode ser desfeito (não há garantias) se ultrapassar a fronteira do discurso e passar a agir. Pode-se começar parando de vincular a corrupção a juízos apenas morais e abordar como geradora e reprodutora de desigualdades.

Política não é o âmbito do discurso apenas. Muito menos das ações moralmente baseadas em discursos polarizados tipo direita e esquerda, coxinha e petralha. A política é uma atividade humana sendo, por extensão, contraditória e conflituosa (como humanos e humanas somos). Conflitos existem e deve-se lidar com eles procurando aperfeiçoar o que dá resultados e transformando o que cause danos excessivos, uma vez que existem males que devem existir em prol de uma democracia.

Esse discurso idílico em busca de intervenção militar revela a busca por ordem diante de um aparente caos irresolvível. De acordo com os noticiários da grande mídia, parece que estamos em um equivalente hobbesiano de estado de natureza, em que a política é a terra de ninguém e só o mais forte (mais capaz de corromper, de dar o jeitinho – que é bem brasileiro) consegue sobreviver. É esse discurso e essa atitude que deve ser mudada.

A intervenção militar é a terra de cocanha, a terra sem males que muitas pessoas querem crer. Mas, revela muito mais o descompromisso com o próprio papel social que deveriam cumprir: o de cidadãs e cidadãos engajados e participativos, que usufruam de direitos e, PRINCIPALMENTE, CUMPRAM SEUS DEVERES. Reclame dos impostos e reivindique sua aplicação correta nos serviços públicos que temos direitos. Sonegar impostos é o caminho mais fácil de quem não quer se organizar e participar ativamente das mudanças sociais. Próximo da busca pela intervenção militar que, acredita-se, colocará ordem na casa sem que se precise se mexer, é só deixar os militares agirem.

Mais do que um conflito de direitos, a situação dos caminhoneiros joga na nossa cara que se não pararmos de polarizar a sociedade em bem X mal, certo X errado e assumirmos o que Betinho classificou como “cidadania ativa”, corremos o risco de ficarmos tão parados quanto os produtos nas rodovias do país.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

ESQUEMA MONSTRO - CULTURA DO ESTUPRO

O objetivo desta postagem é abordar conceitualmente o que seria cultura do estupro e é fundamental, para avançar na leitura, estar disponível para entender o conceito e pensar sobre ele.



Cultura do estupro pode ser conceituada como conjunto de pensamentos, hábitos, crenças, formas de agir que naturalizam e podem incentivar a prática do estupro. Isso se configura na vida cotidiana de várias maneiras que estão expostas no esquema. Essa cultura tem relação com a dominação masculina (olá, Bourdieu!) que naturaliza essas violências e mesmo valoriza comportamentos ambíguos que contribuem para que homens sintam-se incentivados a forçar o sexo: o popular “dizer não mas querendo dizer sim” é parte do que se ensina às mulheres e que as coloca em situação de perigo pois para os homens é como se fosse dito: “insista mais que você consegue!”

Esses elementos não são ensinados de maneira direta, mas através de canções, cenas de novela e cinema, piadas que naturalizam esse agir a partir de um pensar que objetifica o corpo feminino e o disponibiliza para o uso masculino mesmo contra a vontade das mulheres. Deve ser combatida e para tanto é preciso “estar atento e forte”.

#experimentepensar #penseforadacaixa

terça-feira, 22 de maio de 2018

MORADORES DE RUA, POBREZA E IDEOLOGIA


Historicamente, o processo de urbanização brasileiro, iniciado no século XX, se deu de forma excludente. Sob as bandeiras da modernidade e da civilização, esse processo determinou demolições em massa e políticas higienistas que se fizeram presentes físicamente, a partir da destruição de habitações populares e de cortiços nas áreas urbanas centrais, e socialmente, aumentando o número de pessoas em situação de rua. Às pessoas pobres e suas moradias, eram associadas poluição urbana e doenças como a febre amarela e a varíola, criando o discurso de que para melhorar as condições de higiene e saúde nas cidades, símbolos da modernidade e do desenvolvimento, era preciso retirar as camadas populares das áreas centrais urbanizadas, reservando para elas as periferias urbanas, lógica de organização espacial que perdura até os dias de hoje.  


Esse discurso ideológico – tomando a conceituação marxista de ideologia, ou seja, produção de ideias que mascaram a origem socialmente construída das relações sociais de exclusão e dominação – dessubjetiva e descaracteriza enquanto sujeitos de direitos os indíviduos que moram nas ruas, entendendo-os não mais como indivíduos que possuem nome, experiências de vida e visões de mundo particulares, mas dentro do estigma de “mendigos”. Essa descaracterização, não raramente, legitima o uso de diversas faces da violência contra essa parcela da população: desde a sua invisibilização perante a sociedade até a agressão física. Como pode ser percebida através da charge, essa forma de percepção acerca das pessoas em situação de rua dificulta inclusive o desenvolvimento de políticas que tratem o cerne desse problema social, sendo mais comum ações que procuram “esconder” o problema, tirando essas pessoas de vista.

Esse tipo de ação perpetua um senso comum que discrimina e culpabiliza o indivíduo por morar nas ruas, senso comum este que se estende e se projeta nas ações do Estado, que consistem ou na omissão, através de políticas sociais infímas e ineficientes, ou seja, através da invisibilização do problema nas estruturas do Poder Público, ou na repressão dessas pessoas quando elas se fazem presentes em determinadas áreas, removendo-as, muitas vezes de forma violenta, dessas áreas, em nítidas ações de higienização social. Nesse sentido, apesar de espaços como ruas, praças e shoppings serem, na teoria, espaços públicos, empreendimentos privados como restaurantes, lojas e condomínios se apropriam deles, impedindo a presença e a circulação de moradores de rua, fazendo com que funcionem, na prática, como espaços privados, destinados apenas a determinadas parcelas da sociedade.

Na sociedade contemporânea, a construção das representações sociais associa a noção de caráter à inclusão na lógica burguesa de organização do trabalho. Assim, a associação do morador de rua ao não-trabalho – evidenciada no clássico “vai trabalhar, vagabundo” dirigido a essas pessoas - remete à criminalização desse grupo social, inclusive com a legitimação para o uso da violência contra esse grupo. Partindo dessa perspectiva de análise, percebe-se que as cidades brasileiras se fizeram com a ostentação da seguinte mensagem: em cidades modernas não existe espaço para a pobreza.

Não tendo a pobreza magicamente desaparecido, recolheu-se às áreas periféricas, longe da vista dos centros econômicos. Assim, ao pensar sociologicamente sobre esse assunto, é fundamental ir além dos lugares-comuns repercurtidos sobre ele, compreendendo a origem histórica do tratamento a que foram submetidas pessoas que vivem nas ruas, assim como das formas coletivas de pensar e agir em relação a essa parcela da sociedade.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ESQUEMA MONSTRO - PLATÃO

Platão foi um dos pensadores mais importantes da História da Filosofia ocidental e a sua influência é debatida até os dias atuais, mais de dois mil anos após sua aparição. Para o ENEM, é importante ter em mente que ele foi um dos principais, se não o principal discípulo de Sócrates e o acompanhou até seus momentos finais.

Para Platão a existência estava dividida em dois mundos, o mundo das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias, também chamado de mundo inteligível, seria o mundo que só se conseguiria entender a partir da inteligência, ou seja, da razão e para tanto se deveria deixar de lado as impressões provenientes dos sentidos, do mundo sensível.

Politicamente defendeu que o melhor governo seria exercido por filósofos, sendo aos poetas negada a participação. Fundamentou parte de suas ideias em alegorias dentre as quais podemos destacar as alegorias do sol e da caverna.

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio e a persistência do racismo na sociedade brasileira

Há uma grande dificuldade (provavelmente da maior parte das pessoas) de pensar algumas questões no Brasil e uma delas é a persistência do racismo. Já se sabe que raças humanas não existem mas ainda se hierarquiza seres humanos a partir de sua aparência, de suas ideias e crenças (ou não crenças). O corpo humano é usado como referencial para definir quem é “mais humano”, quem é considerado mais capacitado, quem tem direito de viver e quem não tem. Pensando “nesta terra descoberta por Cabral” (para mencionar a música do Juca Chaves – se você não conhece, procure conhecer pois ele deu importante contribuição para a história da república brasileira), esses direitos todos estão praticamente garantidos em sua plenitude se, entre outros aspectos, a pessoa não tiver um teor elevado de melanina.

Talvez você tenha pensado: “pronto, começou o ‘mimimi”, a vitimização, vai escrever sobre o quanto é difícil ser afrodescendente (porque nem de negro mais se pode chamar), o quanto sofreu e sofre por ter a pele escura e o cabelo crespo!” CALMA, JOVEM! Eu escrevo e peço que não abandone esta leitura, ela provavelmente pode te ajudar a compreender inclusive essa reação que muitas pessoas têm quando se menciona essa palavrinha com “r”. Para tanto, vamos pensar a partir de conceitos sociológicos, afinal esta é uma página que objetiva divulgar a possibilidade de se pensar o mundo a partir de conceitos que muitas vezes não conhecemos mas que podem nos ajudar a nos entender e também ao mundo em que estamos inseridos e inseridas.

ALGUNS CONCEITOS

O termo raça diz respeito às qualidades que são atribuídas a indivíduos e grupos tendo como fundamento as características físicas, como, por exemplo, a cor da pele. Na história da humanidade sempre aconteceram essas distinções entre grupos sociais, mas o fundamento aparentemente científico só foi aplicado pelos fins do século XVIII e começo do século XIX. Essa aplicação pseudocientífica foi crucial para a dominação imperialista de nações como Grã-Bretanha, França e outras.

Racismo, conceitualmente, passa a ser a predominância das características físicas para compreensão das diferenças entre os indivíduos e grupos. Em termos práticos seria algo como afirmar que uma pessoa corre mais rápido ou tem dificuldades de aprendizado porque ela é negra ou branca. É atribuir ao que é físico algo que pode ser desenvolvido com investimentos, prática e disciplina. Um exemplo dessa perspectiva é quando se afirma que os quenianos se destacam em corridas porque “é do povo africano essa capacidade de correr”. Ou ainda: “parece uma coisa que faz com que negros se destaquem no futebol (Brasil) e no basquete (EUA).

Em ambas as situações, vale pensar se quenianos se destacam na corrida, pessoas negras se destacam no futebol e no basquete porque os seus corpos são “melhores preparados” para essas atividades ou se não temos aqui situações em que o custo para realizar tais atividades é bem menor do que estudar para ser físico nuclear, engenheiro espacial ou mesmo médica/o. Seria importante também ter em mente que, em muitas situações, usufruir de educação básica de qualidade já é uma grande possibilidade. Assim, não há nada de físico, biologicamente definido, geneticamente preparado que explique, sem controvérsias, o destaque de algumas pessoas, de alguns grupos em relação a outros.

Os grupos humanos são diferentes entre si porque indivíduos são diferentes entre si. O que se relaciona diretamente com o racismo é a desigualdade. A desigualdade é oriunda da atribuição de hierarquias ao que é diferente. Pensando em termos práticos: olhos azuis são diferentes de olhos castanhos e o juízo de fato pararia por aí se não fossem estabelecidas posições de inferioridade e superioridade: olhos azuis são mais bonitos do que olhos castanhos ou vice-versa. Agora pense nas peles humanas. Peles com mais melanina são diferentes de peles com menos melanina. Até aí, nenhum problema, nada de novo sob o sol.

Pessoas com peles escuras são inferiores em relação a pessoas com peles claras – estabelece-se, assim, a hierarquia. Pessoas de pele escura são inferiores e, por isso, não têm direito a usarem os mesmos banheiros que pessoas de pele clara e, como historicamente temos exemplos, devem ser reduzidas à condição de escravizadas para, assim, purgarem o pecado ancestral definido no livro sacralizado de uma religião ocidental originada no Oriente Médio.

Esse estabelecimento de um lugar social é o que pode ser conceituado como status. O lugar social de um indivíduo em uma sociedade pode ser atribuído ou pode ser adquirido. O primeiro caso é quando o indivíduo é colocado naquela posição, ele não escolheu estar ali ou mesmo se esforçou para isso. Exemplo simples: você é filho/a de seu pai, neto/a de seus avós, primo/a de seus primos e não escolheu nenhuma dessas pessoas para fazer parte de sua vida e nem elas a você. No momento de seu nascimento, a você foi atribuída essa posição e a essas pessoas também.
Ampliemos: quando você se depara com pessoas e acredita que essas pessoas podem representar um perigo para a sua segurança, você ATRIBUI um lugar social, você atribui um status a essa pessoa. O que te faz atribuir essa posição pode variar. Pode ser a roupa, a “cara” do indivíduo, o “jeito” (algo difícil de conceituar) mas, muitas vezes, essa “cara”, esse “jeito” tem a ver com a pele e a quantidade de melanina que ela carrega.

Um pouco mais: frases como “você não tem cara de médica”, “quem te vê nem diz que sabe tanto” ou, ainda, o conjunto de reações diante de pessoas que dirigem determinado modelo de carro ou moram em determinado bairro e são abordadas com alguma truculência ao som de perguntas como: “de quem é esse carro?”, “tá circulando por aqui pois tá querendo roubar?” são exemplos de status atribuídos aos indivíduos e que, nessas situações citadas, tem a ver com cor da pele.

Talvez você diga: mas acontece com qualquer pessoa, pessoas negras não são privilegiadas porque essas situações acontecem com pessoas pobres, mal vestidas independente da cor da pele. CORRETO. Mas considere que as chances de acontecer são maiores com pessoas negras porque há uma atribuição de lugar de inferioridade a pessoas afrodescendentes de maneira quase imediata.

E O RACISMO ÀS AVESSAS?

É comum encontrar e até se falar que sofreu de racismo por ser branco/a. Geralmente esse raciocínio vem acompanhado de seu primo, a heterofobia. Não será abordada aqui a questão da heterofobia, mas o desenvolvimento das ideias é análoga, pode ser usada como ponto de partida.

Comecemos por entender que o racismo na sociedade brasileira não é uma questão de pessoas racistas, mas sim de uma estrutura racista. Para entendermos melhor, vamos partir do conceito de estrutura social, que diz respeito à forma como uma sociedade se organiza por meio de relações complexas e com alguma continuidade no tempo e espaço. A estrutura social brasileira está assentada historicamente na atribuição de posições de inferioridade não só a pessoas negras mas também às expressões culturais, religiosas afrodescendentes.

Exemplo: se alguém afirma ser membro de candomblé, umbanda ou participar de qualquer manifestação de religiosidade de matriz africana, a chance de se ouvir um “vixi” é muito grande. Quando uma pessoa negra não raspa o cabelo ou, no caso feminino, não alisa para conseguir o penteado mais parecido com a da mocinha da novela (que geralmente é de pele clara) pode-se ouvir comentários do tipo: “que revolta é essa?”, “por que você não alisa o cabelo pra ficar bonita?”. Lembra do que foi escrito acima sobre status atribuído? Pronto, não se atribui beleza à aparência de pessoas negras ou legitimidade, direito de existir às expressões religiosas de matriz africana.

Isso quer dizer que há uma situação de inferioridade ao que se relaciona à população negra, é a estrutura da sociedade que é racista e que está baseada em ideias que compõem as formas coletivas de pensar, de sentir e de agir. No mercado de trabalho, muitas vezes, um/a candidato/a não é aceito/a em vaga disputada porque é negra a sua pele, ainda que não seja explicitada essa razão. Pense nas vezes em que você julgou alguém incapaz de fazer alguma coisa. Essa pessoa era negra? Se sim, questione-se a razão dessa atribuição de lugar de inferioridade.

Não há, conceitualmente, racismo contra pessoas brancas porque o mundo ocidental não inferioriza pessoas porque elas têm a pele clara. Há pouquíssimas piadas de pessoas brancas, os cabelos crespos são colocados como fantasias para o carnaval enquanto os cabelos lisos têm grande valor de venda. São esses elementos cotidianos que definem o racismo como estrutural e não como caso isolado, de alguém que discrimina e ofende. A discriminação e a ofensa são parte da formação da identidade nacional. Mas, você pode afirmar que existe racismo contra brancos/as, entretanto, sociologicamente, o conceito não dá conta da realidade social.


Como se pode combater esse mal? Uma possibilidade é a ação conjunta entre educação e legalidade. Educando as pessoas para a diversidade e punindo os crimes motivados por questões “raciais”. Mas a primeira atitude contra esse racismo estrutural que compõe a sociedade brasileira deve ser aceitar o/a racista que há em cada um/a de nós e quando alguém nos acusar de racismo, antes de respondermos com “eu não sou racista”, “como posso ser racista se tenho amigos negros, se namorei pessoas negras?”, pergunte: Por que você está me dizendo que sou racista? Dê oportunidade a si mesmo/a de descobrir a ignorância que há em si e que, na maior parte das vezes, não queremos reconhecer que existe.