Menu Superior Horizontal

  • E
  • D
  • C
  • B
  • A

Acesse aqui!

Entre em contato pelo Facebook ou Twitter.

Assista aqui!!!

Assista a filmes históricos clicando aqui!!

Fichas monstro!!!

Faça o download das Fichas Monstro clicando na barra de menu!!

Fale com o Prof. Salviano Feitoza

Clique aqui e saiba informações importantes sobre o Prof. Salviano Feitoza

ARTIGOS

domingo, 30 de agosto de 2020

RESUMO: Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Erving GOFFMAN. Rio de Janeiro: LTC, 2012 | Capítulo 1


Publicado originalmente me 1963, Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, está dividido em um prefácio e cinco capítulos a saber: Estigma e identidade social (cap. 1), Controle de informação e identidade pessoal (cap. 2), Alinhamento grupal e identidade do Eu (cap. 3), O Eu e seu Outro (cap. 4) e Desvios e comportamento desviante (cap. 5).

Capítulo 1: Estigma e identidade social 

No primeiro capítulo, Goffman define estigma a partir do entendimento grego antigo e segue passando pela idade média até chegar ao mundo atual – no caso, atual sendo referência ao momento de publicação do livro, a década de 1960.

            Os gregos criaram o termo para fazer referência aos sinais corporais que possibilitariam identificar alguém que tivesse feito algo ruim, que fosse uma pessoa má ou mesmo extraordinária, moralmente falando. Essas marcas podiam ser de cortes, feitas com ferro em brasa e anunciavam para quem as visse que se estava diante de um assassino, traidor, escravizado e que se deveria evitar aquela criatura, principalmente se cruzasse com ela pelas ruas, em espaços públicos.

            Na idade média criou-se uma referência dupla: tanto seria sinal da graça divina na pele de quem a ostentava quanto poderia dizer respeito a distúrbios físicos. No contexto histórico do livro, a definição de estigma relaciona-se com a desgraça de quem o ostenta mais do que a sua corporificação.

            No prefácio, o autor apresenta estigma como sendo a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena (p. 7) e acrescenta que foram realizados estudos que ampliaram as categorias de pessoas “estigmatizadas”.

            Neste primeiro capítulo, Goffman expõe que o estigma surge quando há discrepância entre a identidade social real e a identidade social virtual, sendo aquela composta pelos atributos que o indivíduo efetivamente ostenta e a segunda se relaciona com o que atribuímos coletivamente ao indivíduo, nossas demandas e expectativas.

            O autor defende a ideia de que o estigma, em si, não é honroso nem desonroso, porque tem a ver com os estereótipos criados. Torna-se necessário, então, uma linguagem de relações e não de atributos, uma vez que estes tem a ver com a identidade social virtual. O autor chama atenção para o fato de que há atributos que a sociedade constrói que levam ao descrédito.

            Goffman informa que há duas situações referentes ao estigmatizado: quando ele assume que todos já conhecem a sua característica distintiva  ou que ela é identificada prontamente, ficando na condição de desacreditado ou de desacreditável, que é quando a característica que o estigmatiza nem é sabida e nem perceptível de maneira imediata.

            Aqui o autor enumera três tipos de estigma: (1) as abominações do corpo; (2) culpas de caráter individual e que a sociedade constrói como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, alcoolismo, homossexualismo, comportamento político radical e (3) estigmas tribais de raça, nação e religião – classe também.

            Ao portador do estigma são atribuídas características que ultrapassam a característica primeira, a imperfeição inicial, então ao estigmatizado se atribui comportamentos ou possibilidades de ação que não se confirmam diante de uma observação mais acurada (na maior parte das vezes). Algumas dessas atribuições são mágicas, sobrenaturais, como sexto sentido ou percepções.

            Também são naturalizadas como se fossem inerentes aos estigmatizados o defeito e a resposta como se as ações engendradas fossem parte de sua constituição enquanto indivíduos portadores do estigma.

            O autor chama atenção para o fato de que muitas vezes os indivíduos exigem comportamentos dos estigmatizados mas que eles próprios não se veem como obrigados a se comportarem de tal maneira, revelando, no mínimo, uma contradição. Identifica, também, indivíduos que não vivem da forma que lhes é exigida mas que não se importam, aparentemente não ligando para o que se espera. Exemplos citados por Goffman: ciganos, canalhas impunes etc.

            O estigmatizado pode reagir de duas formas: “corrigindo” a imperfeição que leva à atribuição do estigma ou dedicando-se a atividades que, cotidianamente, não se espera que consiga ou se destaque. No primeiro caso, muitas vezes, é passível de ser enganado (vitimizado) por charlatães e no segundo, exemplifica com aleijado que dançam em cadeiras de rodas, realizam magistralmente atividades físicas tidas como impossível diante da condição de estigma a que estão sujeitos.

            Outra forma de reagir seria utilizando seu estigma para “ganhos secundários”, para tirar vantagens, como desculpa para o fracasso. Pode também ver o estigma como sinal de uma espécie de “benção secreta”, atrelando o sofrimento da condição  a possibilidade de ensinar as outras pessoas, normais, algo sobre a vida. Pode ainda reafirmar as limitações dos normais, como não perceberem as benesses que estão ao seu redor.

            O maior desafio para o estigmatizado é o contato misto, o contato com as pessoas normais, o que pode levar a ambos os lados a evitarem contatos. Quando esses contatos ocorrem, o estigmatizado pode se descobrir inseguro em relação ao jeito como será recebido/identificado. A pergunta seria, então, em qual categoria ele será incluído?

            Além dessa insegurança, o estigmatizado pode se sentir como se estivesse sendo exibido, acarretando nele uma autoconsciência e autocontrole exacerbados. Suas ações podem ser percebidas como fora do comum, ou seja, extraordinárias. Erros e enganos porventura cometidos, podem ser classificados como expressão direta de seu estigma, gerando, muitas vezes, uma condescendência em relação a pessoa estigmatizada.

            No caso do estigmatizado desacreditado pode ser que, estando entre os normais, sinta-se exposto a invasões de privacidade, a episódios de curiosidade mórbida sobre a sua condição ou oferecendo ajuda quando não é necessária. Frases comuns: minha querida avó conseguiu um aparelho feito o seu; seu cabelo, você lava como?

            A agressividade pode ser também uma forma de agir ou a ação pode se dar entre o retraimento, classificado muitas vezes com timidez e a repulsa contra quem se aproxime – sendo essas atitudes ocorrentes em contatos mistos. O autor afirma que tais situações podem produzir no estigmatizado angústias relacionais.

            Nas interações mistas há dois possíveis comportamentos: ou se superestima ou subestima o estigmatizado e quando não há essa atitude, é tratado como uma não-pessoa, passando a não ser digno de atenção ritualmente constituída socialmente, de início.

            Aqui o autor afirma que a pessoa estigmatizada, por enfrentar a discrepância entre a identidade social e a virtual com mais frequência que os normais, tem mais habilidades, provavelmente, para lidar as situações desse tipo.

 

O igual e o “informado

 A discrepância entre a identidade real e a virtual, quando conhecida, acaba com a identidade social do indivíduo afastando-o tanto da sociedade quanto de si. Nesse sentido, pode ser que ele se depare com duas categorias de indivíduos: a que compartilha de sua mesma discrepância, podendo instruí-lo, abrindo espaço para partilhar sofrimentos e experiências, sendo aceito como uma pessoa normal, uma vez que naquele grupo, por ostentarem as mesmas discrepâncias, são todos normais.

            São construídos espaços de sociabilidade que podem fornecer para quem participar desde doutrinas completas até mesmo estilos de vida, redes de ajuda mútua etc. Segue a citação:

 

Uma categoria, então, pode funcionar no sentido de favorecer entre seus membros as relações e formação de grupo mas sem que seu conjunto total de membros  constitua um grupo – sutileza conceitual que daqui em diante nem sempre será observada neste livro. (p. 33)

 

            A organização em ligas contribui para a visibilização dos estigmatizados através da noção que se cria, quando são “nativas”, de que superaram limites. Outro ponto a considerar é de nicho de mercado, criando publicações que divulgam as formas de viver, suas aspirações, denunciando as condições em que vivem.

            Há, também, os profissionais da categoria, que, quando “nativos” são levados a ter contatos com outras categorias, quebrando a espécie de “redoma” em que se vivia, rompendo o “círculo fechado dos iguais” (p. 36). Outro aspecto a ser considerado é que, por representarem profissionalmente sua categoria, os nativos podem inserir parcialidades sistemáticas que só são possíveis por entenderem a situação porque a vivenciam.

            Os informados seriam aqueles que, não sendo estigmatizados, conhecem a situação, pois são aceitos entre eles, representariam o que no Brasil é classificado como “entendido”. Podem ser por causa do trabalho que exercem, pelo contato íntimo com o grupo de estigmatizados.

            Outro tipo de estigmatizado seria aquele que se relaciona com um em situações como casamento, maternidade, amizade. Estariam numa espécie de lugar em que são estigmatizados por extensão, de forma indireta. Essa espécie de transferência justifica a razão de se evitar relacionamentos com estigmatizados ou deles acabarem, no caso da discrepância adquirida tardiamente.

 

A carreira moral

 

Para Goffman, deve-se diferenciar a história natural das pessoas com um estigma da história natural do próprio estigma, que seria a história de como foi originada, difundida, mantida e quais alterações sofreu o atributo que serve de estigma em determinada sociedade. O autor defende que há fases referentes ao processo de aprendizagem da própria condição e de conhecimento do Eu.

            Uma delas é a fase em que o estigmatizado incorpora a perspectiva dos normais, assimilando as crenças da sociedade mais ampla acerca do estigma que lhe é atribuído. Outra fase é a que se caracteriza por aprender em detalhes as consequências de ser estigmatizado, o que difere da primeira fase.

            Ele enumera também modelos de aprendizado, totalizando quatro. No primeiro, o estigma é congênito e a socialização acontece no interior da situação de desvantagem, levando a pessoa a aprender “desde sempre” como é carregar determinado atributo.

            O segundo modelo se caracteriza por ter desenvolvido a capacidade de proteger a criança do mundo através de um grande controle de informação, possibilitando o contato com outras concepções de sociedade e fazendo-a crer que pertence a esse mundo, sem ressalvas. Ponto crítico: quando se sai desse modelo e a realidade se afirma presente.

            O terceiro modelo diz respeito ao se tornar estigmatizado posteriormente, numa fase avançada da vida ou quando se aprende de maneira tardia que sempre foram desacreditáveis. Neste caso, faz necessária uma total reorganização de cosmovisão. O quarto modelo é quando ocorre a socialização em um local diferente daquele que faz parte na sociedade normal.

             Estando em fase avançada da vida, o estigmatizado enfrentará dificuldades em lidar tanto com novas relações quanto em manter as anteriores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A PRECARIZAÇÃO DA VIDA EM "VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI"

[ALERTA DE SPOILER]

- Você não é contratado aqui. Você vem “a bordo”. Dizemos que você “embarca”. Não trabalha para nós. Trabalha conosco. Não dirige para nós. Você realiza serviços. Não há contratos de emprego. Não há metas. Você atende aos padrões. Não há salários, e sim honorários. Está claro?

- Sim.

- Claro?

- Sim, sim. Me parece bom. Sim.

- Você não bate ponto. Fica disponível. Você assina conosco e se torna um motorista franqueado. Mestre do seu próprio destino, Ricky. Para separar os perdedores de merda dos guerreiros. Está disposto a isso?

- Sim. Estava esperando por uma oportunidade como essa há… muito tempo.

O diálogo acima é apresentado logo no início do filme “Sorry, we missed you”, do diretor Ken Loach, na versão brasileira, “Você não estava aqui”. Nele acompanhamos a história da família de Rick, trabalhador que realiza entregas na condição de motorista franqueado, um prestador de serviços, alguém que trabalha COM a empresa e não para a empresa.

De início o filme parece tratar do trabalho precarizado, trabalho marcado por excesso de cobranças sobre o “franqueado” e que aparecem como metas a serem atingidas, sendo que essas metas exigem esforços tremendos que vão desde a redução drástica de tempo para almoço até a realização das necessidades fisiológicas em uma garrafinha de plástico.

“Sorry, we missed you”, aborda mais do que isso: ele expõe a precarização da vida. Em outros tempos, o trabalho precarizado estava restrito a um local: a fábrica, a mina e produzia uma vida miserável, mas que, com muito esforço, podia se ter, em um espaço separado, um “oásis” caótico para se afastar. Esse “oásis” não existe mais. Foi ocupado, desertificado pelos capatazes do capital: aplicativos instalados em celulares, máquinas que registram as entregas e bipam loucamente avisando que o “franqueado” passou mais de três minutos sem se mexer.

Rick não trabalha em regime precarizado, apenas. A sua vida toda é precarizada: não consegue acompanhar o filho mais velho que apresenta problemas na escola e que realiza intervenções artísticas em paredes pela cidade. Ele representa a situação de milhares de jovens em idade escolar: a completa falta de perspectiva de vida.

Sua esposa teve que vender o carro para que Rick pudesse dar entrada na van para realizar as entregas e passou a usar o transporte público para exercer seu trabalho de cuidadora, sendo que esse trabalho é similar em seu funcionamento ao que o marido faz: ela recebe pelo tempo que está com a pessoa, no caso, o horário em que ela dá banho, veste, alimenta seus pacientes, o que a obriga a atender várias pessoas no mesmo dia para conseguir manter-se na linha de sobrevivência. Sem veículo próprio, o esforço para dar conta de tudo isso é muito maior.

O mundo da vida foi tomado pelo mundo do sistema, o que isso quer dizer? Que não há mais separação, não há mais barreiras que impeçam a dominação do capital sobre o que fazemos. Essa instância de dominação e violência é imperceptível, os problemas criados por esse regime de trabalho não são percebidos como tais. Naturalizados, são colocados como incompetência de quem trabalha ou preguiça mesmo, o que mostra a perversidade desse sistema, culpando a vítima que, paradoxalmente e contra a própria existência, defende aquilo que a mata. Estamos diante de uma ideologia suicidária.

A exploração do trabalho, do tempo, da vida de quem trabalha atingiu requintes de perfeição. A educação é precária, o que contribui para que se tenha mão-de-obra para tais serviços, uma vez que o horizonte de possibilidades para a maior parte da juventude em idade escolar é praticamente nulo e, se pensarmos em um país como Brasil, é só adicionar o sadismo estrutural das relações trabalhistas.

Essa precarização destrói homens e mulheres, que, brutalizados, tentam sobreviver. Não há educação, não há direitos trabalhistas, não há saúde. Tudo é insegurança. Até mesmo a lei, que em teoria deveria ser a mesma para todo mundo, mais do nunca, privilegia setores bem específicos da sociedade. Seria plausível pensar no estabelecimento de um “estado de natureza hobbesiano”. Tudo o que foi criado e conquistado coletivamente está sendo implodido para atender à utopia liberal.

Diante do imperativo da sobrevivência, qualquer vínculo mínimo é deixado de lado. Contingentes de seres humanos brigando entre si para vender seu tempo, suas forças, suas inteligências para companhias cada vez mais especializadas em cercar, extrair e extinguir essas vidas que só importam na medida em que servem para azeitar a máquina de moer gente do capital.

Quando Rick é roubado é que podemos ver essa máquina em ação: se ele não for trabalhar, a “parceria” está rompida e ele ainda tem que pagar pelos dias não trabalhados e mercadoria roubada, o que, na prática, supera muitas vezes o que é pago pelas entregas em dias de trabalho. Em uma das cenas mais revoltantes do filme, quando Rick está no hospital para receber cuidados médicos após o roubo, ele recebe a ligação do seu chefe (não denominado como tal) para avisá-lo do que pode acontecer se ele não voltar ao trabalho.

“Sorry, we missed you” é a exposição do que está por trás das entregas foguete, das entregas ultra rápidas: vidas violentadas, precarizadas e que não tem nenhuma importância para quem realmente é beneficiado: os donos dessas empresas. Ao final, Rick decide fazer a única coisa que é possível em sua condição: voltar ao trabalho mesmo destruído física e mentalmente, afinal o deus boleto requer sacrifícios que não podem esperar. Para quem assiste fica a lembrança do que está por trás daquela compra mais barata e de entrega mais veloz: sangue, pranto e ranger de dentes. Se você não for parte dos que lucram com trabalhos como o de Rick, então, união e solidariedade nunca foram tão subversivas e necessárias.

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM PROJETO MÍMESIS

em 16.junho.2020 

 

sábado, 2 de maio de 2020

COVID-19: Quando a doença é uma metáfora


Este texto é uma tentativa de pensar a situação no país a partir da pandemia do covid-19. Não se propõe a estabelecer chaves de leitura totais ou dogmáticas, mas sim, proporcionar elementos para pensar o que acontece e elaborar possibilidades de ação tendo como ponto de partida a reflexão filosófica e a experiência no interior da vida social.
                Sabemos que a situação não está boa para quem promove ou é entusiasta do pensamento “de humanas” no Brasil. Parece que a área de humanidades foi responsabilizada por todas as mazelas nacionais e internacionais. Verbas de universidades foram cortadas, bolsas de iniciação científica vetadas e qualquer solicitação de bolsa na área de humanas, caso não promova área de tecnologias, vai ser notoriamente negada.
                Por que essa menção ao que de mais recente temos na política nacional em um texto que se propõe fornecer instrumentos para pensar, entender e elaborar formas de ação em um contexto que lembra muito as mais remotas distopias? A resposta, que para algumas pessoas se apresenta óbvia, é de que está tudo interrelacionado. E, caso você continue a leitura, poderá confirmar essa interligação. Pois bem, temos alguns tópicos que foram organizados de maneira a sairmos, por assim dizer, do mais “raso” ao mais complexo.
                Vamos começar, então.

1. A pandemia como metáfora do especismo
A proposta aqui é pensar a pandemia em relação direta com o especismo e, para tanto, vamos começar definindo especismo, que é o preconceito ou a atitude tendenciosa de alguém a favor dos interesses de membros de sua própria espécie e contra os de outras (SINGER, 2010, p.8). O autor dessa definição foi Peter Singer que, em 1975, publicou o livro Libertação Animal, considerado um clássico que orientou e ainda orienta o debate sobre os direitos dos animais não-humanos.
                Ser especista é acreditar e defender que há hierarquias entre as espécies e que a espécie humana estaria no topo, seria aquela a qual todas as outras espécies devem se submeter, devem atender aos interesses, não importando qual seja, a humana deve ser atendida antes mesmo de qualquer outra.
                Angélica Velasco Sesma ampliou o conceito apresentado por Singer inserindo perspectivas ecofeministas: animais não humanos e mulheres tem seus direitos básicos negados, existindo para atender às necessidades dos homens, que, por sua vez, são animais humanos e expropriam do direito de se autodeterminarem de tudo o que não for masculino e humano. Violência naturalizada e generalizada contra mulheres e animais de espécies diversas da humana.
Há um debate no âmbito das universidades e das militâncias ao tratar de especismo. Não vamos tratá-lo aqui porque ultrapassa o objetivo desse texto. Vamos juntar as duas abordagens, elas não são necessariamente excludentes e o que interessa são as chaves de leitura que elas podem nos proporcionar. Avancemos.
A partir do que foi apresentado, a pandemia pode ser lida como uma metáfora do especismo, como resultado dessa atitude de se colocar em posição de superioridade em relação às outras espécies existentes no planeta. Você provavelmente estudou na escola que somos diferentes de outros animais por causa da nossa racionalidade. Aristóteles, há milênios, deu sua contribuição no desenvolvimento dessa crença.
Na história das ideias, há registros em larga quantidade de sistemas, ideologias, epistemologias que realizaram verdadeiros malabarismos para colocar-nos distantes do mundo natural e este deveria ser esquadrinhado, dominado e determinado para atender aos ditames de nossa racionalidade. O iluminismo foi a cereja do bolo desse processo.
O discurso científico foi alçado à condição de ordenador, de legitimador do que é verdadeiro, do que é certo e, também, do erro e do falso. Essa divisão estabeleceu a crença na onipotência humana diante do mundo natural. Foi apagada uma realidade necessária, uma realidade que não pode ser diferente do que é: também somos animais e estamos sujeitos ao que poderíamos denominar de leis naturais.
Temos que comer, dormir, beber água, defecar, urinar. Não sobrevivemos sem dar vazão a esses imperativos. Por mais que tenhamos usado, pretensamente, a nossa racionalidade e criado desde a pá até os celulares, nada disso nos impedirá de buscar alimentos, dormir, saciar a sede e excretar, sob pena de morrermos caso tentemos nos furtar disso.
Foi essa onipotência da razão que nos dispôs a submeter outras espécies às nossas necessidades. Desmatamos, extinguimos plantas e espécies não humanas quase indistintamente, pois salvamos espécies a partir de critérios nossos, arbitrários, desconsiderando que está tudo interligado. Da física à química, passando pela biologia todos os conhecimentos que nossa razão desenvolveu, expuseram essa interrelação. Ignoramos de forma solene. Tudo incrementado pela parceria razão instrumental e modo de produção capitalista.
O covid-19, outra espécie, invisível a olho nu, literalmente nos colocou para correr e corremos para nossas casas, para os abrigos que criamos para realização das nossas atividades mais naturais. Foi como se essa forma de vida gritasse: “o rei está nu!”, mas não apenas gritou como arrancou nossas roupas, mostrou quão inuteis são as tecnologias que desenvolvemos, nos levando, humilhados e humilhadas a ter que nos sujeitarmos a um ditame básico do mundo natural: o tempo.
               
2. A quarentena e a sociedade da transparência
Aqui começamos uma chave de leitura mais existencial e vamos mobilizar duas ideias: a de sociedade da transparência e a de sociedade do espetáculo. Tratar de sociedade do espetáculo é praticamente chover no molhado uma vez que a ideia se popularizou, mas é importante lembrar. O conceito de sociedade do espetáculo foi desenvolvido por Guy Débord e refere-se à mediação das relações sociais por meio de imagens.
                Viver em uma sociedade do espetáculo é viver em uma sociedade cujas relações são mediadas por imagens. As imagens agendam a nossa consciência, o que pensamos, definem, inclusive, como nos sentimos e o que devemos sentir. Pense na quantidade de vezes que o seu ânimo foi alterado a partir de uma imagem que chegou no seu whatsapp, a partir daquela postagem no seu feed, na quase extinta linha do tempo do facebook.
                É um processo duplo: buscamos imagens e fornecemos imagens. Talvez o único lugar em que a utopia da lei da oferta e da procura regulando-se mutuamente funcione seja na sociedade do espetáculo. Pois bem, aqui se insere a ideia de sociedade da transparência. Transparência é a qualidade do que é transparente e transparente é característica do que permite ser visto facilmente.
                Ver e ser visto sem obstáculos. Os obstáculos fazem parte da sociedade negativa, sendo que a negatividade não é o que chamamos no cotidiano de bad vibe, mas sim a qualidade do que é sinuoso e profundo. A sociedade da transparência é a sociedade positiva, as coisas são planas e rasas. Byung-Chul Han desenvolveu essa ideia no livro Sociedade da Transparência e nos fornece uma chave de leitura interessante para a quarentena e o desaparecer de si.
                É imperativo nessa sociedade espetacularizada que sejamos vistos para existirmos. A privacidade, constituída em longo processo histórico, desenvolvida em camadas de segredos cuja materialização vemos nos antigos diários, foi implodida em função da transparência que se busca para atrair mais olhares interessados na vida de quem posta, o que, por sua vez, gera curtidas, comentários, stories, patrocínios. Há uma verdadeira mentoria sobre onde ir, como ir etc.
                Imagens de comida, das pernas na praia, do rosto tendo ao fundo alguma paisagem indistinguível, todo esse catálogo das mesmas coisas foi prejudicado com o advento da quarentena, do confinamento. Toda essa exposição reivindica da pessoa a projeção, estar sempre “para fora”, sem muita (nenhuma) interiorização. Sem poder sair para “dar pinta” por aí (expressão comum aqui em Recife), as pessoas tiveram que se deparam com elas mesmas. É uma situação tremenda, imagina que “loucura” ter apenas a sua companhia?
               
3. O confinamento e o desaparecer de si
                Aqui o confinamento apresenta questões de ordem política e social. Quem pôde ficar em confinamento teve que se deparar consigo mesmo e com um afeto primordial: o medo. Medos os mais diversos se escalam, numa analogia medonha com jogo de futebol. Medo de perder o emprego, medo de ter a casa invadida, da violência generalizada, do desabastecimento e o medo primordial, fundante: o medo da morte.
                Nesse contexto, o discurso neoliberal ainda responsabiliza o indivíduo pela precariedade de uma situação que é social. Todos os medos listados acima potencializam um desejo, por assim dizer, de desparecer,

(…) o indivíduo abandona a luta e com maior ou menor intensidade se deixa levar pelas circunstâncias. Às vezes é dessa forma que ele encontra o tão desejado sossego. Ele sabe não dispor de poder para mudar as coisas. Qualquer discussão fracassaria. É uma situação sem saída. Retirar-se é a última possibilidade de evitar ser esmagado ou ser sufocado pelo seu peso.
(LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 23)

Se deixar levar pelas circunstâncias não deve ser entendido como fraqueza, mas, como diz o trecho acima, refere-se ao entendimento de que não pode mudar as coisas. Aqui a chave de leitura abre-se para questões amplas, relativas às condições materiais de existência. Temos um processo de precarização que atinge o mundo do trabalho e ultrapassa seus limites, chega ao mundo da vida. A maior parte das pessoas, trabalhadoras, vivencia a precarização da vida.
                Essa precarização é violenta, não há direitos trabalhistas, segurança já não havia, só definhou ainda mais. A saúde mental está em frangalhos, a autoestima destruída por uma conjuntura social e política que dissemina culpa sobre quem é vítima, o que ajuda a ampliar a percepção do aumento da violência doméstica durante a quarentena.

4. Vírus lá fora e parentes aqui dentro: a violência doméstica na quarentena
Vamos juntar as chaves de leitura apresentadas. O mundo como conhecíamos desmorona impiedosamente. De uma hora para outra a liberdade de locomoção está restrita. O trabalho que compõe um elemento fundamental da identidade individual e coletiva, não pode mais ser exercido como antes ou de maneira alguma. Há um grande risco de não ter mais emprego e os trabalhos que podem ser exercidos colocam em risco a própria vida e não rendem o necessário.
                Adicione o fator interno, os desejos íntimos, as fragilidades em relação às pessoas com quem se relaciona no “lar”. O casamento por um fio que não se partiu antes porque “sair de casa” para o trabalho aliviava as tensões, agora vai ter que ser vivenciado em todas as instâncias de ressentimento. A relação entre as crianças, o pai e a mãe com todas as demandas e incertezas que pairam sobre a prole tornam a casa um barril de pólvora. Não há espaço para brincar, não há sociabilidade a não ser em um espaço restrito e, nas periferias do país, tudo cai aos pedaços.
                Todos esses danos poderiam ser amenizados se a saúde mental fosse valorizada. O mundo ao redor está em ruínas e esmaga as crenças de que pode melhorar e voltar a ser como antes. O mundo interior, oprimido, uma panela de pressão. O que se espera diferente da violência como recurso para destruir o que me destrói?

5. A curva do futuro quando não há futuro
Não há futuro. Temos que criar. A utopia neoliberal, capitalista, provou de maneira prática, explicita que não dá conta da coletividade. Precisamos aceitar que essa ordem de coisas, que essa forma de vida é catastrófica. Daí a importância das ciências humanas. Somos seres históricos, nos relacionamos em coletividade e temos questões existenciais para lidar, questões sobre sentidos e finalidades da nossa vida e do que fazemos, pensamos e sentimos.
                A gestão do Estado brasileiro é suicidária, é necropolítica, querer salvar essa ordem de coisas é ir na direção de um acidente de trem. Precisamos de coragem, de ousadia, de união para seguirmos. A morte é, sim, presente e o futuro, incerto, mas Raul Seixas passou o recado:

(…)
Na curva do futuro muito carro capotou
Talvez por causa disso é que a estrada ali parou
Porém, atrás da curva
Perigosa eu sei que existe
Alguma coisa nova
Mais vibrante e menos triste
(A verdade sobre a nostalgia)
REFERÊNCIAS:

BADIOU, Alan. Petrogrado, Xangai: as duas revoluções do século XX. São Paulo: Ubu Editora, 2019.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis,RJ: Vozes, 2017.

LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

SESMA,  Angelica Velasco. Ética del cuidado para la superación del androcentrismo: hacia una ética y una política ecofeministas. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/317602372_Etica_del_cuidado_para_la_superacion_del_androcentrismo_hacia_una_etica_y_una_politica_ecofeministas

SINGER, Peter. Libertação animal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Inútil e perigosa: a filosofia sob ataque


Ser professor de filosofia no Brasil anda sendo perigoso. Nos últimos tempos a nossa situação confirma o refrão do clássico do cancioneiro popular no país: “não está sendo fácil viver assim/você está grudado em mim (...)”, porém o que está “grudado” na gente é o patrulhamento, a paranóia e superestimação das nossas capacidades de mexer com as mentes de nossos educandos e educandas.

Pela perspectiva do atual presidente e de muitos de seus asseclas, somos responsáveis por tudo o que aconteceu, acontece e que está por vir nesta terra em que “se plantando tudo dá”: Protestos? Foi doutrinação que aconteceu nas escolas. Alto custo de vida? Foi o pessoal de filosofia que “fez a cabeça” de quem é proprietário de supermercados e afins para que se comprometam com a conspiração comunista planetária. Pandemia de covid-19? Arma biológica que, secretamente, vai inocular o “gayzismo esquerdopata abortista venezuelano orgiástico” nas pessoas, garantindo o fim da tradicional família brasileira.

Parece que não é uma opção cogitar que as pessoas protestam porque estão insatisfeitas com a (des)ordem vigente ou que há aumento do custo de vida porque o mercado é regido por interesses baseados na lei da oferta e da demanda (a partir da exploração de quem efetivamente trabalha) ou que a pandemia revela o total desinteresse em garantir condições de vida adequadas para população, inclusive condições de trabalho, o que contribuiu para a propagação do vírus.

Tudo é culpa de professoras e professores de filosofia que tramaram e continuam tramando contra a liberdade de jovens e das famílias dessa juventude de decidirem o que é melhor para suas crias. Qualquer indicação de leitura, de filmes, seriados, canções ou mesmo uma troca de ideias sobre o mundo, sobre a vida é logo tratada como doutrinação. A pergunta que pode aparecer logo em seguida é: por que algo tão inútil como a filosofia é tão perseguida? Por que parece tão perigosa? Se é inútil, como pode ser perigosa? Ousaria escrever que parece uma paródia do clássico texto do Brecht “Perguntas de um trabalhador que lê”: Tantas perguntas, tantas questões.

Movido pela adrenalina filosófica, inspirado pelo clássico Pokemon: “Schopenhauer, eu escolho você!” para desenvolver uma chave de leitura sobre essa situação.



Schopenhauer circula com popularidade pelo mundo dos memes, sempre representado por uma mescla de amargura, sarcasmo e ironia, mas, há uma parte das ideias dele que podem promover, não sem antes desestabilizar um pouco nossa autoestima, uma ampliação da nossa potencialidade de viver, de existir com mais sentido ou, por assim dizer, com mais autenticidade. E tudo isso a partir do caráter.

Talvez o uso da palavra caráter ative o sinal de alerta de moralidade, afinal, caráter geralmente vem acompanhado de discursos de normatização do comportamento, de juízos de valor que definem certo e errado, bem e mal. Acalme seu coração e cérebro, não tem relação direta e profunda como pode parecer. Segure a atenção e não saia da tela do aplicativo que vamos começar.

Caráter, no pensamento de Schopenhauer, refere-se à natureza individual e particular da vontade. Todo mundo tem vontades que se manifestam quase que a todo momento. Essas vontades nos levam a comer, beber, dormir, defecar, urinar. Também nos levam a participar de festas, encontros aleatórios, disputar vagas de emprego e promoções. As vontades nos levam a lugares os mais diversos, a tomar desde atitudes louváveis como atravessar um idoso para o outro lado da avenida conde da boa vista (importante via aqui de Recife) até “jogar pala” para conquistar o pretendente do amigo (!) Uma questão: Para quê tudo isso?

Tanto as vontades relativas às necessidades básicas como as de convívio social e as atitudes execráveis; até a pergunta sobre a finalidade disso tudo, está no conjunto do que Schops nominou como caráter, sendo que ele identificou três tipos de caráter, os seguintes: caráter da espécie, caráter individual e caráter adquirido.

SOBRE OS TIPOS DE CARÁTER

O caráter da espécie é o que nos lembra que pertencemos ao mundo natural, ao conjunto do que seria uma vontade macrocósmica e por pertencermos a ela, não podemos escapar de seus desígnios, ou seja, temos que nos alimentar, dormir, buscamos a manutenção da nossa vida e também empreendemos verdadeiras odisseias para transar com alguém.

Já o caráter individual é só um pouquinho mais complexo: refere-se ao que poderia ser denominado como o “reino humano”. Neste âmbito estariam os sentimentos, as emoções, aquilo que nos toma e nos leva a agir: ódio, medo, alegria, esperança. Tenha em mente que estes são individuais, cada uma de nós expressa e sente de maneira própria e específica, sendo impossível prever ou definir leis sobre como agiremos ou como as outras pessoas agirão inclusive em relação a nós. Aqui, Schopenhauer trata da confiança, mas que foge dos objetivos desse texto, fica para um próximo.

Chegamos ao terceiro tipo, o caráter adquirido. No pensamento de Schopenhauer, esse caráter refere-se ao saber sobre si, o tão mencionado autoconhecimento. Esse saber sobre si é o que nos distinguiria da generalizada e uniforme massa humana. Pense da seguinte maneira: todos que compõe a chamada humanidade apresentam semelhanças físicas e sofrem os clamores da espécie, ou seja, todo mundo está sujeito a sentir fome, sede etc. Nessa mesma linha de raciocínio, somos basicamente movidos e movidas por desejos e buscas de realizações que, praticamente, não se diferenciam.

O caráter adquirido seria a consciência da vontade que se tem, das vontades primárias e a autonomia para tomar atitudes no turbilhão composto pelas vontades da espécie e pelas vontades individuais. Segue um trecho contundente sobre esse ponto, que foi escrito pelo próprio Schops:

dentro de si [uma pessoa] encontra disposições para todas as diferentes aspirações e habilidades humanas: contudo, os diferentes graus destas na própria individualidade não se tornam claros sem o concurso da experiência. [...] Pois, assim como nosso caminho físico sobre a terra não passa de uma linha, em vez de uma superfície, assim também, na vida, caso queiramos alcançar e possuir uma coisa, temos de renunciar e abandonar à esquerda e à direita inumeráveis outras. Se não podemos nos decidir a fazer isso, mas, igual a crianças no parque de diversões, estendemos a mão a tudo o que excita e aparece à nossa frente, então esta é a tentativa perversa para transformar a linha do nosso caminho numa superfície (SCHOPENHAUER, 2005, p. 393)


Seríamos, então, para utilizar a citação acima, como crianças que, uma vez no parque, querem tudo o que é oferecido, tudo o que está lá. Por essa perspectiva, o velho Schopenhauer joga na nossa cara que não somos tão individuais como queremos acreditar ou nos fazem acreditar. Perturbador, não é?

E O ATAQUE AO PENSAMENTO FILOSÓFICO TEM O QUÊ COM ISSO?

Vou iniciar essa parte do texto com um trecho da canção “Comida”, do grupo de rock tupiniquim “Titãs”:

(...)
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
(...)

Há várias análises dessa canção e caso você nunca tenha ouvido na vida, pare a leitura desse texto, acesse o aplicativo de música presente no seu telefone e escute. O texto não sairá daqui.

Pronto, letra completa e melodia muito boas essa canção nos apresenta e agora que já estamos ambientados, esse trecho pode servir para construir uma relação com a ideia de Schopenhauer de que somente a partir do caráter adquirido poderemos deixar de fazer parte da uniformidade humana.

Quando Bolsonaro, no ano passado, mais especificamente em 26 de abril, publicou em seu perfil no Twitter que

“A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.”


pode-se entender que para ele o básico da educação é suficiente. Não é novidade, já é lugar comum que as humanidades não são aceitas pelo presidente, mas vamos avançar e ver como Schopenhauer pode nos oferecer uma chave de leitura interessante sobre isso tudo.

Somos uma massa uniforme, sendo que essa uniformidade se apresenta e nos rege desde as vontades atreladas a espécie até o que fazemos na vida social. Vivemos a partir de uma repetida busca pela satisfação da fome, da sede, do sono e afins; também pensamos, queremos o que é comum, o que é banal, o que é do cotidiano.

É nessa situação que o pensamento filosófico é potencialmente transformador. A partir do momento que as vontades da espécie são pensadas e o automatismo da vida em sociedade é desnaturalizado, podemos viver com maior autoconhecimento, uma vez que entraremos em contato, de forma consciente, com as nossas inclinações, com as nossas habilidades, com a potência do que podemos pensar, fazer e aspirar para nós.

O autoconhecimento e a desnaturalização impedem que as pessoas se tornem seguidoras de outras, asseclas acéfalos que aceitam a ordem (desordem?) social e os sofrimentos que as desigualdades engendram como se fossem parte de um plano maior com objetivo de uma eternidade que não se sabe existente (ou não existente), mas que essa promessa permite a perpetuação de misérias inomináveis.

No entendimento de Schopenhauer, existem ídolos os mais diversos. Fazendo uma transposição para a contemporaneidade, ídolos esportivos, ídolos morais, ídolos do mundo do entretenimento, ídolos políticos. Como resultado da falta de caráter adquirido no que se refere ao autoconhecimento, como não entramos em contato com nossas inclinações, paixões, habilidades, inapetências, não realizamos os esforços exigidos nesse processo.

É como se, por não encararmos o que temos em nós, em termos de potencialidades e fragilidades, vontades e desejos, entregássemos tudo para esses ídolos porque esses ídolos encarnariam os méritos que não temos. Não teríamos do que nos orgulhar, por assim dizer, então, por isso, nos orgulhamos dos ídolos por tudo que eles aparentam ser ou ter (no que se refere às qualidades).

No caso específico dos ídolos políticos, o Bolsonaro sendo um deles (mas pode ser qualquer um), ele se enquadraria no esquema teórico do Schopenhauer posto que é uma representação dessa uniformidade humana, do que é o humano comum, que vive em função da satisfação das necessidades básicas, encarnando o comportamento em série e, por assim dizer, “de manada”.

Anatemizar a filosofia é o caminho para garantir que mais pessoas sejam mantidas inertes no âmbito do caráter da espécie e do caráter individual, essa manutenção permite a perpetuação da idolatria, o sacrifício da própria vida, inclusive, agradecendo por esse messias existir e estar entre nós.

É, assim entendemos porque a filosofia é tão inútil e paradoxalmente perigosa.

TEXTO PUBLICADO EM

Referências:


HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Tradução de Carlos Henrique Pissardo. São Paulo: Editora Unesp, 2015b.

LAZARINI, Lucas. A atualidade de Schopenhauer, de Max Horkheimer. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S.l.], v. 9, n. 2, p. 190-208, dez. 2018. ISSN 2179-3786. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/36126>. Acesso em: 02 abr. 2020.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tomo I. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria de vida. Tradução Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Semana de entrevistas no TVPE no Ar!




quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A PORNOGRAFIA COMO FATO SOCIAL ou "OH, YES! OH, YES!"

A imagem acima pode ser lida para além da ideia de sociedade do espetáculo: mostra como os sites de pornografia educam as formas de praticar sexo em nossa sociedade.
———
Pornografia pode ser pensada a partir do conceito de fato social, definido por Émile Durkheim como formas coletivas de pensar, de sentir e de agir. Tem a ver com a manutenção da ordem social, com a reprodução de determinadas visões de mundo.
———
O pornô, assim pensado, “educaria” quem assiste no q tange a como realizar o ato sexual. Alguém pode reagir dizendo q não. É quando chamo atenção para o fato de q uma forma de aprendizado se dá pelo espelhamento, ou seja, copiando a maneira como algo é feito.
——
Pense agora em adolescentes cheios de hormônios e especificamente nos garotos , educados para se mostrarem, podendo tocar nas suas “partes de menino” e a tratarem as meninas (futuras mulheres) como objetos para sua satisfação, tal qual nos pornôs q sempre terminam quando o homem ejacula.
——
No caso do homem adulto, esses filmes reafirmam o local de aparente supremacia e dominação q lhes são inculcados. Para as mulheres fica o modelo de gemidos, de posições, de depilação para atender ao desejo do patriarcado, sendo este entendido como um conjunto de ideias q legitima a posição social de superioridade do masculino.
——
Há estudos q indicam q pornografia produz mais sensação de prazer q o ato sexual, o q levaria quem assiste a buscar cada vez intensidade, o q deságua em gêneros de pornô q simulam (simulam ou infligem?) estupros - coletivos, inclusive. (Não teriam servido de exemplo/inspiração para o caso do estupro coletivo noticiado no Rio de Janeiro?).
——
Ainda segundo pesquisa, o termo mais procurado em sites pornôs no Brasil é “novinha”, seguido de “homem negro” ou “negão”. O q isso parece revelar: pedofilização e objetificação do corpo de pessoas negras.
——
Mais do q uma questão de moral, pornografia é questão de saúde pública, de saúde mental.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Do rídiculo ao ódio como política de Estado: por que Bolsonaro?


Pensando em uma proposta do tipo “assista antes de votar”, o episódio da série Black Mirror “The Waldo Moment” estaria, sem dúvidas no topo da lista de sugestões. O olhar distópico que a série propõe lançar sobre a realidade é sempre útil para refletir sobre processos sociais. No episódio em questão, Waldo materializa a ideia de um político herói que, em oposição a figura “sem graça” dos políticos tradicionais, cria um discurso de fácil assimilação que consiste basicamente em atacar de forma agressiva e barulhenta a oposição para em seguida apresentar esse discurso como “humor” e/ou “excesso de sinceridade”. Assim, os ataques misóginos, racistas, homofóbicos, xenófobos e que envolvam todo tipo de discriminação que se possa imaginar, são vendidos como “piadas”, ou como “coragem de falar o que se pensa”. Na série, Waldo não apresenta propostas para nada – é um personagem político “fake”, cuja candidatura visa apenas fins mercadológicos e de entretenimento. No entanto,  o discurso  de Waldo acabado sendo “comprado” por pessoas que, paradoxalmente, se dizem contra políticos tradicionais, que seriam apresentariam uma imagem “fake” de si mesmos para conseguir votos.  A partir da figura de Waldo e da situação contraditória gerada por ele, a série britânica faz uma crítica ao processo de estetização da política, que cria personagens políticos cujas falas e ações são meramente performáticas, ou seja, que criam espetáculos sociais no lugar alternativas políticas reais.



A política é um fenômeno social, e como tal, muda à medida que mudam as sociedades. Na era da espetacularização de basicamente todos os aspectos da vida humana, a estetização da política criticada por Black Mirror se aproxima muito mais da realidade do que de uma distopia. O conceito de “ridículo político”, analisado por Marcia Tiburi, aborda a política a partir da publicitarização que reduziu sua práxis à representação vazia de conteúdo, em que a imagem produzida para ser consumida como mercadoria importa muito mais do que a coerência do discurso produzido. Sobre esse conceito, Tiburi (2017, p. 10) escreve que

As cenas do que chamei de Ridículo Político fazem parte da vida pública e correspondem a uma estetização curiosa da política (ou de uma certa forma de fazer política que se tornou tendencial) que vive da manipulação
da imagem e da produção de inverdades de todo tipo. O que chamei de “esteticamente correto” é o disfarce do ridículo, o esforço para estar na linha do padrão estético, que invade as relações em nível micro e macropolítico. O esteticamente correto se dá em cumplicidade com toda uma cultura de naturalização do ridículo na qual estamos submersos.


Não é difícil perceber as semelhanças entre o conceito filosófico de “Ridículo político” e as ações de Bolsonaro, assim como as do personagem com a personalidade do deputado, que ainda consegue inovar em um aspecto: aparece com soluções simplistas e imediatistas para problemas que ganham rápida repercurssão social, como o problema da segurança pública – ainda que seja, pra dizer o mínimo, incoerente para alguém que passou anos no Congresso Nacional sem apresentar nenhuma proposta viável para todos esses problemas, de repende possuir todas as soluções que irão magicamente resolvê-los. Diante disso tudo, resta entender: o que motiva a escolha Bolsonaro?

A popularidade da figura política de Bolsonaro é baseada em dois aspectos principais: na ostentação de uma fala abertamente favorável a ações violentas, como tortura e assassinato político, e na defesa da repressão absoluta de tudo aquilo que seja desviante do modelo de cidadão branco, heteronormativo, cristão e possuidor de poder aquisitivo. O apelo discursivo de Bolsonaro, portanto, é de cunho moralista. Essa é uma característica importante de se destacar, pois envolve um processo de negação como forma de afirmação. A contradição é apenas aparente, pois, ao negar algo ou alguém, implicitamente aponta-se para si mesmo como o contrário do que foi negado, e é por isso que o apontamento negativo se dá sempre contra o outro, e nunca para si mesmo. Dessa forma, ao apontar o outro como imoral, aponta-se para si mesmo como exemplo de moralidade, pois, nesse raciocínio, a autoridade acusatória só pode ser conferida a quem ocupa a posição “moralmente desejável”, o que leva a percepção de que a primeira motivação para o discurso moralista é o ego. Uma personalidade egocêntrica tende, por sua vez, à rejeição radical de tudo aquilo que diverge de si, seja essa divergência de aspecto ideológico, comportamental, religioso, cultural, etc, o que caracteriza uma postura autoritária.

Como já disse Jessé Sousa, a classe média brasileira, que se autoproclama a representante da moralidade e dos chamados “cidadãos de bem”, usa essa moralidade de maneira convenientemente seletiva fazendo “vista grossa” diante da corrupção dos setores representantes do status quo brasileiro, quando não defendendo essa corrupção seletiva abertamente (quem não se lembra dos cartazes equiparando sonegação de impostos à legítima defesa?). Para o sociólogo, essa legitimação seletiva da corrupção é um reflexo do ódio de classe que esses setores sociais ostentam, ódio esse que está ligado à mentalidade escravista que ainda permanece na sociedade brasileira, até então reprimida e agora exposta viceralmente nas ações e nos discursos, potencialmente ou abertamente, fascistas.

Aqui se volta ao processo de formação da socidade brasileira, marcado por mais permanências do que rupturas com a lógica colonial, e que perpetua até hoje os aspectos mais violentos das “mentalidades Casa Grande”: o desejo de segregação social da “ralé brasileira” (retornando mais uma vez à Jessé Souza para tomar emprestado o conceito criado por ele) e a extensão dessa segregação às estruturas do Estado e do sistema jurídico.

Nesse sentido, é válida a percepção de que as ideologias, entendidas como o conjunto de ideias socialmente construídas que estruturam as formas coletivas de percepção e apreensão do mundo, influenciam a produção de sentimentos – sendo importante ter em mente a diferença entre sentimento e emoção: sentimentos são produtos culturais e estão associados às formas como fomos ensinados a reagir diante das diversas situações que se apresentam no meio coletivo, como ciúme e ódio, enquanto que as emoções existem naturalmente como reações biológicas a situações externas, como se dá quando experimentamos o medo diante de um perigo. Assim, observa-se que predomina no cenário político atual o uso do discurso de ódio como um instrumento de construção do sentimento de ódio, sentimento este que está ligado ao desejo de reprimir e perseguir a oposição, e que é legitimado ideologicamente a partir do discurso da moralidade que normalmente acompanha o dicurso de ódio.

Ao pensar sociologicamente sobre esse processo, é fundamental a compreensão de que as mentalidades e os comportamentos de indivíduos que vivem em sociedade são permeados por relações de poder e que essas relações incluem o poder de criminalizar indivíduos. Ou seja, nas sociedades, a definição de criminalidade não existe naturalmente, mas perpassa o poder de atribuição de status. Status, em sociologia, significa a condição socialmente construída a que o indivíduo se encontra submetido, ou a posição social que ele ocupa, tendo sido esse conceito desenvolvido por Max Weber para analisar como pertencimento social, prestígio e poder se estruturam na sociedade. Assim, a atribuição do status social de criminoso é dada por quem detém, na sociedade, poder. Como consequência, a construção dessa condição social pode servir a interesses específicos dos grupos que detêm o poder para a obtenção de quaisquer objetivos que sejam desejáveis a esses grupos, inclusive objetivos políticos.

É por esse motivo que o apontamento da incoerência, da falta de qualquer tipo de consistência e até mesmo de  mentiras na fala de Bolsonaro não surte nenhum efeito sobre a imensa maioria dos seus eleitores: porque não se trata de política em si, mas de sentimentos. Quando se mostra que o deputado representa muito mais da velha política do que qualquer outra coisa, que passou anos usufruindo do salário e dos benefícios de deputado sem praticamente fazer nada no Congresso, que não apresenta projeto de governo nenhum e que se nega a debater sobre qualquer coisa – deixando óbvio seu despreparo para ocupar não só a presidência da república, mas qualquer cargo político – o que se observa é que tudo isso simplesmente pouco importa para quem apoia o que ele representa. Pouco importa o fato de que Bolsonaro esteve no PP, partido que ocupa o topo da Lava Jato em número de políticos investigados, ou o fato de que ele fale em “bandidos de estimação” quando recebeu dinheiro de propina da JBS através do partido e ainda tenha tentado justificar o ato indagando “qual partido que não recebe proprina?” e  tentou uma aliança política com o PR, partido cujo líder foi condenado pelo envolvimento com o mensalão e que tem vários deputados investigados pela Lava-Jato.

Os fatos não importam porque o que se busca no discurso de ódio não é a verdade, mas a legitimação da violência de quem já tinha o desejo por ela reprimido em si. O que a fala e a própria figura de Bolsonaro representam é a legitimação de todos os racismos, homofobias, machismos, facismos e ódio de classe que, se antes não se mostravam porque “pegava mal”, agora encontram o cenário construído para se mostrar sem o mínimo pudor. A recusa a qualquer pensamento baseado na lógica ou até mesmo no bom senso mais básico se dá porque o discurso de ódio não atinge a racionalidade civilizacional, mas sim os afetos políticos do indivíduo, afetos esses que estão ligados ao desejo de aniquilamento de tudo aquilo que é em algum aspecto desviante do que se considera moralmente aceitável (mesmo quando essa moral é questionável, afinal de contas não estamos tratando de coerência entre ação e discurso, mas de sentimentos reprimidos). Assim, para que o discurso de ódio seja eficiente, é necessário que se evite ao máximo possível o confrontamento com qualquer argumentação minimamente racional.



















Um dos grandes problemas dessa lógica discursiva é que, em regimes políticos autoritários, como os que são elogiosamente defendidos por Bolsonaro, o status social de criminoso pode ser atribuído arbitrariamente à qualquer um que questione de alguma maneira ou que represente de alguma forma um obstáculo para a efetivação dos interesses do poder instituído. Historicamente, regimes autoritários transformam todo discurso de questionamento da ordem em crime e os indivíduos que sustentam esses discursos perdem seu nome, passando a ser chamados de “terroristas”, “bandidos” ou “subversivos”, em um processo de apagamento de qualquer identidade subjetiva para o enquadramento em uma categoria política. A partir daí o que ocorre é o uso sistemático da violência como política de Estado, através da racionalização do processo de repressão e aniquilamento dos chamados “inimigos do Estado”.


Foi esse o processo colocado em prática pela Ditadura Militar brasileira, implantada a partir de 1964. A partir da criação de um poderoso aparato de coleta de informação, o governo militar desenvolveu uma logística de matar pessoas que se mostrou uma das mais eficientes. O funcionamento da tortura e do assassinato como política de Estado envolveu a captação de recursos financeiros fornecidos em boa parte por empresários, a sistematização de métodos de desaparecimentos de mortos políticos, a partir da queima de corpos, da retirada da arcada dentária e de digitais, impossibilitando a identificação, e o desenvolvimento de técnicas de tortura que permitissem infligir a maior dor física e a maior agonia psicológica possível sem matar, de modo a aniquilar qualquer capacidade de resistência da oposição. Ao contrário do que se pensa, a violência da ditadura não se direcionou apenas aos grupos que optaram por recorrer à resistência armada, mas à qualquer indivíduo a quem fosse de interesse do governo militar atribuir o status de inimigo do Estado. Sobretudo durante o processo de colonização - que promoveu a exploração de recursos naturais por empresas privadas em territórios ainda pouco povoados - fez-se necessário o controle e a eliminação de grupos sociais locais das áreas de interesse (áreas para empreendimentos de agropecuária, mineração e corte de madeira). Lilia Moritz Schwarcz (2015, p.463) escreve sobre o “Relatório Figueiredo”, o mais importante documento que relata a ação da ditadura sobre tribos indígenas, que

O resultado é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda a sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas brasileiros por proprietários de terra e por agentes do Estado. Figueiredo fez um trabalho de apuração notável. Incluiu relatos de dezenas de testemunhas, apresentou centenas de documentos e identificou cada uma das violações que encontrou: assassinatos, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Seu relatório denuncia – e comprova – a existência de caçadas humanas com metralhadoras e dinamite atirada de aviões, inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e doações de açúcar misturado a estricnina

Além das populações indígenas, existe uma vasta documentação que comprova a mesma lógica operacional de tortura e genocídio contra sem-terras, mineradores e comunidades ribeirinhas. Vale ressaltar que esses eram indivíduos que não possuíam quaisquer ligações com comunistas ou com grupos de oposição esquerdistas. Esses exemplos demostram a contradição da lógica de “perseguição do inimigo” presente no discurso de Bolsonaro: em sistemas autoritários, quem define quem é o inimigo? O que se observa, portanto, é a construção da ideia de um inimigo que serve aos interesses de quem detém poder.

Partindo desse raciocíonio, levanta-se uma outra questão: em regimes democráticos, discursos pró-ditadura devem ser aceitos, em nome da liberdade de expressão? A liberdade deve ser limitada em um regime que a tem como seu fundamento mais básico? Não existe solução simplista nos processos democráticos, e a resposta para esse impasse não foge a essa regra: sim, as liberdades devem ter limitações em regimes democráticos, e essa resposta não pode ter a pretensão de apresentar uma solução simples para esse problema complexo. Nenhum sistema que tem como fundamento estrutural a garantia de liberdades pode admitir uma liberdade absoluta, pois que o uso dessa liberdade pode, em algum momento, ameaçar a própria democracia e o seu fundamento básico. Em outras palavras, entende-se que a ideia de uma liberdade ilimitada pode – e em algum momento vai, a história não permite discordar –  gerar situações em que as liberdades democráticas podem ameaçar a existência da própria democracia e das liberdades instituídas por ela. As liberdades, pois, devem existir até o limite em que não ameacem a Lei-Maior que estabelece os princípios que permitem a democracia existir enquanto tal.

Nessa perspectiva, pensando a partir das teorias política e ética de Immanuel Kant, filosófo iluminista, percebe-se que, para ele, na organização da vida em sociedade, o indivíduo tem a sua liberdade limitada pela ação reguladora e pelo aparato jurídico do Estado, exercida através das suas instituições, e seria dentro dessas condições que a liberdade individual deveria ser exercida. Kant aponta que cada indivíduo só pode exercer a liberdade que reconhece igualmente a todos os outros, de modo que essa prática é ela mesma uma solução para as contradições da vida em sociedade. Consequentemente, a liberdade é limitada pelas leis civis instituídas a partir do contrato social, não se confundindo, entretanto, com a obediência alienada e inquestionável, mas sim com a possibilidade de reflexão crítica, inclusive da crítica sobre o próprio Estado, desde que em conformidade com o poder normativo democrático. Agir segundo esse princípio seria, do ponto de vista da ética kantiana, uma ação por dever, e este dever ético estaria, por sua vez, fundamentado na garantia da dignidade dos seres racionais que, fazendo uso de sua liberdade, instituem leis a si mesmos.

Percebe-se, a partir daí, que uma outra característica da democracia é a legitimidade do conflito de ideias, isto é, a aceitação da falta de consenso entre grupos que convivem em sociedade. A democracia, portanto, incorpora a negociação dos impasses sociais, de maneira que nenhum grupo possa impor a todos os outros seus desejos, mas que, a partir do diálogo e da negociação, se possa abdicar de algumas das vontades particulares em prol de projetos de sociedade que contemplem a coletividade social. Seria a aplicação de uma lógica próxima da Justa Medida aristotélica do “nem tanto, nem tão pouco”, uma vez que os diversos grupos de indivíduos nem poderiam impor totalmente seus desejos aos demais, nem precisariam abrir mão de absolutamente todos esses desejos em função de outros. Ao observar, portanto, a fala de Bolsonaro de que “minha proposta é defender direitos da maioria e não da minoria. (...) as minorias têm que se calar, se curvar à maioria”, percebe-se que ela reflete uma postura absolutamente antidemocrática. Porque, então, se diz que Bolsonaro defende ideias fascistas? Porque regimes fascistas não admitem a discordância de pensamentos. Nesses regimes, é imposto um conjunto de ideias e um projeto de sociedade que passam a valer como verdades incontestáveis, sendo qualquer divergência reprimida a partir do uso, ou da ameaça de uso, da violência.

Com base nisso tudo, a conclusão é a de que em qualquer sociedade que se pretenda verdadeiramente democrática, não pode haver espaço para o discurso pró-ditadura, para o discurso que fala abertamente em quebra das regras democráticas, em “metralhar” a oposição política e em reprimir minorias sociais. A escolha ou a recusa à Bolsonaro, portanto, vai muito além da recusa ou escolha de um partido político, trata-se do modelo de sociedade que as consciências individuais desejam. Resta apenas a sua reflexão, leitor que chegou até o final desse texto, sobre qual lado sua consciência está e, muito mais do que isso: qual o preço que você está disposto a pagar pela sua escolha – ou pela sua recusa?
===============================
Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM