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ARTIGOS

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A ESPETACULARIZAÇÃO DO SENSO COMUM E A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA


Freud, ao pensar a civilização como aquilo que diferencia o ser humano dos outros animais - não fazendo distinção, portanto, entre civilização e cultura - afirma que o mal-estar é uma realidade inevitável de todo indivíduo que vive em sociedade. A vida social implicaria, para ele, uma série de proibições repressoras de instintos e desejos naturais. Pensando a partir da perspectiva da própria vida em sociedade e das contradições que ela produz, sobretudo na era da superexposição que a revolução tecnológica proporcionou, é possível estabelecer uma relação entre uma vazão excessiva de pulsões relacionadas à violência, e até mesmo a um certo grau de sadismo, e a construção de discursos sociais que naturalizam ações violentas.
Para estabelecer essa relação é fundamental, ainda, a compreensão do indivíduo a partir dos elementos sociais que o constituem. Um dos aspectos que definem o caráter humano é a capacidade de pensamento, ou como diz Gilberto Gil na letra da música, “pensamento, mesmo, fundamento singular do ser humano”. Mas foi a partir do momento que o homo sapiens começou a refletir sobre a realidade ao seu redor, ou seja, a partir do momento em que o homem foi capaz de atribuir significação simbólica à sua realidade, e a comunicar essa significação a outros, que a nossa espécie abandonou o reino da natureza e passou a viver o mundo da cultura. No entanto, essa significação e sua comunicação só é possível através de um conjunto de símbolos, e a esse conjunto de símbolos damos o nome de linguagem. O conhecimento humano, portanto, nada mais é do que uma construção de sentidos que só é possível através da linguagem. Nessa perspectiva, a linguagem faz parte da estruturação do indivíduo enquanto sujeito, uma vez que só podemos construir qualquer significação sobre qualquer coisa a partir do momento que damos um nome a essa coisa, ou ainda, como pensou o linguísta Benjamin Lee Whorf, “a linguagem não é apenas o modo como uma pessoa se comunica, mas como constrói a casa da sua consciência”.
No entanto, as sociedades humanas são mediadas por relações de poder, seja o poder no âmbito no macrofísico, ou nas relações de dominação que se estabelecem no âmbito do microfísico, observadas e teorizadas por Foucault. Assim, pode-se pensar que quem detém os meios de construir e disseminar discursos, ou seja, quem domina a produção da linguagem, detém poder. Somando-se isso à capacidade de disseminação em massa de informação de forma muito rápida e à mercantilização que o Capitalismo estendeu a todos os elementos da vida social, o resultado foi um fenômeno que prejudica a assimilação crítica e a reflexão autônoma acerca dos fatos do cotidiano: a espetacularização do senso comum.
Sociologicamente, o espetáculo consiste em um conjunto de relações sociais mediadas pela construção de sentimentos a partir da apresentação espetacularizada e ilusória de algo. Associa-se esse conceito, geralmente, à produção de imagens, no entanto, também no âmbito dos discursos ocorre a produção de espetáculos. Dessa forma, os discursos sociais assumem também uma característica mercadológica, na medida em que buscam “vender” uma ideia, ou ainda, um modo específico de entendimento da sociedade, da política, das leis, etc. A partir daí, ganham visibilidade e repercurssão os discursos do senso comum, que passam a aparecer de forma espetacularizada através de comentários em redes sociais, de videos compartilhados nas mídias e de postagens que são exibidas de forma polemizada e repetidamente compartilhadas e curtidas. Conceitua-se senso comum como uma forma de entendimento da realidade que, diferentemente do senso crítico, se baseia em uma percepção superficial e imediatista, dispensando a reflexão aprofundada, não se preocupando com o rigor lógico e conceitual das ideias emitidas. Considerando, ainda, que o aumento progressivo da disponibilização de informações não implicou o aumento da capacidade humana de assimilar qualitativamente essas informações, é estimulada uma percepção parcial das informações cotidianas. A partir disso, passou a permear na vida social, e mais fortemente nas redes sociais, a legitimação de ideias baseadas no senso comum para tratar de questões sociais e políticas complexas. Desse modo, não é preciso nenhuma reflexão crítica, estudo ou análise intelectual porque se convencionou a emissão de opinião baseada em achismos e em reducionismos simplistas.
Nesse sentido, o conceito de Indústria Cultural, criado por Adorno e Horkheimer, auxilia o entendimento da repercurssão exarcebada que o uso do senso comum vem tendo nos espaços sociais, sobretudo nas mídias virtuais, pois evidencia o aspecto de mercadoria da produção de pensamentos. É preciso que as ideias sejam “vendáveis” para que possam ser consumidas de forma massificada e rápida, o que implica a necessidade de tornar as ideias facilmente assimiláveis a partir da retirada de qualquer caráter crítico e questionador. Como consequência, o senso comum, apresentado como espetáculo para ser consumido, não é informativo, mas um conjunto de raciocícios rasos e intelectualmente problemáticos – quando não simplesmente absurdos – transmitidos para serem reproduzidos de forma passiva, muitas vezes a partir de palavras de ordem e de trocadilhos de memorização fácil.
É essa a lógica discursiva que fabricou o discurso de ódio que permeia praticamente todas as esferas da vida em sociedade - e que serve inclusive a políticos que constróem sua popularidade em cima dele – e transforma ações violentas em elementos cotidiados banalizados. É este, então, o ponto central da reflexão desse texto: a construção do discurso de ódio, a partir do uso do senso comum, como instrumento ideológico que legitima o uso da violência. É fundamental, para entender os acontecimentos polêmicos recentes envolvendo discurso de ódio e política - que foram desde parlamentares incitando mais massacres em prisões, passando por homenagens em rede nacional a estupradores sociopatas e por chamadas para “metralhar a petralhada”, até a tentativa de assassinato de candidatos à presidência da república – o uso do discurso de combate a um suposto “mal social” na construção do sentimento de ódio para justificar a retirada de direitos, a repressão total e até mesmo a execução de pessoas ou grupos sociais politicamente distoantes.
O que se observa, a partir dessa lógica, é a busca pela sensação de prazer proporcionada pela aplicação de “castigos” com requintes de crueldade, pelo linchamento exibido de forma espetacularizada e pela fetichização da tortura, por meio da transferência do poder de aplicação de punição do Estado para qualquer um que se disponha a aplicá-la em nome do chamado cidadão de bem. O discurso de ódio expressa o desejo de que, entre a acusação da prática um crime e a aplicação de uma punição o mais violenta possível, estejam dispensadas quaisquer garantias legais, uma vez que as mesmas tornam-se meras inconveniências para quem deseja satisfazer o desejo imediatista de vingança pessoal. Não é mais necessário se reunir em um coliseum para assistir ao espetáculo da violência contra indivíduos rotulados como barbáros, ou se deslocar para apreciar a morte na fogueira de indivíduos considerados subversivos, basta assistir à tortura punitivista pela tela do smarthphone.
Todavia, o que o reducionismo simplista do senso comum que está na base do discurso de ódio distorce é a percepção de que, por desconsiderar a profundidade das causas dos problemas estruturais da sociedade brasileira, já que recusa o uso da reflexão crítica, dá apenas uma ilusão de solução, tendo na prática o efeito contrário. Para além de uma concepção maniqueísta de Justiça social, sociedades que se pretendem democráticas só encontram as soluções para os seus problemas na radicalização da própria prática democrática. Qualquer alternativa que se baseie no discurso de que é necessário “tomar medidas antidemocráticas para salvar a democracia” vai sempre tender a um totalitarismo que só serve para alimentar o próprio sistema, sistema esse que lucra com a violência que se abate sobre todos – sobre uns mais do que sobre outros, mais ainda assim, que atinge a todos em alguma medida. No final das contas, retornando a Freud, a sensação de satisfação das pulsões sádicas mais reprimidas em prol da existência da Civilização é sempre efêmera, e até mesmo os maiores disseminadores do discurso de ódio acabam sendo engolidos pelas contradições do discurso que defendem.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

terça-feira, 11 de setembro de 2018

ESQUEMA MONSTRO - ESTRUTURA SOCIAL E RACISMO

Pensar com a sociologia (bauman) implica observar o mundo ao redor e atravessar o olhar para além do que a vista alcança. É aplicar conceitos sociológicos para desnaturalizar e estranhar a aparente ordem social.

Uma forma de pensar o racismo é através do conceito de estrutura social. O Esquema Monstro mostra isso: de uma definição de estrutura social e os fatores que a compõem podemos entender como o racismo é estrutural na sociedade brasileira, o que serve para ampliar as possibilidades de intervenção, uma vez que se deixa de lado o racismo como forma de exclusão social praticada por indivíduos mas sim como parte de uma estrutura que se fundamenta nessa forma de exclusão cujos indivíduos são agentes de reprodução de algo maior e histórico.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

CARACTERÍSTICA DA IDEOLOGIA – INVERSÃO DA REALIDADE


- Caracteriza-se como inversão da realidade o entendimento do que acontece socialmente que inverte a relação entre causas e consequências. Considerando ideologia como o conjunto de ideias que compõem nossas formas de pensar, de sentir e de agir – individual e coletivamente -, ocorre a inversão quando a origem da realidade é entendida como produto (valendo também o contrário).

- exemplo: quando se trata da questão agrária no Brasil e se afirma que é por causa da ação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra que aumenta a violência no campo. A inversão ocorre porque o acúmulo de latifúndios sem função social é produtora de violência, quando reduz a possibilidade de usufruto do direito à terra e à moradia – estabelecendo uma forma de violência contra a dignidade humana.

- agora é com você: observe o mundo ao seu redor e tente identificar as várias situações em que ocorre a inversão da realidade. Pode ser tenso e ao mesmo tempo divertido e libertador.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

SENDO FIEL A SI - A DOR DE SER O QUE É: A FILOSOFIA E A IMPORTÂNCIA DO AUTOCONHECIMENTO

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é “. Será? Colocar em dúvida o trecho da canção Dom de iludir, imortal na voz de Caetano Veloso, causa estranhamento. Se observarmos ao redor e prestarmos atenção nas conversas de muitas pessoas, esse pretenso saber de si é repetido muitas vezes em frases como:

- (…) porque eu sou assim...
- (…) ah, meu filho, eu me conheço...
- (…) aaaah, se fosse comigo ia ver, porque eu sei como eu sou e...

Mas, se pudéssemos averiguar a vida dessas pessoas que tão fortemente esbravejam esse autoconhecimento, talvez (talvez mesmo?) nos decepcionássemos com as contradições apresentadas.

Quem falou que “mandaria a esposa embora”, não mandou; quem esbravejou que “chutaria o balde e pediria demissão do emprego”, continuou empregado e quem disse que “tocaria o terror” ficou foi intocada num canto escondida e aterrorizada.

Se pudéssemos nos aproximar dessas pessoas nessas situações e lembra-las do que disseram antes, é quase certo que ouviríamos uma outra frase célebre:

- Ah, mas aqui foi diferente!

Ou a pessoa inquirida seria acometida pela terrível e maldosa amnésia de ocasião, também chamada de “dando o perdido”, “se fazendo de besta” ou “fazendo o ‘migué’”. Terrível mal essa amnésia de ocasião. Pois bem, cuidemos da vida e adiantemos a leitura.

Alguém vai gritar que é hipocrisia, que essas pessoas são hipócritas como todas as pessoas na terra. Hipocrisia pode ser entendida como a ação que é contrária ao que se fala.

Hipócrita é a pessoa que diz uma coisa e faz outra. Por essa perspectiva, seu pai, sua mãe e outros adultos seriam todos hipócritas quando repetem a frase: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!” (poderíamos complementar: “quando nem eu faço o que eu falo!”), em situações do tipo quando mandaram você dizer para o amigo de seu pai que ele não está em casa, estando.

A hipocrisia também é parte de reflexões filosóficas, mas que não trataremos aqui, por enquanto vamos utilizar essa ideia para abordar a questão do autoconhecimento e suas possibilidades.

Com certeza todos conhecemos pessoas que agem assim, mas, sabemos que também agimos assim? Ou, mais intenso ainda: aceitamos que também agimos assim?

Pois bem, aqui cabe outro questionamento: sua vida está sendo bem vivida? Mas não responda com os clichês básicos e eternos, repetidos aos quatro ventos. Não quero respostas tipo:

- Sim, tenho saúde e paz, o resto eu vou atrás!
- Com a graça de Deus e como Ele bem permitir!

No caso desta última, não estou negando o poder ou a existência de deus ou de quaisquer divindades, apenas peço que afaste esses elementos cotidianos e superficiais que usamos quando nos perguntam sobre a qualidade da vida que temos.

COM VOCÊS, SÓCRATES!

Aqui temos Sócrates, divisor de águas na história da filosofia, que reivindicou a importância da vida refletida, da vida inquirida, da vida problematizada. Mas não são questionamentos rasos, são perguntas basilares para que nos sejam expostas as aparências do mundo que são colocadas como substitutas do que as coisas são.

Seria algo assim: pense numa grande cortina que estivesse sobre todo o mundo e sobre o que tem nele. Essa grande cortina, entretanto, não embaça a sua vista de forma efetiva, mas cria imagens que ficam por cima do que está no mundo.

Como toda cortina, expõe uma parte do que está do lado de fora. Pode ser que, por curiosidade, espiaremos ou ignoraremos. Em nível hard, abriremos a cortina e deixaremos a luz entrar.

A questão é que o que está do lado de fora pode não ser o que pensávamos – isto seria a estampa da cortina. Pense assim: a ideia que temos de justiça pode não ser, efetivamente, justa, mas o que foi estampado na cortina e, o que foi pintado, corresponde ao que acreditamos ser a realidade.

Agora estenda essa ideia de cortina para você. Se nós estamos no mundo e tudo o que há no mundo está coberto pela cortina estampada, então nós também nos vemos por essa estampa na cortina. Isso quer dizer que o pretenso autoconhecimento também é um autoconhecimento que está ligado – e muito – ao que é aparente, ou seja, superficial.


Daí a dificuldade de percebermos as contradições entre o que pensamos, falamos e o que fazemos, as nossas atitudes. É quando gritamos hipocrisia apontando para as outras pessoas e as outras pessoas apontam para nós e umas contra as outras. Há, então, não uma hipocrisia generalizada, mas uma percepção aparente e generalizada sobre quem se é.

Pelo método de Sócrates, temos que problematizar essa percepção, questioná-la. Arregaçar a cortina para enxergar o que está do lado de fora, no caso, dentro de nós. Importante ter em mente que, da mesma forma que as ideias, quando questionadas, podem revelar equívocos e interesses que entram em conflito com o que pensamos, o que podemos descobrir sobre nós pode – e geralmente é – desagradável.

Como tendemos a fugir do que não é prazeroso, não queremos saber, ter contato com que essas verdades sobre nós. Mas elas não só estarão lá como seguirão arranhando a parede que as prende, a parede que as cerca e impede de sair.

COM VOCÊS, JUNG

Aqui aproximamos Sócrates de C. G. Jung e o que este designou como sombra. Podemos conceituar, de forma introdutória, sombra como sendo aqueles aspectos de quem somos, de nossa personalidade que estão, por assim dizer, escondidos de nós, no nosso inconsciente – para usar um termo mais técnico. Essa sombra não é ruim, tampouco deve ser entendida como boa, mas pode ser entendida como potencialidade e, como toda potencialidade, pode expor muita coisa.

Sabe aquela sabedoria popular que afirma que todo mundo tem um lado ruim? Pronto, vamos pensar a sombra a partir dessa perspectiva, mas vamos entender esse lado ruim fora da dicotomia bem X mal. Esse lado ruim seria o que está oculto e está oculto por ser desfavorável de alguma forma para nós. Pense da seguinte maneira: durante a história da sua vida você foi educada/o de maneira a se comportar mais de uma forma e foi levada/o a reprimir outra, considerada ruim. O que foi reprimido não sumiu, mas foi “trancado” no porão, no caso, no inconsciente.


Pense que consciente e inconsciente são um par e sendo um par atuam (ou deveriam atuar) juntos, o que não acontece de maneira plena. Se colocamos aspectos de nossa personalidade no “porão”, esses aspectos compõem o que somos e vão buscar a saída, uma espécie de reconciliação, uma retomada da dança que foi interrompida em algum momento.

A frase “eu sou assim”, a partir da perspectiva de Jung, deve ser entendida como “eu me mostro assim”, ou seja, é como se fosse uma máscara (persona) que forma a nossa personalidade para que possamos viver no mundo resistindo ao que nos faz sofrer e convivendo com as outras pessoas. A questão, porém, vai além da proteção contra o mundo no que ele tem de ofensivo ou do que é necessário para viver nele.

Essa máscara (persona, personalidade) nos esconde nossa sombra e, vez ou outra, (muitas vezes) essa indesejada meio que “empurra a porta” nos mostrando o que queremos esconder, o que temos vergonha e mesmo medo de admitir. Talvez aquela “bad” que nos toma seja essa sombra “vazando” pelas brechas do inconsciente na direção da luz, do consciente.

E COMO ISSO ACONTECE?

Sabe quando você tentou se relacionar com alguém, mas nunca conseguiu, sempre deu errado, você tem o famigerado “dedo podre”, só aponta para o ruim, para o que não presta? É provável que sua fúria tenha se voltado para as pessoas que foram ruins com você. Pois bem, essas suas escolhas podem ser parte de sua sombra “vazando”.

Essas escolhas, quase idênticas, compõem um padrão. Se você é conhecido pelas suas amizades pela sua incrível capacidade de escolher um mesmo tipo de relacionamento, o abusivo, pense que há algo que sua sombra está tentando comunicar. Uma verdade ocultada, algo sobre merecer amar e ser amada/o e que pode ter a ver com algum momento de sua jornada ou fazer parte de algum aspecto de sua personalidade.

E quando tem aquela pessoa que você detesta desde que conheceu, aquela que irrita você quando fala, quando sorri, quando anda, quando existe, já parou para pensar na razão de tamanha ojeriza? Essas sensações, esses sentimentos que temos por alguém são muito mais reveladores do que somos, do que sentimos do que sobre o que a pessoa é, afinal a pessoa não é responsável sobre o que você sente, ela só pode ser responsável pelo que ela é.

Em situações como essa, a sombra contribui para você como um espelho contribui para quem quer ajeitar o bigode, retirar a maquiagem, escovar o dentes: nos mostra algo que pode melhorar a nossa aparência, sendo que nesse caso não seria a aparência em termos estéticos, mas aquilo que aparentamos para nós mesmos para encobrir o que nos envergonha, o que não queremos reconhecer que exista ou que também somos assim.

Talvez você pense que às vezes uma raiva de alguém é apenas uma raiva de alguém e não tem grande verdade para ser revelada sobre isso. Há verdade nisso também, mas pense que mesmo essa raiva diz respeito ao que VOCÊ sente ou sentiu por algo que outra criatura realizou, disse, expressou. Mais uma vez volta-se para você. Pense mais: o que é dito, o que é feito não tem significado em si, mas se relaciona a algo que contribui para a construção de sentido de quem observa, escuta ou sofre a ação.

O QUE FAZER

Aí você afirma: “então eu só preciso assumir que tenho ‘defeitos’ e pronto, equilibrei tudo!” Calma, jovem, não funciona assim – ainda bem que não. Encarar a sombra não é um processo apenas racional (não mesmo). Não se encara o que se é para negar, confrontar e destruir, mesmo porque não se consegue destruir o que se é. Muito menos para ser “legal”, complacente, algo tipo “bichinho/a de mim que sou tão terrível”. Longe disso.

Entrar em contato com a sombra que somos pode ampliar a luz que temos sem que haja ofuscamento nem apagão, mas um equilíbrio claro/escuro que integrará qualidades importantíssimas na realização efetiva de quem se é. Não se viverá sem sofrimentos, mas se terá mais coragem e alegria para passar pelas atribulações e encarar o que o poeta tão bem definiu como “a pena de viver”.

Assim, trocar a atitude de responsabilizar o mundo pelo que acontece por uma atitude de busca pela própria contribuição individual que se dá para o que há no mundo, é um bom primeiro passo.

A pergunta a se fazer é: o que me leva a essas situações? Por que esses acontecimentos se repetem? Por que eu permito que essas pessoas entrem na minha vida e façam tudo o que fazem? Por que essa pessoa me incomoda tanto? Por que essa presença me inquieta? Por que toda vez que tal coisa é dita eu me sinto assim (ou assado?)

Aqui cabe ilustrar com um clássico do cancioneiro nacional na voz de Raimundo, o Fagner e do Baleiro Zeca:


Seguem as letras:

À Flor da Pele

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo fina

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você

Eu não preciso de muito dinheiro,
Graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..

Revelação

Um dia vestido de saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas, camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar

Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
Sentimento ilhado, morto, amordaçado
Volta a incomodar
Volta a incomodar
Volta a incomodar

Quem nunca se sentiu “à flor da pele”? Qualquer coisa que aconteça é recebida com muita intensidade, desde um bom dia de alguém, passando pela desarrumação da casa até chegar ao vento que irrita simplesmente porque está ventando.

Uma espécie de desorientação, incerteza, insegurança de não se sabe o quê nos ajudam a ter uma chave de leitura para a canção e que pode se aproximar desse “grito silencioso” da sombra que temos e que quer “encontrar a luz”.

Tentar “se guardar”, ilhar o sentimento apenas traz uma falsa sensação de bem-estar, deixar de lado o que incomoda não é lidar com o que incomoda, mas sim não encarar o abismo que se é e que tem um grande olhar no fundo, esperando para nos encarar e nos fazer ver o feio e o belo que somos em uma perspectiva que ultrapassa a estética, dizendo respeito ao mal que somos e ao bem que também nos é.

Aqui é muito importante ter em mente que o mal de que se trata não é o mal caricato de filmes e telenovelas, é o mal ancestral, aquele que faz parte da história, quando não se negava, mas buscava-se a convivência equilibrada que garantisse a manutenção da vida.

Pare e pense: se todo mundo é mal, mas todo mundo é bom (porque diz que os outros é que são ruins), quem é, verdadeiramente a vítima desse mal? Tenso, né? O mal do mundo é o resultado da soma do mal de cada um. Enquanto negarmos isso, seguiremos sofrendo e fazendo sofrer quem afirmamos amar acima de tudo.

Retomo as questões: o que me leva a essas situações? Por que esses acontecimentos se repetem? Por que eu permito que essas pessoas entrem na minha vida e façam tudo o que fazem? Por que essa pessoa me incomoda tanto? Por que essa presença me inquieta? Por que toda vez que tal coisa é dita eu me sinto assim (ou assado?)? O que é essa sensação de desalinho com a minha vida, com as pessoas que eu creio amar?

As respostas, se procuradas no porão em que foram jogados aspectos considerados ruins, nocivos e mesmo temores e fragilidades infundados ou fruto de situações dolorosas, estarão na sombra e na aceitação ativa e não complacente do mal que também há em nós.

Deixaremos de culpar “o dedo podre” nas escolhas amorosas, entenderemos que o chefe não é apenas mandão e assim sucessivamente.


Não somos bons nem maus essencialmente. Somos potencialidades que carregam a ambiguidade do existir. Afirmar que tudo é culpa do ego é uma solução rasa e que não dá conta dos caminhos quase infinitos pelos quais podemos trilhar, se embarcarmos na viagem fantástica do autoconhecimento. Não será fácil, será doloroso, mas com certeza nos engrandecerá e tornará nossa vida mais consciente e, por extensão, mais nossa.   

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CIÚME: o que a filosofia pode nos dizer


Aí a pessoa recebe uma ligação, pede licença para atender e você se corrói de curiosidades ou a pessoa tá toda risonha escrevendo no whatsapp e quando você aparece, sai do aplicativo, fica séria, olha para você e fala: “diz!” Ou ainda: tem uma pessoa nova na turma e começa a conversar com seu amigo, aquele de todas as baladas e horas de estudos (porque ninguém é de ferro, né?) e você olha e pensa: “oxe, oxe, oxe, quem é esse otário?”

Tá rindo, né? Pois bem, o que motiva essa reação em todas as situações descritas acima é o ciúme. Quando se trata de ciúme geralmente se trata também de amor, sendo que o ciúme é entendido como prova de amor, como a confirmação que a outra pessoa (objeto de ciúme) é amada, desejada, que não se quer perder. Pois bem, vamos com a filosofia pensar um pouquinho sobre essas perspectivas. O primeiro passo deve ser conceituar, entender o conceito do que pensamos e mesmo sentimos (se é que é possível neste último caso).

O ciúme é uma paixão e você deve se perguntar se paixão não é outra coisa, não é o que sentimos quando queremos muito estar com alguém, desejamos o corpitcho de tal pessoa nu e várias referências a nudez e o que se pode fazer estando nu com alguém. Esse entendimento, bem popular, de paixão, entretanto, é bem recente e muitas vezes diferenciado de amor. Não trataremos aqui dessa aparente(?) (ou real?) separação. Ficaremos no ciúme e o motivo de ser uma paixão.

Para os gregos, paixão é uma força ou uma ação que tem sua origem de fora de nós. Essa força ou ação impede que nós ajamos, criam obstáculos para o que costumamos fazer de maneira tranquila e calma. Estar sujeito às paixões, nesse sentido inicial para os gregos, era estar impossibilitada de agir. As paixões nos perturbam e nos conduzem de maneira contrária à razão que, estaria, assim, no comando de nossos atos. Nessa perspectiva, paixão é algo negativo, que traz problemas, melhor é afastar-se dela, silenciá-la.

Sendo o ciúme uma paixão, isso quer dizer que quando se está tendo um “ataque de ciúmes” o que pode ser entendido é que a pessoa em questão é vítima de uma perturbação em sua alma, de um tremor íntimo que arrasa toda a sua capacidade de agir “como um ser humano normal”. Você já deve ter ouvido de alguém que surtou de ciúme a frase: “eu estava ‘fora’ de mim”. Esse descontrole já produziu dezenas de milhares de vídeos de pessoas passando vergonha em público porque o/a companheiro/a teve um desses ataques.

Aqui vale mencionar o senso comum que atribue às mulheres uma predisposição maior que os homens para sentir ciúmes. Mais uma pérola do pensamento sexista que apaga as manifestações violentas de homens que assassinaram suas companheiras ou ex-companheiras porque acreditaram que ela “estava se ‘oferecendo’” para os ‘caras’ na festa (ou em qualquer situação)” e não aceitaram o fim do relacionamento, respectivamente. Agora tem que ser em maiúscula: HOMENS E MULHERES TÊM A MESMA CAPACIDADE E POSSIBILIDADE DE MATAR POR CAUSA DE CIÚMES, mas quando é um homem que mata, geralmente se diz que foi por amor.

Nesse ponto é fundamental ter em mente que não temos educação sentimental, educação para lidar com as paixões que, como está descrito acima, vêm de fora e nos perturbam a capacidade de agir sob o domínio da razão. O projeto político pedagógico da maior parte (para não falar de todas) das instituições de ensino se ocupa de conhecimentos matemáticos, de química, de física, de biologia, sobre as regiões do planeta, de seus rios, de como viviam os seres humanos em outras épocas e lugares, de forma que temos estudantes que ingressam na vida adulta sabendo usar log de base 10, enumeram as causas da primeira guerra, a mundial mas que não sabem lidar com a panela de pressão que são sentimentos oriundos de paixões como a ira, o medo e o ciúme etc.

Nesse hiato existente, quem desempenha esse papel? Essa pergunta deve ser feita porque há uma educação sentimental vigente e ela atua sobre cada um/a de nós sem restrições. O cancioneiro popular faz esse papel de sensei das emoções, de guia de sentimentos, de farol de afetos. Há um número quase infinito de canções que nos guiam na nossa formação emocional. Tanto é válida essa afirmação que peço para você que está lendo esse texto agora que pare e pense em uma música que você considera a música de sua vida, aquela que deve representar sua história de vida, seus sentimentos.

É muito provável que seja uma “canção de amor”, independente do gênero, paixões como o ciúme estão presentes em várias músicas que foram e ainda são sucesso por todo o território nacional. Algumas são sucesso mundial (ocidental, pelo menos). Não é exagero afirmar que os nossos sentimentos, e como lidamos com eles, foram orientados em grande medida pelo que cantoras, cantores, grupos musicais reproduziram e reproduzem ainda hoje. Continue a leitura e confira alguns exemplos.

Roberto Carlos, aquele do especial clássico de fim de ano, tem uma das mais conhecidas canções sobre a temática, mas que na voz do grupo Raça Negra tem mais sentimento (minha opinião tem sim, tem sim, tem sim!)



Se você demora mais um pouco

Eu fico louco esperando por você
E digo que não me preocupa
Procuro uma desculpa
Mas que todo mundo vê

Que é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você põe aquele seu vestido lindo
E alguém olha pra você
Eu digo que já não gosto dele
Que você não vê que ele
Está ficando "demodê"

Mas é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Esse telefone que não pára de tocar
Está sempre ocupado quando eu penso em lhe falar
Quero então saber logo quem lhe telefonou
O que disse, o que queria, e o que você falou

Só de ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você me diz que vai sair sozinha
Eu não deixo você ir
Entenda que no meu coração
Tem amor demais, meu bem e essa é a razão

Do meu ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você


O rock também tem contribuição nesse processo de educação sentimental, escute e leia a letra de Ciúme, do grupo Ultraje a Rigor:



Eu quero levar

Uma vida moderninha
Deixar minha menininha
Sair sozinha
Não ser machista
E não bancar o possessivo
Ser mais seguro
E não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade
Hiê! Hiê! Hiê!

Mas eu me mordo de ciúme

Companhia do Calipso também cantou essa paixão em Morrendo de Ciúme:



Ouvi alguém dizendo que você andou falando em mim sem

perceber.
Depois que tomou todas por aí.
Estou sabendo que até chorou.
E quando a gente chora isso é amor.
Por que é que você não que assumir.
Assuma que me ama eu quero ouvir.

Tá, você tá é morrendo de ciúmes.
Porque não deixa logo esse costume de querer enganar
seu coração.
Quer dar uma de difícil.
Eu te conheço.
Depois não quebre a cara pague o preço.
Porque não deixa dessa indecisão.
Você que se matar de solidão.


O tal sertanejo universitário, na voz de Edu Chociay, garante aos ouvidos ávidos por declarações dessa natureza, a música Ciúme:

Sim, assumi que é ciúmes sim

Eu fico tão fora de mim
Tudo é ameaça pra tirar você de mim

Também, tenho medo de ficar sem
De perder quem me faz tão bem
Porém


Você desaba e chora

E eu reflito na hora
O que eu tô causando pra você

Eu vou mudar meu jeito
Curar o meu defeito
Olhando nos seus olhos vou dizer
Me perdoa, é que

É que eu te amo mais
Que a mim mesmo, mas
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes

Eu não quero ninguém
Querendo te querer
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes


Você pode fazer a sua lista de músicas sobre ciúme e analisá-las a partir do que abordaremos aqui. Cuidemos da vida então.

Essa paixão, o ciúme, é ambígua pois tanto pode apresentar valores positivos quanto negativos, ou seja, se considerarmos que quando gostamos de alguém, cuidamos, então temos resultados positivos quando somos tomados por ciúmes. É como se virássemos guardiãs, sempre dispostas/os a manter a pessoa bem, viva, feliz etc.

Porém, meio que por um passe de mágica, quem antes cuidava passa a, digamos, “cuidar demais”. Restringir a liberdade de locomoção, reduzir as companhias, mesmo as mais antigas amizades, anteriores ao próprio relacionamento. Vale lembrar que não se trata apenas de relacionamentos ditos amorosos, mas de qualquer relação entre humanos.

O que pode levar o ciúme a sair do cuidado e passar a ser opressor? Segundo René Descartes, o egoísmo e a insegurança são o ponto de partida de toda relação ciumenta. Quem é ciumento/a carrega em si um desejo de possuir sozinha/o seja a companhia, a conversa ou mesmo a intimidade e a partilha de sentimentos mais profundos. Daí querer monopólio sobre alguns assuntos da vida da pessoa em questão não querendo, assim, que conviva com outros indivíduos.

No que diz respeito à insegurança, a pessoa ciumenta, muitas vezes, não se sente merecedora do amor que recebe, seja de amizades ou da pessoa com quem priva de mais intimidade. Nesse sentido, a pessoa ciumenta se sente “o cocô do cavalo do bandido”, indigna de qualquer consideração. Como esse indivíduo lida com essa percepção? Surtando!

Perturbadora, mas muito válidas, também são as perspectivas de Sigmund Freud, a saber: sente-se ciúme porque se rivaliza com alguém. A pessoa ciumenta sente que está concorrendo com outras no que diz respeito às atenções e amores de quem a acompanha. Até aí parece de boas, mas a questão não é sobre disputa e sim sobre como a pessoa se vê e a importância que atribui a si.

Freud ainda nos oferece a abordagem do ciúme que tem como ponto de partida a projeção do que a pessoa ciumenta sente. Funcionaria assim: quem afirma que a pessoa está “dando bola” para outras, está flertando, paquerando, rolando um “lesco-lesco” na verdade é ela quem deseja isso, quem quer “pular a cerca” é ela. Não conseguindo perceber ou não querendo aceitar esse desejo que há em si, a pessoa aponta para a/o companheira/o. Seria algo do tipo: eu quero, mas não assumo e digo que é minha companhia que quer.

Agora a terceira forma de ciúme impacta de maneira autoexplicativa: quem sente ciúme seria uma pessoa homoafetiva reprimida uma vez que ela é quem deseja o/a outro/a, o indivíduo que rivaliza supostamente com ele. Pensando em relações heteronormativas, seria algo assim: o namorado ciumento teria desejos por outros homens mas nega a si que os sente. A namorada ciumenta, idem. Tá pensando agora sobre isso, né? Há um debate intenso sobre essas possibilidades explicativas e é importante lembrar que são possibilidades e não verdades absolutas ou inquestionáveis.

COMO LIDAR?

O pensamento filosófico não dá receita de bolo, mas indicações para que possamos encontrar as possíveis chaves para uma vida mais consciente, o que não quer dizer uma vida livre de sofrimentos, mas uma vida com mais autonomia até para lidar com o que dói. O ciúme faz sofrer tanto quem tem os ataques quanto quem sofre, quem é “objeto” de ciúme.

Quando o ciúme deixa de ser expressão de cuidado e passa a ser negativo, é fundamental que a pessoa ciumenta aceite que ela pode estar se vendo como alguém sem valor, sem importância. Uma possível saída é atribuir um valor a si que seja equivalente ao que teme perder, ou seja, quando se está seguro de si, seguro sobre quem se é, seguro do valor que tem, há um perigo infinitamente menor de ser tomado pela paixão que é o ciúme.

Isso não quer dizer que não se vai sofrer ou que se está imune às dores causadas por perdas ou abandonos mesmo porque para ser abandonada/o basta ter companhia. A Escola Estoica pode nos ensinar, se permitirmos, que só deveríamos nos ocupar do que depende de nós para acontecer. Quando sentimos ciúmes estamos sob efeitos externos que reduzem, que minguam a nossa capacidade de, conscientemente, tomar decisões racionalmente.

Podemos sentir ciúmes, podemos sim, mas após sentir devemos procurar entender o que essa paixão tem a dizer sobre nós, afinal só controlamos o que nós fazemos. Os atos de outras pessoas (as que afirmamos amar) dizem respeito unicamente ao que as motiva. Negar a paixão do ciúme é não dar um importante passo rumo ao autoconhecimento, mas se deixar tomar pelo ciúme é abrir mão do autodomínio que pode nos garantir autonomia e soberania de si. O que fazer, então? A justa medida originada do autoconhecimento parece ser a melhor resposta.